Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > OFJOR CIÊNCIA 98

Contexto da descoberta, estratégia para o jornalismo científico

Por lgarcia em 05/07/1998 na edição 48


Mônica Macedo

 

G

ostaria, nesse início da Ofjor Ciência 98, de propor uma discussão de fundo sobre algo que, a meu ver, falta aos jornais e que, se empregado estrategicamente, poderia atrair o interesse público para a ciência e a tecnologia. Trata-se da contextualização da descoberta científica.

Os fatos ligados ao ambiente que cerca o cientista, sua personalidade, sua atividade política, etc., fazem parte do que Hans Reichenbach chama de “contexto da descoberta”. Por muito tempo, a teoria do conhecimento considerou o contexto da descoberta um acessório, mera curiosidade. Aquilo que importa para explicar a ciência, segundo essa visão, é o conjunto de regras que sustenta coerentemente o sistema, estruturando as proposições internamente (“contexto da justificativa”).

Assim, teria mais importância o que se admite racionalmente como sendo a explicação de uma teoria do que os motivos emocionais, sociais, econômicos ou políticos que levaram a ela. Essa é a maneira pela qual o cientista apresenta uma teoria à comunidade, sem ter que recorrer às condições subjacentes à sua produção. Uma teoria tem que explicar-se por si só e ter validade universal, ou seja, estar à disposição da comunidade científica do mundo inteiro e ser aplicável em situações diferentes. Senão, torna-se mera especulação sobre fatos marcados no tempo e no espaço.

Tal distinção, entre o contexto da justificação (racional) e o contexto da descoberta, foi oportuna em certo momento, porque permitiu à epistemologia tratar de leis “universais”, passíveis de análise lógica. A apreensão do método de levantamento das hipóteses e da “psicologia” do cientista (difíceis de serem recuperados racionalmente) ficou relegada a outro plano, do qual deveriam cuidar outras áreas do saber. A validade das proposições de uma teoria deveria passar apenas pelo contexto da justificação.

Porém, o que não se explica, nesse modelo, é como são gerados os critérios de análise de uma pesquisa. O significado não se explica por si próprio, mas sempre em referência a algo. Assim, se o próprio significado não pode explicar-se por sua “lógica interna”, mas tem de relacionar-se com “outro”, o contexto da justificação não seria suficiente para explicar a ciência.

Se a justificativa racional e “intrínseca” a uma descoberta não é suficiente para explicar a ciência, da mesma forma, a divulgação do conhecimento científico que não faça referência ao modo como a ciência é produzida deixa de levar ao público um aspecto essencial desse conhecimento. Para a grande maioria da população, cujo contato com a ciência é indireto, basicamente através dos meios de comunicação, o entendimento do contexto (no seu sentido mais amplo) que circunda o trabalho do cientista, e no qual ele formula suas hipóteses, é importante para que ele tenha elementos de avaliação da produção científica e principalmente para a formação de sua “cultura científica”.

A mídia tende a negligenciar esse aspecto da ciência. A notícia, para o jornalista, se forma na descoberta de uma nova técnica, de um novo medicamento, de um novo instrumento, de uma nova teoria. Mas a ciência normalmente chega a essas descobertas de uma forma muito menos óbvia e direta do que nos faz parecer a matéria jornalística. Para o leitor, a ciência acaba, muitas vezes, sendo tomada como uma verdade estabelecida. Mesmo as críticas a uma descoberta (um medicamento que não deu certo, por exemplo) se justificam do ponto de vista de uma outra opinião científica. Raramente o jornal trata do modo como a ciência é produzida, o que a meu ver nos deixa uma lacuna. Nesse sentido, talvez a apresentação estratégica do contexto da descoberta nos fizesse entender melhor aquela que é a principal característica da ciência: a de ser um conhecimento contestável.

(1) REICHENBACH, Hans. Experience and Prediction. Chicago, University of Chicago Press, 1961. p 6-7 (citado por EPSTEIN, Isaac. Revoluções Científicas, São Paulo, Ática, 1985, p 40).

 

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