Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

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Contardo Calligaris

Por lgarcia em 16/10/2002 na edição 194

ELEIÇÕES 2002

“Devaneios do primeiro turno”, copyright Folha de S. Paulo, 10/10/02

1) Na segunda-feira, comento os resultados do primeiro turno com M., um amigo americano. De repente, as diferenças entre Lula e Serra me parecem pouco relevantes. O fato crucial é que a imensa maioria dos brasileiros votou em candidatos que, com propostas diferentes, querem uma sociedade com menos exclusão.

Para que M. entenda melhor, pego as coisas de longe. Explico que a modernização se dá por caminhos diferentes, segundo a história de cada nação. O Brasil modernizou sua economia e seus costumes sem que o processo produzisse a inclusão social de todos. Repetidamente, a modernidade mudou a cara do país, mas permaneceram formas arcaicas de domínio e de divisão social.

O resultado eleitoral de hoje, explico ao amigo, não é o prelúdio de uma revolução socialista na América Latina. O Departamento de Estado americano pode dormir tranquilo. O que acontece é sobretudo a expressão (tardia) desta exigência básica do liberalismo: as desigualdades devem ser contidas de forma que, apesar delas, seja possível a existência de uma sociedade de todos e para todos. A democracia não tem como ser puramente formal: para que seja viável, pode haver desfavorecidos, mas não deserdados, e as margens da sociedade devem ser fortuitas e diminutas.

Todo o mundo queria que o Brasil se modernizasse, não é? Pois é, então, ele quer modernizar-se de verdade.

2) Ainda na segunda-feira, mais tarde, leio a coluna de Boris Fausto, na Folha. Ele observa que o processo eleitoral, no Brasil, ainda suscita fortes emoções, enquanto, nos Estados Unidos e na Europa, parece haver uma ?despolitização?, efeito, talvez, da menor premência dos problemas sociais.

Faz sentido. Durante mais de 200 anos (no mínimo, desde a Revolução Americana), as paixões políticas ocidentais seguiram caminhos variados, mas tiveram uma inspiração básica comum: a vontade de criar uma sociedade que incluísse todos, ao menos formalmente.

Claro, ainda hoje, na Europa e nos EUA, não faltam miseráveis. Mas tanto o despojamento quanto o número de despojados não chegam a comprometer a sensação de que, em regra, a sociedade prefere incluir a excluir.

No Brasil, inventar uma sociedade que prefira incluir é o empreendimento do dia.

3) Quando tivermos conquistado uma sociedade mais justa e, assim, satisfeito os requisitos do projeto liberal, vamos fazer o quê?

Será que nossos anseios políticos se acalmarão e passaremos a cuidar só da gestão de nosso bem-estar? No estilo anos 90 nos EUA, exultaríamos a cada dia com os ganhos de nossa pequena carteira de ações e com a esperança de uma aposentadoria precoce. No estilo 2002 nos EUA, derrotados na Bolsa, passaríamos os domingos verificando, nos classificados, os preços dos apartamentos parecidos com o nosso e perguntando-nos se está ou não na hora de vender.

Nos anos 60, momento de bem-estar na Europa e nos EUA, a contracultura nasceu justamente para que o conforto material não fosse o fim da política. Desde então, a ambição de inventar convívios cotidianos que valha a pena viver se tornou parte integrante da esperança de um mundo melhor.

Mas nossa cultura privilegia o indivíduo, e não mudaremos tão cedo. Portanto somos condenados a uma insatisfação social inevitável, perseguidos pela sensação (justificada) de que desperdiçamos os encontros, as amizades, os amores.

Comentando uma coluna de algumas semanas atrás, um leitor, Yatyr Gasparini, descreve perfeitamente essa frustração que todos conhecemos: ?O momento mais esperado do dia é precisamente aquele em que chego em casa e encontro, abraço e beijo minha mulher e meus filhos. Todos passamos o dia fora trabalhando ou estudando. Após o jantar, pouco fazemos juntos. Acabamos nos separando, cada um fazendo a atividade que mais lhe satisfaz no momento, que invariavelmente não é comum: um vai dormir, outro joga videogame, outro brinca de bonecas, outro zapeia a TV ou a internet. As atividades que fazemos juntos, como ir ao cinema ou ao teatro, não são ?em conjunto?: apenas nos alienamos ao mesmo tempo. Será que nosso mal não é exatamente esse? Trabalhamos muito, temos pouco tempo para nós e somos egoístas demais para dividi-lo com nossos familiares?.

Quando era criança, eu brincava com três tipos de devaneio. Havia os sonhos de aventuras solitárias, que idealizavam a liberdade do indivíduo. Havia os sonhos de ser Pancho Vila ou um de seus companheiros, que pareciam sonhos sociais, mas, de fato, exaltavam o heroísmo do indivíduo que se sacrifica pelo bem da revolução. E havia os sonhos de fim do mundo, que terminavam assim: minha família, com um grupo de amigos, sobreviveria no meio do nada. Juntos, reconstruiríamos o mundo.

Desde então, a frustração política e social (que é crônica) me deixa com os mesmos sonhos: a vontade de alugar o barco de Amyr Klink, a vontade de entrar no exército de Pancho Vila e, muito mais difícil, o sonho de que minha casa, a rua, o bairro, num belo dia, se transformem na cabana dos Robinsons Suíços.”

“Jornalistas são barrados nas urnas”, copyright Revista Imprensa, 11/10/02

“Lugar de jornalista é na redação. Analisando o mapa da nova Câmara dos Deputados, eleita no último dia 6 de outubro, tem-se a impressão que esse foi o recado dos eleitores aos jornalistas que tentaram trocar a redação pelo gabinete.

Dos 79 postulantes, apenas 6 alcançaram votos o suficiente para se converterem, ou seguirem sendo, políticos.

Ficaram fora nomes badalados da mídia como João Leite Neto, ex apresentador do Aqui e Agora, extinto folhetim policial do SBT, Sérgio Rondino, repórter da Band e Juarez Soares, veterano comentarista esportivo. Outro que se deu mal foi Nelo Rodolfo, radialista que estava em seu segundo mandato.

Entre os eleitos, o campeão de votos foi um jornalista que há muito tempo deixou de exercer a profissão. ?Antes de meu primeiro mandato, como vereador em São Paulo, fui repórter dos Diários Associados em Alagoas, meu estado natal, e atuei com assessor de imprensa?, conta Aldo Rebelo, que recebeu expressivos 134.212 votos em São Paulo, sendo um dos mais votados da coligação encabeçada pelo PT.

Contribuíram para a vitória de Aldo, sua atuação como presidente da CPI CBF – Nike, responsável pela retumbante derrota, nas urnas, da bancada da bola, chefiada por Eurico Miranda. A segunda maior votação entre os jornalistas foi para Paulo Pimenta, veterano repórter petista do Rio Grande do Sul, que recebeu 128.400 votos. A terceira colocação no bloco da imprensa foi para Vic Pires, eleita no Pará com 91.504 votos.

Em quarto ficou Íris Simões, do PTB do Paraná. Em quinto, o antológico Fernando Gabeira, ex Partido Verde, que experimentou sua primeira eleição como petista. O lanterna da categoria foi José Lupércio Ramos, eleito com 50.000 votos.

Entre os jornalistas que tentaram uma vaga ao governo, as vitórias mais expressivas foram a da radialista Rosinha Garotinho, do Rio de Janeiro e de Paulo Souto, da Bahia, que também é radialista. A derrota que mais chamou atenção, foi a do ex governador gaúcho Antonio Brito. Entre os presidenciáveis, dois jornalistas concorreram. O radialista Antony Garotinho, PSB, teve 15.166.426 votos enquanto Rui Costa Pimenta, do PCO, 38.056 votos.”

“Eleição sem povo”, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 11/10/02

“Vamos começar assim:

O Diagnóstico:

(1) Do artigo ?Como os Jornais Asfixiam os Leitores?, de Alcino Leite Neto, correspondente da Folha de S. Paulo em Paris (Folha Online, ?Pensata?, 23/08).

O Tratamento:

(2) Do livro ?Viagem ao Mundo dos Taleban?, de Lourival Sant?Anna, repórter especial de O Estado de S. Paulo. (?Coleção Vida de Repórter?, Geração Editorial, 1a Edição- Abril de 2002).

?Uma das coisas que mais impressionam quando se lê, no exterior, a cobertura das eleições presidenciais nos jornais brasileiros é a ausência de notícias, reportagens e reflexões de fato sobre os principais agentes políticos de uma democracia: os próprios eleitores, os cidadãos anônimos que elegem os candidatos.

Todo o noticiário eleitoral na imprensa é voltado para as personalidades políticas, os partidos, as articulações, as intrigas – até o exagero. Muito papel é gasto também para falar sobre as reações da elite econômica e dos grandes empresários, em reportagens com frequência redundantes, pois não há a gente mais previsível no mundo do que empresários?. (1)

?Eu queria ter conversas sérias com os afegãos (…) Iqbal [o guia de Lourival] explicou para ele [um miliciano] nossa intenção de entrevistar afegãos recém-chegados – afegãos frescos, como dizia eu – e ele decidiu nos acompanhar (…) Dentro do pátio, havia uma varanda coberta de palha sustentada por varas. Cerca de dez homens estavam sentados ou deitados nas charpayi, macas que servem de sofás (…) Montamos ali um sistema de produção em série de entrevistas. (…) Eles iam trazendo e eu ia fazendo as entrevistas, que concluía dizendo:

– O próximo.? (2, p. 149)

?Os eleitores em geral aparecem somente nas pesquisas de opinião, transfigurados em índices frios. Ou no folclore das campanhas, descritos como espécimes de um zoológico populista. Ou ainda em reportagens excepcionais sobre comunidades extraordinárias, como (imagino) uma vila no interior do país com apenas 666 eleitores. Em relação ao seu próprio povo, a mídia brasileira nutre uma relação de indiferença, exotismo ou medo diabólico.

Quase nada se encontra nos jornais que examine, fora da estatística e do caso de exceção, o que pensam os sujeitos comuns, os grupos sociais e as comunidades, no momento em que, por exemplo, começa a campanha política na televisão?. (1)

?Fiz a mesma pergunta várias vezes, com as mesmas ressalvas, e as entrevistas se converteram num pequeno brain storm, do qual participaram também alguns dos homens que já estavam lá quando chegamos. As opiniões foram variadas e a atmosfera me pareceu – e ao Iqbal – relaxada e serena o suficiente para acreditar que eles estavam dizendo o que realmente sentiam.? (2, p. 149)

?No Brasil, tem-se desistido com grande facilidade de uma função paralela e tradicional do jornalismo, que é de ser também uma espécie de ?história feita no calor da hora? da vida do país. Ninguém mais planeja, escreve e edita uma reportagem – uma só, por mês ou por semana – presumindo que esta seja lida no futuro como um documento sobre a sua época. Um documento não para enriquecer a antologia do jornalista que a escreveu, mas para fixar no tempo um extrato da vida objetiva e efêmera que ele teve paciência de observar e relatar.? (1)

?Paramos na frente de um bar, onde seis ou sete homens conversavam sentados em cadeiras de ferro com assentos e encostos de madeira, tomando chá de erva-doce e refrigerante, indiferentes ao cheiro de esgoto junto ao meio-fio, numa versão paquistanesa de happy hour. Abdul Sattar nos apresentou, nos sentamos e começamos a conversar.? (2, p. 207)

?Quase nada se vê na imprensa, também, sobre o ?baixo clero? dos partidos, o trabalho das militâncias de direita e esquerda nos cafundós do Brasil ou nas periferias das grandes cidades, as movimentações políticas nas escolas de segundo grau e universidades, as torcidas nos órgãos de governo. Tem-se a impressão de que a política prescinde dessas ações microscópicas e que tudo se decide pela TV. Serra e Ciro dispõem de um grupo de militantes tão ativos quanto o PT? Como o PT e o PSDB estão atuando nos currais eleitorais de ACM no interior da Bahia? Como estão as preferências eleitorais nas principais faculdades paulistas e cariocas? Em quem os estudantes do Itamaraty, futuros diplomatas, estão apostando?.? (1)

?No caminho de volta para o carro, encontrei um homem conversando com um grupo de estudantes. Tive a impressão de que ele os estava entrevistando, me aproximei e me apresentei. Seu nome era Assim Awan, um paquistanês que trabalhava como assessor político do Alto Comissariado – equivalente a embaixada – do Canadá em Islamabad. Mas estava ali com o mesmo propósito que eu: ouvir dos estudantes a opinião deles sobre a situação política. Awan estava indo para um seminário na sede do Instituto de Política de Desenvolvimento Sustentável, organização não-governamental patrocinada pela ONU. Seguimos o carro dele.? (2, p. 94)

?O jornalismo brasileiro precisa se afastar um pouco dessa visão oficial e oficiosa do processo eleitoral para devolver a política ao cidadão, em vez de mergulhá-lo o tempo todo na impotência dos fatos consumados. Precisa abandonar o seu mundo claustrofóbico e burocrático, que gera uma visão asfixiante da vida social no país, para deixar o leitor respirar a liberdade da história em suas páginas efêmeras.? (1)

?Eu era um jornalista, que queria entrar em contato com os afegãos em particular e com os taleban em especial, para entender o que eles pensavam, como se sentiam e por quê, e transmitir isso para os leitores do Estado. Perder essa perspectiva era esquecer o que tinha me levado até ali e embarcar numa aventura.?

(2, p. 173)

Obrigado, Alcino. Obrigado, Lourival.”

***

“O jornalismo ?lulista?”, copyright Comunique-se, 14/10/02

“Cultivo uma visão realista das coisas. Ao menos me esforço. Nem sempre consigo, é verdade. Não raro, a vida me cobra o desatino e, impaciente, cospe-me na cara. Assim tem sido.

Sempre desconfiei de superlativos. ?O mais isso…?, ?a mais aquilo…?, ?o … íssimo?, ?a … íssima?… Sobretudo quando se referem a pessoas. É preciso economizá-los, na seda e no espinho. Em política, então… No império das conveniências, dorme-se Jekyll e acorda-se Hyde (1), e vice-versa.

A crescente possibilidade da magna vitória de Lula remete-me a algumas conversas de boteco com meus colegas da faculdade. Éramos – e a maioria ainda deve ser – o que se convencionou chamar de idealistas. Dentre nós, alguns eram militantes do PT; outros, militantes do ideário do PT; e havia, ainda, os militantes do PT ideal. Uns e outros não éramos nada disso, só buscávamos entender as engrenagens todas, em busca de justiça social.

Com os do PT ideal, o diálogo costumava emperrar. Por causa da crença. Era custoso, inexeqüível. Parada final: ?Questionei os pontos fracos do Lula?. De fato, já não haveria mais sobre o que refletir. Como discutir crenças? Como questionar o poder do dogma, sem questionar o arcabouço conceitual, sem questionar valores coletivos e individuais, sem questionar cultura, sem questionar a psique do religioso político que está à sua frente?

E se formos fazer isso? A amizade vai para o espaço. Vale a pena? Talvez. Mas é um desgaste a ser evitado.

Quando vislumbro o triunfo de Lula, penso nessas conversas de dez anos atrás. Penso nesses colegas que nunca mais vi, penso no que eles devem estar sentindo hoje. Penso, sobretudo, no que eles vão fazer, se o Lula chegar lá.

Veja o jornalismo esportivo… Há comentaristas palmeirenses que são muito mais críticos, exigentes e ácidos com o Palmeiras pelo simples fato de torcerem pelo Palmeiras. Como quem diz o tempo todo: ?Sou um profissional, não vou puxar o saco do Palmeiras e é bom que o mundo inteiro saiba disso?. E pau no clube adorado…

Vai ser assim com o Lula? Aposto que com muita gente vai ser, sim. Haverá também os que vão querer resultados imediatos, para justificar os outros e a si mesmo. O Governo acertou? Ufa… Errou? Como, errou?! O quê? Não resolveu? E agora? O que vão dizer do Lula? O que vão dizer do PT? O que vão dizer de mim?

Trata-se de um processo sutil, mecânico, mais aparentado com o inconsciente. Há, ainda, os que seguirão o caminho da condescendência. Os que vão ver, mas não vão enxergar.

Sim, eu sei, tudo isso dói. Tanto mais se fazemos de um ser ou de um grupo o salvador, senão de nossa vida, da razão dos nossos ideais. Aqui, não importa a ideologia. O fanatismo é daltônico. Portanto, isso também vale para os que estão do outro lado, para aqueles que, na ânsia de criticar a dita ?imprensa esquerdizante?, montaram seu cirquinho e, como bons macacos que são, estão aí a mostrar a bunda para o público.

Por esses, um governo Lula é aguardado com ansiedade… Para se lambuzarem no previsível: não há governo que não seja falho; aliás, não há nada que não o seja. Demonstrar o erro de quem só enxerga um entre tantos ângulos é benéfico para a sociedade. Mas fazê-lo por pirraça, com o intuito de corroborar sua própria tese – também lisa e monocórdia – é algo menos do que usura intelectual.

Com ou sem o Lula lá, contra ou a favor, precisaremos do bom-senso.

(1) Personagens de ?O Médico e O Monstro?, romance do autor escocês Robert Louis Stevenson (1850-1894).”

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