Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO TIM LOPES

Contra a barbárie

Por lgarcia em 11/12/2002 na edição 202

CASO TIM LOPES

Affonso Romano de Sant?Anna

(Orelha de Narcoditadura)

Uma vez começada, vai ser difícil você parar a leitura deste livro. No princípio pode até pensar que está lendo um romance. Em certos trechos, você se dirá: "Meu Deus! Isto já é quase um roteiro, uma nova Cidade de Deus." Por outro lado, você se surpreenderá ao perceber que o autor conseguiu entrever um patético conteúdo mítico-religioso na trágica história de Tim Lopes, a partir do próprio nome do jornalista atrozmente assassinado pela narcoditadura.

Tim Lopes entra em cena como o Arcanjo, pois seu nome de origem é Arcanjo Antônio Lopes do Nascimento, traído por um Capeta ? o André Capeta, que o levou ao seu algoz de nome também perversamente bíblico ? Elias. Só que diferentemente do profeta bíblico este é o demoníaco Elias Maluco. Isto que parece uma satânica história de cordel, ainda se torna mais emblemático, quando se lembra que diante da execução do Arcanjo o secretário de Segurança do Rio exclamou que "Só Jesus Cristo é capaz de fazer um milagre para resolver o problema a curto prazo".

Desta maneira, Percival de Souza, cavaleiro de uma moderna Távola Redonda, sai à procura da verdade jornalística. Transcende a reportagem policial e dá-nos uma obra que revela os desvãos da criminalidade, da Justiça e da política.

Percival conheceu Tim Lopes e discretamente relata o último encontro com o companheiro. Como Tim Lopes, é também repórter especializado, com marcante passagem por vários periódicos. Aliás, deveria dizer: como Tim Lopes ele é correspondente de guerra, dessa guerra que se torna cada vez mais cruenta, seja nos morros do Rio, nas favelas de São Paulo, no Espírito Santo ou outras regiões, onde o crime infiltrou-se nitidamente nos aparelhos do Estado. E como escritor, mais que simples redator ou repórter, converteu o que seria episódico numa obra imprescindível aos analistas da sociedade brasileira.

Há algum tempo escrevi que a "história de um país é também a história de seus bandidos" e que urgia escrever essa história para entendermos melhor nossa cultura. Pois este Narcoditadura trata disso. Muitos fatos que fizemos questão de esquecer aqui retornam, pois há certos holocaustos que devem ser lembrados, sem o que a história se repetirá.

Num trecho deste livro, Percival lembra que alguns disseram que Tim Lopes morreu porque estava "no lugar errado". No lugar errado, diz ele, estava Elias Maluco, que devia há muito estar preso. E no lugar certo está sempre o jornalista e/ou escritor quando usa seu texto para defender a sociedade contra a barbárie.

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