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Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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PRIMEIRAS EDIçõES > ATAQUE ESPECULATIVO

Crise, que crise, cara pálida?

Por lgarcia em 02/10/2002 na edição 192

ATAQUE ESPECULATIVO

Luiz Gonzaga Motta, de Barcelona (*)

Todos os dias, invariavelmente, os jornais brasileiros publicam matérias em que a expressão "crise econômica brasileira" tem especial destaque. Esta expressão tem sido tão reincidente no noticiário que, ao ler os jornais, o leitor comum fica com a impressão de que o país está passando por um desastre econômico. A meu ver, o termo "crise" é usado abusivamente por repórteres e editores de economia para destacar matérias, e levianamente camufla o ataque especulativo por que passa nossa economia.

Ao negar a validade do uso de tal expressão no noticiário sobre a conjuntura brasileira, não quero negar as dificuldades por que o país passa neste momento. Não posso negar que a conjuntura seja desfavorável, nem quero afastar do horizonte as graves desigualdades sociais, o desemprego, a miséria e outras mazelas nossas.

Mas, esses problemas são estruturais, não são conjunturais. A difícil conjuntura por que passa o país tem origem em outras geografias, não se trata de uma crise "nacional", e sim de um ataque especulativo. Mais ainda, o capitalismo brasileiro segue a pleno vapor (ainda que acentuando as desigualdades). Quero argumentar que o uso da expressão é impróprio, dissimula a especulação oportunista e acaba criando uma crise imaginária que deixa nos leitores uma impressão equivocada sobre a situação econômica.

Plagiando Joseph Stiglitz, professor de Economia da Columbia University, eu diria que se passa com o jornalismo de economia hoje uma coisa muito parecida com o que aconteceu com o jornalismo esportivo antes e durante a Copa do Mundo. Nossos repórteres e editores esportivos esqueceram o bom jornalismo, opinaram mais do que informaram, reafirmaram que nosso time não tinha talento, mesmo depois das seguidas vitórias, ficaram cegos para o que estava acontecendo, defendiam apenas as suas arraigadas posições. Negaram-se a ver o bom futebol brasileiro, informaram mal e arrastaram a opinião pública com eles. Criou-se um clima pessimista que não correspondia à realidade do futebol. Deu no que deu, a imprensa foi desmentida e ficou sem saber como se explicar com o leitor.

Da mesma maneira, os jornalistas de economia estão hoje utilizando chavões e expressões fáceis que não correspondem aos problemas verdadeiros, camuflando uma realidade e formando uma opinião negativa e enganosa. Estão arrastando os leitores a crerem em uma pseudo-realidade que os impede de discernir entre uma crise do capitalismo global com origem em outras geografias e os nossos históricos problemas estruturais.

Cenário de recessão

Mesmo sem compartir os pontos de vista nem o otimismo do Prêmio Nobel de economia Joseph Stiglitz sobre o desenvolvimento brasileiro, é preciso reconhecer que ele tem razão no artigo publicado há poucas semanas em vários jornais do mundo sobre o Brasil. Ele dizia que alguns investidores estão equivocados ao desprezar o Brasil, que criou um mercado surpreendente e resistente, uma política fiscal e monetária sólida e uma relação dívida-PIB moderada e superior à do Japão e de vários países europeus. Não estou aplaudindo Stiglitz, estou apenas argumentando que o capitalismo brasileiro vai bem, obrigado, ao contrário do que nos fazem crer nossos jornalistas de economia.

Para não entrar em uma análise econômica muito ampla, que nos remeteria a outros campos, basta citar alguns indicadores recentes do capitalismo brasileiro. Com todos os problemas, e apesar das altas taxas de juros, o nosso PIB deve crescer aproximadamente 2% segundo as previsões, nossa inflação anual deve ficar na casa dos 5%. O setor industrial vai mal, mas o de serviço e a agricultura estão muito bem. O saldo da balança comercial tem superávit previsto para cerca de 10 a 12 bilhões de dólares no ano, dependendo dos preços do petróleo. Poucas economias capitalistas mundiais têm índices como esses, na atual conjuntura mundial.

A Thompson Finantial Investment Tracker consolida regularmente relatórios de analistas sobre as projeções de lucro das empresas de capital aberto em mais de 70 paises e faz diagnósticos para orientar investidores de todo o mundo. O último diagnóstico da Thompson, depois de contabilizar os efeitos dos grandes acontecimentos mundiais recentes, mostra que o Brasil evolui de 4,15% em 2001 para 31,49% em 2002 no índice agregado de lucro por ações de capital aberto.

José Casio Bariani, presidente da Thompson, disse que o Brasil é o primeiro na América Latina e o 11? país do mundo em potencial de crescimento, neste aspecto. Há setores da economia brasileira com índices surpreendentemente altos de crescimento, como a siderurgia, o setor de energia e o de química, a construção e as telecomunicações. Qual é o cenário anunciado por ele? Ações a preços atraentes, perspectivas de crescimento nos lucros das empresas e solidez na indústria de fundos de investimentos. A JP Morgan prevê investimentos externos diretos de 14 a 16 bilhões de dólares para o Brasil para o próximo ano. Ou seja, o capitalismo brasileiro não está em crise, ao contrário, continua crescendo.

Tudo isso tudo está acontecendo em um cenário de grave recessão do capitalismo global devido ao desaquecimento da economia americana, à derrocada de empresas pontocom, ao desastre argentino, ao descrédito diante das fraudes das grandes empresas nos Estados Unidos (Enron e Worldcom), à retração dos investimentos no mundo frente às ameaças de guerra iminente.

Ansiedades desnecessárias

Alguém poderá argumentar que o capitalismo vai bem, mas o desemprego só aumenta e a população sofre cada vez mais. Ora, é simples contra-argumentar (apesar de concordar). Desenvolvimento capitalista hoje não tem relação com geração de empregos. Ao contrário, os setores que mais crescem são justamente os que mais desempregam. Veja-se o caso dos bancos no Brasil. O setor é um dos que apresentam maior índice de lucros nos últimos anos, em parte porque se automatizou acentuadamente, dispensando a intermediação de funcionários. Em 1994 existiam 642 mil bancários no país, em 1997 este número caiu para 446 mil e em 2000, para 400 mil. Portanto, o setor é um dos que mais desemprego geraram, enquanto mais crescia.

Resumindo, há desemprego, mas isso não indica crise nenhuma, as empresas brasileiras continuam se expandindo, gerando lucro e são atraentes para os investidores. A retração não é um problema "nacional", não é uma questão interna, é produto da atmosfera de apreensão que contamina os mercados mundiais. O informe sobre as inversões mundiais da Unctad que acaba de ser publicado mostra que os investimentos transnacionais caíram 51% em 2001, a maior queda desde os últimos 30 anos. Na Espanha, por exemplo, os investimentos externos caíram 49%, enquanto a entrada de capitais estrangeiros caiu 42%.

Repito, não se trata de orgulho nacionalista nem de ufanismo tupiniquim. Nossos gravíssimos problemas estruturais continuam intocados, e até se acentuaram, como o desemprego e a concentração de renda (problemas, aliás, poucas vezes tratados com a devida atenção pela imprensa de economia). Mas, esses problemas são estruturais, independentes da recessão atual. O meu argumento é que os nossos jornalistas econômicos preferem utilizar chavões, expressões de impacto e de consumo fácil, palavras que mascaram mais que explicam o que de fato está se passando.

De tanto repetir indevidamente a expressão "crise econômica brasileira", a imprensa modifica a geografia da recessão, cria ansiedades desnecessárias, mascara o agressivo e oportunista ataque especulativo, contamina a imprensa estrangeira e as previsões dos investidores, gera expectativas falsas, exagera e agrava os problemas de conjuntura porque não os examina na perspectiva apropriada.

Dólar supervalorizado

Como resultado surgem matérias como a do jornalista Eric Nepomuceno, correspondente do El Pais, publicada no domingo no caderno de economia. Apesar de mostrar corretamente que os problemas de conjuntura não se devem apenas ao que chama de "síndrome de Lula", ele afirma repetidas vezes que nossa economia projeta índices "francamente preocupantes", diz que os cenários da economia brasileira continuam piorando, mas não mostra onde. Não cita uma única vez as ações oportunistas dos especuladores.

Lendo e relendo a matéria do correspondente espanhol, não encontrei um só índice "nacional" preocupante. Todas as causas da "crise" brasileira apontadas no artigo, como fazem igualmente os nossos jornalistas, estão localizadas em outras geografias. Ele fala em empresas vulneráveis, mas não diz quais. Afirma que o país vive "a sua maior crise desde 1999". Fui procurar as causas, ele cita os receios internacionais com relação à invasão militar no Iraque. Uma leviandade, nenhuma das razões que sustentam os seus argumentos se localiza no Brasil, mas fora dele. Por que então a crise é brasileira?

O único argumento que o autor persegue à exaustão refere-se aos receios frente às eleições. Não é preciso argumentar aqui que os nossos problemas nada têm a ver com as eleições presidenciais da semana que vem, como muitos jornalistas gostam de explicar. È claro que toda vez que as eleições prenunciam mudanças no comando do país há uma retração natural. O que existe, além disso, é pura especulação oportunista e golpista. Como disse recentemente Marcelo Carvalho, economista-chefe do JP Morgan, a atual conjuntura brasileira está reagindo ao ambiente externo. Nas palavras dele: "Se não houvesse eleições presidenciais, as minhas previsões não mudariam muito."

As dificuldades com a subida do dólar ou depreciação do real estão exclusivamente relacionadas à especulação dos investidores imediatistas, que buscam o lucro fácil e rápido; nada têm a ver com a política e muito menos com os índices de nossa economia. Todos os economistas sérios se cansam de repetir: o dólar está supervalorizado frente ao real, ou o real está barato, o que quer dizer a mesma coisa. Este desequilíbrio atual do câmbio é decorrência, principalmente, da especulação financeira. Mas, se os jornalistas brasileiros continuarem insistindo na existência de uma ?crise nacional?, vão acabar nos convencendo. E o que é pior, gerando uma crise de confiança no país, independentemente de quem governe, exatamente como fizeram com o futebol. Felizmente, alheia à imprensa, a Seleção ganhou a Copa.

(*) Jornalista, professor e ex-diretor do Curso de Comunicação da UnB, atualmente em Barcelona para pós-doutorado

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