Sábado, 26 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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PRIMEIRAS EDIçõES > **

Construindo e desconstruindo Lula

Por lgarcia em 01/07/2003 na edição 231

MÍDIA & REFORMAS

Antonio Fernando Beraldo (*)

Então, fica combinado assim: Lula é um cara muito legal, preocupado com os pobres e os desassistidos, fala grosso com os figurões lá fora e, aqui dentro, descobre que governar o país é muito mais difícil do que parecia ? e aí, chora. Enxuga as lágrimas e faz uma série de reuniões curtas, de umas 18 horas cada, cobrando dos ministros as "ações sociais", ou milagres, que estes ministros (uns incompetentes!) não conseguem praticar, como, por exemplo, andar sobre as águas, ou alfabetizar 20 milhões de pessoas sem gastar um tostão ? o que dá no mesmo.

Para os corações e mentes do público em geral, o presidente profere seus evangelhos, falando por meio de parábolas ? a penúltima foi da mulher grávida. Continua no palanque, matando do coração sua equipe de segurança, e assistindo, com uma cara de "dois de paus", uma senhora defender ninguém menos do que o inimigo público número 1, Fernandinho Beira-Mar.

Seu ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, vulgo "O Sombra", ou "Alter Ego", é um sujeito firme nas convicções e um tanto grosso, meio cabeça-dura, mas que não tem medo de botar a cara para apanhar, e não dá satisfação a quem quer que seja: "Mudei, sim, e daí?", e ponto final. O mais radical dos petistas encafifou uma idéia, não se deixa pressionar por ninguém, seja a mãe (dele), sejam os outros petistas radicais, sejam os demais 30 petistas não tão radicais, seja a "sociedade", seja a torcida do Corinthians.

Já o ministro Antonio Palocci é também um sujeito durão, e também resiste a todas as "pressões". "O Palocci é médico e os médicos não sentem pressão", Lula dixit. Que venham a CNBB, a FIESP, de novo "a sociedade" e todos os outros economistas e pessoas "que entendem" e ele não está nem aí. Ele, e apenas ele, sabe fazer as coisas (o Gustavo Franco também sabia). E que coisas: queda de 4,2% na produção industrial, menos 15% na venda de eletrônicos, 20% a menos na venda de carros, desemprego de 13% e queda de 0,1% no PIB. Um sucesso!

E o Henrique Meirelles, governor do BC e aposentado (?) do Bank Boston, idem, idem, está cumprindo religiosamente seu papel de guardião da moeda e da taxa de juros. De vez em quando, num ato de caridade, concede meio por cento a menos nos juros ? o dobro do corte do Fed, nos EUA! Por isso, todos nós dormimos tranqüilos ? o pior já chegou.

Tem ainda o Ricardo Berzoini, que apanha de tudo quanto é lado, coitado, mas está ali para isso mesmo. Aliás, todos ali estão ali para isso mesmo. Na Educação, o ministro Cristovam Buarque, entre outras doideiras delirantes, quer taxar os profissionais liberais ricos formados nas universidades federais, que, afinal, estão milionários às custas da profissão ? que lhes foi ensinada "de graça". Afinal, lá nos EUA não é assim? (Não é não, sr. ministro. Nos EUA são feitas doações, e não é todo mundo que doa, não). E tem os ministros do Trabalho e da Saúde, quem são, mesmo?

Tocando bongô

Não estava uma gracinha o Lula tocando bongô naquela fotografia (O Globo, 06/06)? Do lado, o José Dirceu acompanhava batendo palminha e, em cima, o estrepitoso título "Governo mostra força e vence teste para mudar a Previdência". Pouca, ou nenhuma palavra sobre o caso Banestado (US$ 30 bi), é claro, nem sobre os devedores da Previdência (R$ 150 bi), e neca sobre as verdadeiras causas do chamado "rombo" da retrocitada.

Para que fazer marola, rosnar uma timbalada e abalar uma imagem tão bem construída? Estes tambores devem ser abafados. Fica só o som do bongô, que é aquele que a gente ouve na introdução dos boleros, prróc-póc-póc, anunciando que vem aí algo que não vai terminar bem ? como, por exemplo, aquele que canta "dejaste abandonada la ilusión que había em mi corazón por ti" (La Puerta, de Luiz Demetrio), muito apropriado para milhões de ex-eleitores do Lula.

A percussão do bongô ornamenta, pontua, faz firulas, salta pra lá e pra cá, e distrai nossa atenção já que ninguém percebe o bumbo e o contrabaixo ? que firmam o ritmo.

A grande mídia já deve ter percebido o bate-cabeça do governo, e os constrangedores improvisos do presidente, e está deitando e rolando. Essa nova construção da imagem do Lula (e do governo Lula) fornece momentos tão bobinhos como a história do bongô quanto aquela proposta surrealista de sobretaxar as exportações de armas de guerra, em benefício dos países pobres (Brasil incluído nos países pobres). Armas leves e o ataque da seleção são isentos, tanques e canhões com mira laser pagam xis por cento, mísseis balíiacute;sticos pagam o dobro, e bombas atômicas resolvem o problema do Vale do Jequitinhonha e da Etiópia.

Mas há momentos escorregadios, densos, como o flash dezoito-brumário da diatribe "Pode ficar certo que não tem chuva, não tem geada, não tem terremoto, não tem cara feia, não tem Congresso Nacional, não tem Poder Judiciário. Só Deus será capaz de impedir que a gente faça esse país ocupar o lugar de destaque que ele nunca deveria ter deixado de ocupar". Fujimori perde.

No dia seguinte, os bombeiros da mídia suaram para ajudar o próprio Lula a debelar o incêndio (incêndios são "debelados") e manter a construção de pé: Lula não se referia às reformas que estão trambicando no Congresso. Referia-se a quê, então? À exportação de café para a Malásia ou ao movimento tectônico que desmembrou a Pangea?

Agora é jogo de campeonato

A partir desta semana entra em campo, como um bolero acelerado, o momento da verdade, ou prova dos noves do governo Lula: a greve dos funcionários públicos federais. A passeata do dia 11/06, em Brasília, foi uma overture, tocada pela mídia em diversos andamentos conforme a "vocação" de cada um:

Folha de S.Paulo: "Servidores fazem maior ato contra Lula". Embaixo da manchete, uma fotografia da passeata; em diagonal, a imagem desmentindo o número de manifestantes ? uns 30 mil, segundo a PM. Na imensidão da Esplanada dos Ministérios, qualquer multidão de menos de 500 mil pessoas mais parece uma procissão de cidade do interior. Na página 4 a 13, só paulada no governo Lula.

Jornal do Brasil: "Tribunal rejeita as contas do Rio em 2002". A seguir, sob uma foto lindíssima em tons de vermelho, como só o JB é capaz de dar, o título "Bolsão sincero e radical" ? já li esta frase antes, numa época que não dá saudade. Saudade do JB daquela época, isto sim.

O Globo, editoria País: a narrativa pormenorizada dos bastidores, inclusive com o presidente do PT, José Genoíno ("Ninguém vetou a ida de deputados do PT à manifestação") refrescando a desobediência dos deputados às "orientações" dadas pelo ministro José Dirceu. No dia seguinte, vinha o anúncio da punição aos desobedientes, com retaliações, listas de nomes, ameaças de expurgo e tudo, au rigueur do estilo, digamos, macartista.

No Estado de S.Paulo, a manchete principal era "Israel e palestinos: ataques matam 26" (sem informar o placar de quantos morreram de cada lado nesta interminável estupidez). Embaixo, "sutilmente" em cascata, três títulos: "Servidores agridem líderes do PT e da CUT", "Déficit da Previdência diminuirá 13,3%" e "MST invade área produtiva". Ao lado, outra foto bonita, quase impressionista, da passeata, sobre a legenda: "Anti-reforma: servidores em Brasília: agressividade contra aliados do governo". Entenda-se o recado: "Olha só, pessoal, existe um PT (do Bem) que está voltado a curar o país de suas mazelas financeiras, mas tem um outro PT agressivo (do Mal) que faz bagunça, agride seus próprios líderes e seu ?braço guerrilheiro-camponês? invade áreas produtivas". Dentro do jornal, reportagens entre "A primeira vaia a gente nunca esquece ? O PT viveu ontem o lado ruim da realidade de ser governo …" e "Governo não vai negociar o espírito das reformas".

E isto foi só o aperitivo. Ao fim dos primeiros seis meses, do alto de seus 42% de aprovação (Folha, 26/06), Lula parte para a guerra das reformas. Daqui para frente, espera-se um festival contorcionista de propaganda e contra-propaganda, destes de torcer o pescoço da "opinião pública". No desfile, de um lado e de outro, os destaques de sempre:

** "Os servidores federais não tem reajuste há mais de oito anos" ? mintchura, tiveram, sim, embora chamar de "reajuste" esses trocados a mais é, no mínimo, brincar com o vernáculo. O reajuste deste ano, por exemplo, varia de 11% (para quem ganha até R$ 600,00) a 1,01% (para quem ganha mais do que R$ 5.000,00). A inflação passada só serve para reajustar as tarifas, não é? Este "aumento" está prometido há uns quatro meses e ainda não foi pago, mas isto é detalhe.

** "É preciso diminuir ou acabar com os benefícios dos servidores públicos, e taxar os inativos, para que o governo possa criar empregos e inserir mais pessoas na economia formal." Tem tanto a ver uma coisa com a outra quanto o boi de Parintins com a conquista da Lua. Qualquer um que saiba fazer as quatro operações irá descobrir que, mesmo que essa "contribuição" (que eufemismo jóia!) venha a ser instituída, e que a grana seja realmente aplicada na geração de empregos, não mexe um centímetro na montanha de dinheiro que o governo deve, dentro e fora ? que, ao contrário que andam dizendo para o Lula, é a causa maior do engessamento da economia do país (vide as centenas de discursos de ex-oposicionistas pré-2003).

** "Por que um cortador de cana se aposenta aos 60 anos e um professor universitário não pode se aposentar com essa idade?" Esta equivale aos "vagabundos" do FHC. Alguém poderia fazer a gentileza de explicar ao Exmo. Sr. Presidente que, segundo um contrato que é firmado entre as partes, as pessoas se aposentam depois de xis anos de contribuição, independente de serem plantadores de cana, ou professores, ou juízes do Supremo. Se é para mudar, vamos mudar, sim, mas aos poucos, e sem violências nem rupturas, como no resto dos países civilizados do planeta ? vide a França, por exemplo, semanas atrás.

** "O rombo da Previdência é causado pelas elevadíssimas aposentadorias dos servidores. Tem gente que recebe mais de 50 mil de pensão." É verdade, mas, como diria o ministro José Dirceu, e daí? Se essas aposentadorias são tão gritantes assim, de duas, uma: ou são ilegais, e devem ser revistas, ou são legais, e não se pode mexer nelas. O governo Lula não tem nada com isso, diga-se, e nem com os R$ 150 bi dos devedores ? embora algumas das prefeituras do PT estejam no "listão". Que tal um pouco de serenidade, hein?

Briga de namorados, ou de marido e mulher, é coisa muito feia de ver. Pelo menos 25% da CUT (e do PT) são de sindicatos de servidores públicos, que votaram maciçamente em Lula. A briga vai "passar" na mídia, e cada lado vai lavar, em público, a roupa suja que conhecem muito bem. Fiquemos de olhos bem abertos.

Em tempo

Sobre esta tal da "opinião pública", peço licença para transcrever parte de matéria da Folha, de 9/3/03, assinada por Paulo Reda, que talvez tenha passado despercebida, depois da ressaca do Carnaval:


"Duas pesquisas feitas pelo Ibope às vésperas do movimento militar de 31 de março de 1964, e nunca divulgadas, mostram que o presidente João Goulart contava com amplo apoio popular ao ser deposto, apesar da polarização ideológica que o país enfrentava. Uma das pesquisas, realizada pelo Ibope em três cidades paulistas, apontava que 15% das pessoas ouvidas consideravam o governo Jango ótimo, 30% bom e 24% regular. Apenas 16% apontavam a administração Goulart como má ou péssima. A outra pesquisa do acervo do Ibope, que entrevistou eleitores de oito capitais entre os dias 9 e 26 de março, mostra que 49,8% dos pesquisados admitiam votar em Jango caso ele pudesse ser candidato à reeleição, contra 41,8% que rejeitavam a possibilidade.

Esses e outros levantamentos inéditos estão sendo catalogadas (sic) no Arquivo Edgard Leuenroth, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas)."


Sem comentários.

(*) Engenheiro, professor de Departamento de Estatística da Universidade Federal de Juiz de Fora

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