Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > TELEJORNALISMO

Ô coroa, tem programa pra hoje?

Por lgarcia em 05/12/2001 na edição 150

TELEJORNALISMO

Paulo José Cunha (*)

Perguntas e respostas: a televisão generalista, de sinal aberto, tem programação específica para quem gosta de esportes? Tem. Tem programação específica para o público infantil? Tem. Tem programação específica para adolescentes? Tem. E programação específica para donas-de-casa? Tem também. E tem programação específica para idosos? Bem…

Não tem. Hebe? Ana Maria Braga? Cid Moreira? São coroas, mas não apresentam programas para coroas. O que estamos querendo demonstrar é que os programadores da televisão brasileira ainda não reconhecem o público da chamada "melhor idade" como alvo para produções específicas. Um coroa com mais de 60 anos no Brasil não dispõe, hoje, de nenhum programa de televisão idealizado, criado e desenvolvido especificamente para ele. Um problema exclusivamente brasileiro? Não. O buraco é mais embaixo. Na sociedade de consumo como um todo, em escala planetária, opera-se uma simbiose curiosa: o que vende é o que carrega valores jovens, e jovem é quem consome. Assim, quase toda a publicidade é alicerçada na cultura, nos ícones e nos valores da juventude. Algo em torno de 90% dos anúncios têm seu foco aí. O máximo que se admite é velho com comportamento de jovem, como o comercial da velhinha que passa uma cantada no Marcos Palmeira e diz o que faria se o levasse pra casa.

A televisão brasileira, particularmente na área do telejornalismo, tem igualmente uma cara predominantemente jovem. São dezenas, centenas de rostinhos muito interessantes do ponto de vista estético e raramente consistentes do ponto de vista do conteúdo ou da ousadia. A ampla maioria (com exceções tão poucas que a gente nem se lembra), repete fórmulas consagradas pelo uso. Pouca gente arrisca, cria, modifica, inventa. Uma parte da culpa é das próprias emissoras, aferradas vigorosamente à máxima segundo a qual não se mexe em time que está ganhando. O resultado é uma espécie de clicheria de rostos, cabelos, jeitos, padrões. Se trocar um pelo outro o resultado será exatamente o mesmo, porque parece haver uma determinação de despersonalizar os repórteres. Quem desafina o samba não serve para o metiê. Pra ser bom, tem de seguir o figurino.

Outra parte da culpa vem das próprias faculdades de Comunicação, nas quais a ordem é produzir profissionais para o mercado. Ao não propiciar ou não incentivar a criatividade, obtém-se como resultado uma espécie de clonagem dos modelos de sucesso, inclusive nos trejeitos. Nas minhas andanças pelo Brasil já vi diversos apresentadores e apresentadoras "assinando" o script após a apresentação do telejornal, tal como faz a Ana Paula Padrão. Talvez poucos saibam (nem ela) que o hábito é apenas a repetição do gesto criado por José Bonifácio de Oliveira, o Boni, especificamente para o Cid Moreira, nos anos 70/80, a fim de atribuir maior credibilidade ao Jornal Nacional, período em que o JN mais sofreu com a pecha de ser o porta-voz oficioso do regime autoritário. Hoje, não tem o menor sentido nem necessidade. Até porque assinar roteiro de telejornal não serve pra coisa alguma, aquilo termina mesmo na lixeira…

Mas, viajamos na maionese. Retomemos a conversa lá do começo: não existe uma programação televisiva com foco direcionado prioritariamente ao idoso por duas razões, ambas derivadas do culto à juventude, ambas de natureza mercadológica. A primeira é que emissora alguma se arrisca a colocar no ar um programa especificamente destinado ao público da terceira idade porque teme ser carimbada de "televisão de velho" e, com isso, perder a audiência das demais faixas etárias. Em segundo lugar, porque, desde o departamento comercial até a teledramaturgia, os estereótipos apontam para a necessidade de não se mostrar o velho ou, se tiver de mostrá-lo, que se mostre um velho que quer ser jovem, que precisa ser jovem, que não pode jamais "sucumbir" à própria velhice.

Assim, praticamente nega-se existência a uma boa fatia da audiência, que jamais assistirá a um comercial, por exemplo, de refrigerante especial para a terceira idade ? porque não há interesse sequer em fabricá-lo. Nem de roupas para velhos, nem de cosméticos para velhos. Velhos? Melhor se não existissem, parecem dizer as programações vistas em seu conjunto, parece dizer a publicidade, parece sussurrar o mercado.

Na realidade, esta ditadura dos valores jovens termina por ignorar uma suculenta fatia do mercado. Em 1965, quando surgiu a TV Globo, havia 3,3 milhões de pessoas com mais de 60 anos no Brasil. Hoje, 41 anos depois, este número explodiu para 13,5 milhões, um crescimento de mais de 300%, enquanto a população de maneira geral cresceu em torno dos 125%. Em 2020 a turma com mais de 60 vai chegar aos 27 milhões. É gente pra caramba. Gente cada vez mais trabalhadora (a maioria, segundo o IBGE, trabalha após a aposentadoria). Uma turma que adora viajar, se divertir, consumir cultura, arte, entretenimento. Que se amarra em pintar e bordar. Que adora um cineminha, que curte esportes, lazer, vida ao ar livre. Mais do que tudo isso: uma fatia de audiência aberta para produtos específicos à sua idade, aos seus anseios.

Mais alguns números: 30% dos clientes da BBTur, a operadora de turismo do Banco do Brasil, têm mais de 60 anos! Essa turma viaja à beça. A ampla maioria dos 25% que recebem aposentadorias superiores a 3 salários mínimos gasta boa parte em atividades de lazer. São ótimos pagadores (entre eles a inadimplência é baixíssima). É um pessoal que não quer mais ficar em casa de pijama, embora este estereótipo continue a se repetir indefinida e burramente. Feito cobertor sobre as pernas de paraplégico em cadeira de rodas.

Vez por outra, a publicidade desperta para esta fatia do mercado. Aí, pintam comerciais até bacanas, como o da velhinha que canta o Marcos Palmeira. Ou da simpaticíssima coroa ombudsman do Grupo Pão de Açúcar. Mas, e quando teremos na tevê um programa fixo, deles para eles? Quando teremos a velhinha passando uma cantada… no velhinho!, e não no Marcos Palmeira? Quando teremos a coragem de admitir abertamente que um dia chegaremos ou já chegamos lá, como chegaram a Hebe Camargo, a Ana Maria Braga, o Cid Moreira, o Léo Batista? Sem falar que as madrugadas, hoje recheadas com programação tapa-buraco, bem que poderiam ser aproveitadas para prestigiar os coroas. Afinal, são eles que dormem mais tarde, são eles os mais atentos e os mais fiéis. Tal como eles devem pensar hoje, quando chegar àquela idade, vou querer um programa só para mim. Vão pensando aí, porque não demora.

(*) Jornalista, pesquisador, professor de Telejornalismo, diretor do Centro de Produção de Cinema e Televisão da Universidade de Brasília. Este artigo é parte do projeto acadêmico "Telejornalismo em Close", coluna semanal de análise de mídia distribuída por e-mail. Pedidos para <upj@persocom.com.br>

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