Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > ENTREVISTA / ROBERT MÉNARD

Contra os predadores da liberdade de imprensa

Por lgarcia em 27/05/2003 na edição 226

ENTREVISTA / ROBERT MÉNARD

Leneide Duarte-Plon (*), de Paris

Não espere ser privado de informação para defendê-la.

O lema da organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras (RSF) serve de meta à rede de informantes no mundo inteiro que têm como trabalho denunciar os atos, governamentais ou não, que visem limitar ou impedir a liberdade de imprensa ? ou que atentem contra a integridade física de jornalistas. Neste ano, 17 jornalistas foram mortos no exercício da profissão e 128 estão presos em diversos países. No ano passado, 25 jornalistas foram mortos enquanto trabalhavam ou assassinados por suas opiniões.

Muito ativos, os RSF enviaram, no mês de abril, uma carta ao secretário de Defesa americano Donald Rumsfeld pedindo provas de que o Hotel Palestina e o escritório da rede al-Jazira, em Bagdá, não foram alvos deliberados dos tiros dos soldados da coalizão anglo-americana, que mataram dois jornalistas.

"Colin Powell mentiu", diz o secretário-geral dos RSF, Robert Ménard, nesta entrevista exclusiva. "Todas as respostas que recebemos tanto das autoridades americanas quanto das inglesas são insatisfatórias e as investigações que deveriam ter sido feitas não o foram até agora."

Na denúncia dos regimes que atentam contra a liberdade de imprensa, os RSF não poupam Cuba. "Fidel Castro sempre encontrou argumentos para fazer de seu país um dos mais fechados à liberdade de expressão. Cuba é um dos raros países no mundo em que para comprar um computador você precisa da autorização do governo. Hoje, Cuba é a maior prisão do mundo para os jornalistas. Fidel é um verdadeiro predador da liberdade de imprensa", acusa Ménard.

O relatório 2003 sobre a liberdade de imprensa no mundo, país por país, acaba de ser publicado pelos Repórteres sem Fronteira, com o apoio da revista Courrier International. A seguir, a entrevista de Robert Ménard ao Observatório da Imprensa.

Como os Repórteres Sem Fronteira trabalham para defender a liberdade de imprensa no mundo inteiro?

Robert Ménard ? Trabalhamos com uma rede de correspondentes. Hoje estamos presentes em mais de 130 países, nos quais temos pessoas que recolhem informação sobre todos os atos contra a liberdade de imprensa. Depois que essas informações chegam à secretaria internacional, sediada em Paris, checamos os dados e, a partir de então, começamos a intervir e a protestar junto aos governos responsáveis pelas arbitrariedades ou junto aos grupos armados ou independentistas; ou, ainda, junto a grupos religiosos responsáveis por censura ou outros ataques à liberdade da imprensa. Fazemos também gestões nas instâncias internacionais encarregadas de impor o respeito à liberdade de imprensa e que nem sempre fazem seu papel, como a própria ONU. E também tentamos dar ajuda material às pessoas que são vítimas dessas arbitrariedades. Hoje, há cerca de 120 jornalistas presos no mundo inteiro e nós protestamos, fazemos campanha para conseguir a libertação deles, mas também auxiliamos as famílias para poderem contratar advogados e terem acesso a toda ajuda material de que necessitam.

Como avalia o trabalho dos "jornalistas incorporados" na guerra do Iraque?

R.M. ? Sobre os jornalistas incorporados, cada caso deve ser analisado separadamente. Nós fizemos um encontro com eles e pudemos ter uma visão de como trabalharam. Houve alguns que puderam trabalhar apesar do documento de 50 itens que tiveram de assinar. Alguns desses itens acarretaram problemas e, por isso, Repórteres Sem Fronteiras encaminhou um protesto ao Pentágono contra certos detalhes desse documento que todos os jornalistas incorporados tiveram de assinar. Mas, em alguns casos, ninguém se preocupou com essas restrições e os jornalistas puderam trabalhar com certa liberdade. Em outros casos, eles tiveram de ficar à margem dos acontecimentos. Foi uma cobertura que variou segundo a nacionalidade dos jornalistas, a importância do veículo e os interlocutores americanos. Mas penso que, globalmente, em relação à primeira guerra do Golfo, de 1991, a qualidade da informação foi bem melhor, em parte por causa do trabalho dos jornalistas incorporados. Vimos o trabalho dos jornalistas do Washington Post que, pelo fato de estarem incorporados, isto é, de estarem no local, puderam desmentir um certo número de afirmações do Pentágono dizendo "isto não é verdade".

O senhor recebeu respostas convincentes das autoridades americanas quanto ao ataque do Hotel Palestina, que causou a morte de dois jornalistas?

R.M. ? As respostas não são satisfatórias. O que Colin Powell disse, e eu peso minhas palavras, é uma mentira. Não é verdade que foi um tiro para responder às ameaças que vinham do Hotel Palestina e não sou eu que digo, foram os próprios militares que atiraram que disseram que não houve tiros vindos do Hotel Palestina. O que existe hoje é um grande problema: no mínimo foi uma falta grave. É preciso que haja uma verdadeira investigação e nós a estamos realizando porque as respostas que nos foram dadas pelas autoridades americanas não são satisfatórias. E repito: o que Colin Powell disse, que os soldados americanos só responderam a tiros vindos do hotel, é uma mentira.

O senhor acredita então que houve ataques que visavam expressamente os jornalistas, como neste e no outro episódio da morte do jornalista da rede al-Jazira, que estava em pé numa ponte, diante da câmera, durante uma gravação?

R.M. ? Hoje, ninguém pode dizer se foi ou não proposital. O problema é que precisamos de investigações para responder a essas perguntas. Citei Colin Powell mas tivermos outras respostas em relação a outros ataques e desaparecimentos de jornalistas, e todas as respostas que recebemos tanto das autoridades americanas quanto das inglesas são insatisfatórias e as investigações que deveriam ter sido feitas não o foram até agora.

Como os Repórteres Sem Fronteiras levantam recursos para sustentar essa luta no mundo inteiro?

R.M. ? Mais de 50% do orçamento dos Repórteres Sem Fronteira vêm da venda de revistas de fotografia. Pedimos a grandes fotógrafos que nos doem fotos e com elas fazemos duas revistas especiais por ano. O último número, lançado em 3 de maio, Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, foi feito com as fotos de Philip Plisson sobre o mar. Um quarto do financiamento de nossas atividades vem da União Européia e a outra quarta parte do orçamento vem de operações especiais, doações, leilões, entre outras coisas.

Segundo o relatório deste ano, há hoje 128 jornalistas presos no mundo inteiro, um recorde nos 18 anos de existência dos Repórteres Sem Fronteira. Por que os jornalistas são ameaçados, presos e assassinados em vários países?

R.M. ? Este ano é o pior, com esse número elevado de jornalistas presos atualmente. Mas durante o ano passado inteiro, cerca de 700 jornalistas estiveram em um momento ou outro privados de liberdade. Em 2002, cerca de 1.700 jornalistas foram vítimas de maus tratos e alguns foram até mesmo torturados e mortos. Esse número representa duas vezes mais que o ano anterior. Todos os números que indicam perseguição aos jornalistas estão em alta. Acho que podemos explicar principalmente em função do 11 de setembro. Depois dessa data terminou uma era. Hoje, em nome da luta contra o terrorismo, em nome da luta legítima contra o terrorismo ? pois é claro que é preciso lutar contra o terrorismo ?, aproveitando dessa situação há um certo número de regimes que utilizam essa luta para um interesse próprio. O que quero dizer é que eles batizam de terroristas pessoas que não são terroristas, que aproveitam para reprimir seus oponentes, como se dissessem que "as grandes democracias estão ocupadas demais na luta contra o terrorismo ou com o problema do Iraque para se ocupar com o que a gente está fazendo". Exemplo disso foi Cuba. Dois dias antes da intervenção americana no Iraque, o senhor Fidel Castro mandou prender 78 dissidentes, entre eles 28 jornalistas, esperando que as pessoas não prestassem atenção ao que ele fazia pois todos estavam preocupados com o Iraque. E isso tudo mostra uma situação mais difícil que nunca para a imprensa.

A segurança e a integridade do território não são uma boa desculpa para o regime cubano prender e calar 28 jornalistas acusados de cumplicidade com os Estados Unidos?

R.M. ? Não é uma desculpa, é um pretexto, é um falso argumento. Ninguém ameaça hoje em dia a segurança de Cuba. Fidel Castro sempre encontrou argumentos para fazer de seu país um dos mais fechados à liberdade de expressão. Cuba é um dos raros países no mundo onde para comprar um computador você precisa da autorização do governo.Hoje, Cuba é a maior prisão do mundo para os jornalistas. Existem hoje 30 jornalistas presos, 26 que foram condenados recentemente e mais 4 que já estavam presos. Fidel é um verdadeiro predador da liberdade de imprensa, é um tirano no sentido próprio da palavra, na definição clássica da palavra. É um velho tirano que não suporta a menor crítica. É um dos piores países para a liberdade de expressão no mundo e não somente na América Latina.

(*) Jornalista

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