Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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Coordenadores querem espaço

Por lgarcia em 05/06/2000 na edição 91

ou um profissional com uma visão mais ampla sobre os demais aspectos que envolvem a comunicação. Esta é uma briga tola. Conduzida, na maioria dos casos, por pessoas competentes, mas que em algum momento de suas histórias optaram por levantar bandeiras sectárias e pouco refletidas. O pior (ou melhor) é que no fundo pouco mudam no dia-a-dia das escolas de comunicação social.

O foco está direcionado para o lugar errado. O discurso é sempre composto pelas palavras ‘profissional’ e ‘mercado’. E onde ficam os conceitos de ‘conhecimento’ e ‘postura crítica’. Trinta anos depois, as mesmas pessoas que defendiam a universidade livre dos projetos tecnicistas patrocinados pelo governo americano, foram engolidas pelo sistema e só discursam sobre mercado. Por que um estudante de jornalismo tem que se tornar um jornalista?

Quando o Governo federal resolve conceder uma enxurrada de autorizações para a abertura de novos cursos, o único objetivo é o de ganhar pontos junto aos organismos internacionais como a OCDE e a Unesco, no momento em que estiverem fazendo as contas sobre os números relativos à educação. Não há preocupação com o mercado ou com a formação, é um critério puramente quantitativo, de política internacional. Pelo menos, enquanto não for divulgada uma política educacional clara para o ensino superior no país, é para isso que vão servir os milhares de jovens que entram anualmente nas universidades. E se professores e estudantes se aproveitassem dessa falta de perspectiva em prol da qualidade, não necessariamente de uma formação para o mercado, mas para a formação de um ser humano mais interessante, mais participativo, mais crítico? A universidade tem historicamente o papel de formar uma elite intelectual, não uma elite profissional.

O que é mais angustiante observar é que, independente dos embates setoriais, o Governo estabelece seus critérios de avaliação dos cursos de nível superior sem antes estabelecer as regras e os objetivos do jogo. Não está claro para ninguém qual é o papel da universidade hoje no Brasil. Sequer os números são confiáveis. Em um setor estão registradas 193 escolas oferecendo cursos de comunicação, em outro são 162, para outro são 140. Melhor trabalhar sobre os números divulgados pela Associação Brasileira da Escolas de Comunicação (Abecom), que em seu catálogo de 1999, lista 165 escolas, sendo que 115 delas oferecendo jornalismo e 119 publicidade. Não bastasse perder em termos salariais e de status, os jornalistas passarão a ficar atrás dos publicitários com formação superior também em número.

O que está sendo feito ao transformar o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) em uma espécie de agência reguladora é exatamente a materialização da válvula de escape da consciência do Ministério da Educação. Não é o mercado nem os dirigentes das escolas que vão auto-regular o setor, o papel do Estado continua falando mais alto, pelo menos nesse ponto. Infelizmente, ao invés de optar por uma receita caseira – o sistema de avaliação da Capes para os cursos de pós-graduação é modelo para vários países – o Inep parece estar mais próximo dos critérios de avaliação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Se é mesmo para colocar na vitrine…

O momento é de repensar o foco dos debates. Se vão ser formados jornalistas ou comunicadores, é o que menos importa. O que deveria interessar aos educadores é a formação de seres humanos e cidadãos; depois disso, o resto é conseqüência. [Edgar Rebouças é jornalista, professor da Faesa e doutorando na Umesp]”

 

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