Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > SÍNTESE AUSENTE

Convém escutar os sinais

Por lgarcia em 29/08/2001 na edição 136

SÍNTESE AUSENTE

Muniz Sodré (*)

Macacos-prego vêm descendo das árvores no jardim do edifício onde moro, no Cosme Velho, Rio. Antes, apenas sagüis eram visíveis ? e no topo da vegetação. Macacos de maior porte ousam agora se aproximar, ao encontro das bananas que lhes atiram as crianças. Quem entende do assunto comenta que as coisas devem andar difíceis na floresta, por falta de alimentos, especula-se, ou por um novo predador, como jibóias.

Também o mundo vegetal vem-se comportando de forma incomum. Nas ruas, as folhas caem em abundância, como se já fosse outono; das paredes de algumas casas antigas, brotam árvores de bom tamanho.

Mas não são apenas animais e plantas: seres humanos lançam-se sobre restos de comida, apesar de barreiras policiais. Isto aconteceu na Zona Norte do Rio, depois do incêndio de um entreposto da Central de Abastecimento. Mesmo estragados, carnes e legumes eram sofregamente disputados por hordas esfaimadas, que passaram por cima das proibições oficiais. Em São Paulo, o "PCC", partido do crime organizado, acaba de lançar uma candidatura à Câmara Federal.

O que há de comum nessa série heterogênea de fatos, recolhida do noticiário e de observação pessoal, é a sua estranheza, ao lado de uma certa familiaridade. É isso mesmo o que o sempre novo Sigmund Freud chamava de Unheimlich, isto é, o "estranho familiar", que por essa razão nos inquieta ou merece de nós uma especial atenção. Ao olhar semiológico, trata-se de sinais ou índices, uma espécie de marca comunicativa que remete à presença de uma outra coisa, oculta ou ainda não nomeada.

Índices: as pegadas encontradas na areia da praia por Robinson Crusoe na ilha deserta, a fumaça que anuncia fogo, os trejeitos faciais do apresentador de TV etc. Podemos também chamá-los de sintomas, já que por trás deles pulsa, latente, uma realidade problemática qualquer.

Neste caso, mais adequadamente do que "semiologia", desenha-se a possibilidade de uma "sintomatologia", uma análise sócio-cultural dos índices enquanto sintomas. Assim, em vez de ler a imprensa apenas a partir do que nos indica a pura literalidade dos signos escritos ou audiovisuais, vale considerá-la em seu registro do indiciário, ou seja, naquilo que ela nos deixa ver, sintomaticamente, a partir dos sinais que se multiplicam na realidade cotidiana.

Perigo e carência

Sobre este método, muito têm a nos ensinar os antigos. Os áugures gregos, por exemplo, liam nas vísceras de animais o destino de seus concidadãos. Dos pequenos índices, dos menores detalhes, construía-se uma narrativa sobre a sorte individual ou comunitária. Toda comunidade, local ou nacional, implica uma narrativa sobre si mesma, da qual advém o essencial de sua identidade. A nação é uma longa narrativa dessa ordem, elaborada a partir das "vísceras" do território, isto é, do povo.

É imperativo, portanto, nesses tempos em que a globalização vem sendo praticada pelas elites hegemônicas como rejeição sistemática do nacional e do popular, ler ou escutar os sinais que se dispersam nos textos da imprensa, a fim de que não se perca o sentido da continuidade histórica. Os insólitos eventos que registramos acima sobre animais, plantas e homens podem ser lidos como sintomas de mudanças maiores que se aceleram ao nosso redor, sem que delas nos demos a devida conta, sem que delas a imprensa, em seu velho formato de mosaico noticioso, faça a necessária síntese.

Entre as hordas que caíram sobre os restos de alimentos da Ceasa e os macacos-prego que se aventuram fora da floresta, existe em comum o sentimento de perigo e carência. Sintomaticamente, isto coincide com a entrada nos cinemas do filme O Planeta dos Macacos, onde a humanidade é posta em risco pela crise de sua própria racionalidade. Os sinais põem-nos em alerta contra o irracionalismo econômico-social e ecológico, de que dão mostra as elites do Império do Centro, vide Bush. E, aqui entre nós, em alerta contra o desprezo da ética pública, quando se aceita, sem estrilos, que o crime ? ou grandes predadores de colarinho branco, de uma maneira geral ? já acene com bandeira partidária.

(*) Jornalista, escritor e professor-titular da UFRJ.

    
    
    
          

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