Sexta-feira, 16 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Construindo e desconstruindo Lula – parte II

Por lgarcia em 08/07/2003 na edição 232

MÍDIA & REFORMAS

Antonio Fernando Beraldo (*)

Deu na Folha de S.Paulo (domingo, 6/7): Lula vai convocar apresentadores de TV para uma reunião, no fim do mês, para conquistar o apoio do distinto público e ajudar na aprovação das reformas. Além do Ratinho, do SBT, que já aderiu, serão convidados Gugu Liberato, José Luiz Datena, Luciana Gimenez, Hebe Camargo, Ana Maria Braga, Luciano Huck, Fausto Silva e Jô Soares, entre outros. Segundo o jornal, a audiência somada desse time é de cerca de 50 milhões de telespectadores.

Lula deve estar mesmo precisando disso, e muito. A semana passada mostrou que a trilha não estava suficientemente limpa e as bases governistas, principalmente as neogovernistas, não são de se pegar com a mão. O jogo no Congresso não é tão fácil assim, alguns partidos (como o PTB) se mostram insaciáveis, outros (como o PMDB), inconfiáveis. Enfim, é como sempre foi: um jogo de interesses. E custa caro manter em banho-maria certas "inconveniências", como ACM e o caso do Banestado, ou partir para o ataque, como no caso do governador Roriz. Brigar com o Judiciário é arriscadíssimo, botar o chapéu do MST, idem, idem. Com o susto, a oposição acordou, PFL à frente. Embolou tudo e os andaimes da construção Lula começaram a balançar com o vento.

Descobriu-se até que o cimento e a brita dos alicerces ? o acordo com os governadores ?, não estava tão firme, assim. Depois daquela reunião com o presidente, dava para ver, pelas faces atordoadas de uns e pelo sorrisinho malicioso de outros, que uns não entenderam nada e estão com receio de serem passados para trás, e outros, que também não entenderam nada, perceberam a ocasião de passar os outros para trás. Com o tempo, a ficha foi caindo e alguns governadores descobriram que as implicações estaduais da reforma da Previdência podem ser o caminho mais fácil para o suicídio político.

Lula ainda tem muita popularidade para gastar, como mostrou a pesquisa da CNI. Mas nos estados a coisa não é tão fácil, a grana é pouca e o ICMS é um tesouro difícil de repartir nesta briga de cachorro grande. Enfim, "c’est la politique", colega, e um governo estadual é um bom começo de caminho até o Palácio do Planalto, não?

O governo Lula aposta tudo que tem nas reformas, tributária e da Previdência. A reforma tributária é uma coisa tão, mas tão complicada, que imagino que vá acabar sendo desmontada, remontada e resolvida politicamente com os governadores reagindo ao rolo compressor do governo federal.

Quanto à reforma da Previdência, o rolo (nos dois sentidos) é mais compressor ainda e não vai ser tão fácil, principalmente no caso da taxação dos inativos. Mineira e particularmente, desconfio que, neste item, uma (a da Previdência) é moeda de troca da outra (a tributária), na base das compensações financeiras. Mas é uma troca "assimétrica", como está na moda dizer, e é uma moeda que está queimando nas mãos. Por exemplo, a reunião da Comissão de Constituição e Justiça, que quase acaba nas chamadas "vias de fato", com o deputado Alceu Collares (PDT-RS) chamando o deputado Maurício Rands (PT-PE) de "incompetente" e acusando-o de ter "copiado" um artigo jurídico constitucional para justificar a taxação dos inativos. O deputado Luiz Eduardo Greenhalg (PT-SP), presidente da comissão, partiu em defesa do coleg, e seguiu-se um edificante debate sobre quem combateu mais a ditadura ? e, por isso, tem mais "otoridade" para falar. O deputado Paulo Rocha (PT-PA), que foi chamado de "traidor" por uma inquieta platéia de servidores, tentou defender Greenhalgh, e foi chamado para a briga pelo nobre deputado Collares. Mas veio em boa hora o líder do PTB, o deputado Roberto Jefferson (RJ), botando panos quentes (ou frios) na contenda que se avizinhava. Refeita a paz, partiu o projeto agora para outra comissão de deputados, que teve estragada parte de suas férias anuais, mas compensada pelo aumento de sua féria mensal.

O estilo que o brasileiro gosta

O governo federal tem 113 milhões de reais para gastar com o "esclarecimento" do estimado auditório, segundo a mesma reportagem da Folha. Depois que a Justiça mandou parar com a exibição daqueles filmetes "esclarecedores", o negócio é partir para cima com tudo, mesmo contando com comunicadores que não são exatamente adeptos entusiásticos do Lula, como Gugu LIberato, autor da famosa frase "não fui eu que inventou Carla Peres".

"Não se trata de apoiar ou não determinado governo. O importante é a função social do comunicador de esclarecer o seu público sobre aspectos complexos da política, levando à grande massa problemas sociais com uma linguagem simples e direta, dirimindo dúvidas e esclarecendo pontos", falou e disse o ex-serrista na mesma matéria.

Não duvido nem um segundo da capacidade de convencimento de qualquer um destes pesos-pesados, mas gostaria de ver o Gugu explicando numa linguagem simples e direta qual é o motivo de se taxar os inativos e reduzir em 30% as pensões, se esta "economia" vai levar uns bons 30 anos para mostrar algum efeito. O efeito político é muito mais rápido, e será que alguém como o Gugu, que de bobo não tem nada, agüenta o tranco?

Vai ser divertido assistir Luciana Gimenez falando sobre "renúncia fiscal" (deve achar que é o funcionário do fisco que pediu demissão); o Datena aos berros mandando a polícia botar no camburão os diretores das empresas mega-devedoras; os calouros do Sílvio Santos pedindo ajuda aos universitários para o feminino de "marajá": marajó, maragia, marajura, marajaca ou marani; Hebe Camargo achando "uma gracinha" a enxurrada de aposentadorias nas universidades e dando "selinhos" no ministro Berzoini. Estou curioso para ver o Luciano Huck promover uma gincana para ver quem sabe mais sobre a estrutura do plano de contas públicas na Constituição de 1988 ? as moças de biquíni, por favor; o Jô Soares entrevistar uma sobrevivente do Iapetec, e a Ana Maria Braga se emocionar com a história de uma professora que, mesmo aos 55 anos, depois de cumprir com sua carga de 40 horas por semana numa escola fundamental (4 turmas, com 38 alunos cada, alguns com hiperatividade ou autismo, outros com dislexia, todos com fome), ainda consegue dar aulas para uma classe noturna de alfabetização de adultos ? alguns, armados ?, em pleno complexo do Alemão, "percebendo" R$ 421,00, líquidos, por mês. E o Ratinho, descendo o tacape nos servidores grevistas, esses arruaceiros.

Esta semana, segundo foi anunciado, tanto Lula quanto outros ministros irão à TV defender as propostas das reformas. E deve ter também o "outro lado", com programas feitos ? ou pelo menos encomendados ? por funcionários públicos federais.

Lula é um craque na conversa, tem carisma, bom humor, e não é de hoje. Até agora, foi possível, para o Lula, driblar as notícias ruins com suas frases de efeito, suas tiradas de "homem do povo" ? no "estilo que o povo gosta", como disse o Ratinho. Mas esta mágica, de tão repetida, vai se desgastando. No mesmo dia que põe o boné do MST, e apavora a classe média, dá uns beijinhos nas Sheilas do Tchan.

Num dia, anuncia o "espetáculo do crescimento", no outro o ministro "revê" as metas de crescimento do PIB para baixo, uns quase impossíveis 1,5% em 2003. Num dia, o governo diz que não pode fazer nada em relação ao tarifaço das teles e das energéticas, mas o ministro Miro Teixeira joga a bola para a "sociedade" e o Judiciário (que vai acabar saindo como o herói desta história). No outro dia ficamos sabendo que o tarifaço é muito interessante para o bolso dos estados: só de ICMS, uma graninha extra de 11 bilhões de reais ? o que equivale a mais de cinco anos da "economia" que virá com as reformas! Num dia o dólar cai mais um pouquinho, no outro a inflação mostra-se negativa! Deflação com desemprego, mais recessão e perda de poder aquisitivo é o pior dos mundos ? mesmo o Lula, que insiste em se vangloriar de que "não estudou nem tem diploma", deve saber. E aí não tem Faustão que dê jeito.

(*) Engenheiro, professor do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Juiz de Fora

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