Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > DANO MORAL

Cristiane Costa

Por lgarcia em 17/07/2002 na edição 181


O IMPÉRIO DO GROTESCO

"?Quando precisa de audiência, a televisão apela para o grotesco?", copyright Jornal do Brasil, 13/7/02

"Há 30 anos, o pesquisador Muniz Sodré apontou uma tendência da televisão brasileira: uma certa quedinha pelo grotesco. Num pequeno livro, A comunicação do grotesco, de 1973, ele lançou os fundamentos teóricos para toda e qualquer discussão sobre o sucesso de programas que apelam para o sensacionalismo e a vulgaridade. O livro chegou a 14 edições e se tornou um clássico da teoria da comunicação. Mas basta apenas uma zapeada com o controle remoto para ver que o que era uma tendência hoje parece ter se tornado regra na TV brasileira. Por isso, o atual coordenador do programa de pós-graduação em Comunicação e Cultura da Eco-UFRJ uniu-se à professora Raquel Paiva para rediscutir o tema de forma mais abrangente.

Não é à toa que o título agora é O império do grotesco (Mauad). ?Apesar do sucesso, o primeiro livro teoricamente era meio precário, quase um ensaio mostrando como e por que o grotesco definia a programação televisiva naquele momento?, explica Muniz, hoje com 60 anos. ?Mas nesses quase 30 anos, eu me dei conta de que o grotesco é uma categoria estética importante não só para a cultura brasileira como internacionalmente.?

O novo livro não se restringe à mídia, e trata também da influência do grotesco no cinema e na literatura, além de historicizar seu aparecimento como categoria estética. ?O grotesco, por exemplo, está muito presente em Lima Barreto, em Nelson Rodrigues, em Dalton Trevisan, em Rubem Fonseca e até em algumas obras de Machado de Assis?, aponta Muniz.

Mas O império do grotesco é apenas um entre os quatro livros, três deles sobre mídia e um sobre capoeira, que Muniz Sodré publicou só neste ano. ?Sou muito disciplinado?, orgulha-se. Ele ainda discutiu temas como a violência cotidiana, em Sociedade, mídia e violência (Sulina/EdiPucRS), e os próprios fundamentos da teoria da comunicação em Antropológica do espelho: uma teoria da comunicação linear e em rede (Vozes). Outro motivo de orgulho foi o batismo de um curso pré-vestibular para negros e jovens carentes na Zona Oeste com o nome de Professor Muniz Sodré. ?Fiquei na maior felicidade?, conta.

– Seu livro A comunicação do grotesco data dos primórdios da televisão no Brasil. Mas antecipa muita coisa que está acontecendo agora. O grotesco não evoluiu?

– É preciso ver que a televisão não é um meio único. É tecninamente um veículo em evolução. Na primeira fase, você teve a televisão massiva, depois a fragmentada, hoje a digital. Ela evoluiu tecnicamente, mas, do ponto de vista dos conteúdos estruturais, mudou pouco. Ao contrário, as promessas de elevação de qualidade e formação de público não se cumpriram. Ficou evidente é que, sempre que a televisão precisa de público, apela para o grotesco. É uma categoria estética recorrente na vida brasileira.

– Por quê?

– Porque o grotesco é a estética da hibridização de universos culturais diferentes. O grotesco exaspera essas diferenças. Foi a ele que a TV, no final da década de 60, apelou quando quis atrair os migrantes de segunda e terceira geração, das classes C e D, cujo universo cultural é o do circo, da praça, da feira.

– E hoje?

– A televisão é mais do que nunca uma imensa praça pública, uma feira de diversões, um show de horrores. O espaço público brasileiro – que hoje é eminentemente televisivo, porque a política está se retraindo – virou um imenso circo. Aí o grotesco se torna a categoria estética dominante. Se antes estava presente basicamente nos programas de auditório, hoje está em todo lugar, colonizou tudo. Mais do que no passado, o grotesco tornou-se uma categoria realmente explicativa dos conteúdos televisivos.

– Mas continuaria restrito a um público de classe C e D ou já teria seduzido as classes mais altas?

– É um fenômeno geral. Na verdade, todo e qualquer público se compraz do ridículo do outro. No fundo, você está rindo da televisão. Baudrillard tem uma teoria de que as massas preferem eleger os idiotas para rir secretamente do poder. Numa história que está cheia de presidentes beberrões, suspeita-se de quanto mais idiota o governante maior sensação de superioridade o eleitor tem individualmente, mesmo que possa sofrer o peso da ira dele.

– Parece a síndrome de Big Brother. Em quase todos os países, são os candidatos mais imbecis que ganharam o prêmio.

– O grotesco, muitas vezes, pode ter uma função crítica. O grotesco é uma atitude, um comportamento social, assim como o barroco era uma atitude diante da vida e não só uma categoria estética. O grotesco é uma variação do maneirismo, que por sua vez é um momento do barroco. Não é difícil esbarrar num comportamento grotesco, como a festa de aniversário para o cachorro de uma socialite. O grotesco gera uma reação de estranhamento tanto na arte quanto na vida.

– Para que serve o grotesco na mídia? Por que ela se apropria dele?

– Sendo o grotesco uma estética perfeita para arregimentar público, tem a capacidade de atrair tanto as classes mais baixas quanto um telespectador de nível mais elevado. Mas esse efeito de estranhamento pode funcionar para seduzir o público e prendê-lo diante da tela até chegar o comercial, como também ajudar a desvelar o poder de uma determinada estrutura. Chaplin, por exemplo, fazia isso. Tudo é muito engraçado, mas há uma violência por trás da figura do palhaço. O grotesco tem uma função alienante, mas também pode ter uma função altamente crítica.

– A emergência do grotesco não seria também um reflexo da democratização do gosto? E a crítica aos programas grotescos uma reação das elites intelectuais que não ditam mais o que é bom ou mais em matéria de cultura?

– Popularização não é necessariamente sinônimo de grotesco. Nem o popular é incompatível com a erudição, como no caso de um Cartola, por exemplo. O grotesco começa no popularesco, que é uma transfiguração do popular visando a seu reaproveitamento para difusão de um público maior.

– Isso não seria uma forma de democratização?

– Devemos no deter mais nessa palavra: democratização. Ela foi usada pela primeira vez pela esquerda francesa, como sinônimo de igualdade e liberdade. Descontextualizada pelo mercado, democratização passou a significar apenas liberdade: a liberdade de escolher produtos. Ora, democratização de consumo não é a mesma coisa que democratização política. A democratização do gosto me parece ser uma contrafação da relação cultural, um termo que vai ocultar a forma como a mídia sufoca a manifestação cultural do povo, pega os signos dessa manifestação, difunde para um grande número de pessoas e vende uma ilusão de jogo democrático, quando o que temos é apenas um efeito, um democratismo.

– Mas a televisão argumenta que mostra o que o povo quer ver, que esse tipo de programação dá Ibope.

– Em parte isso é verdade. Lacan já dizia que, depois de certo tempo, a televisão é igual a seu público. Isso quer dizer que aquele público foi constituído pela televisão e responde a seus estímulos. É uma relação circular. É claro que dentro de uma relação de cumplicidade, de parceria, se alguma coisa muito diferente for dada, o público não aceita. O público não é vítima de monstros capitalistas que querem dar a ele baixa cultura, não é nada disso. O problema é quando as estruturas responsáveis pela criação e manutenção da televisão não dão margem mais para a diversidade, a heteregeneidade da produção cultural. O Estado tem obrigação de intervir e financiar a cultura, porque a formação da população de um país depende disso.

– Mas como se faria isso?

– Primeiro, com uma rede pública de televisão forte e atuante. Segundo, com o fortalecimento do ensino de primeiro e segundo grau. O grande erro das avaliações sobre a qualidade da programação da televisão é achar que ela está sozinha. Para que ela se constituísse como tal no Brasil, foi preciso o desvio de investimentos que poderiam ser aplicados em outros setores, como a educação. O moralismo cultural, que diz que isso é baixa cultura, isso é alta cultura, não resolve nada. Para efetivamente equacionar isso, é preciso um plano cultural consistente. A alternativa para o baixo nível da televisão brasileira não é elevar seus conteúdos. Isso é besteira. A alternativa é educação.

– Seu outro livro fala sobre sociedade, mídia e violência. Como se dá essa relação?

– Desde meu livro O monopólio da fala, deixo claro que a grande violência desse sistema é a separação entre falante e ouvinte. A televisão tem poder porque ela fala e você apenas fica escutando. A violência, no limite, é também a separação entre capital e trabalho, entre homem e mulher. O poder é sempre dicotomizador, porque separa duas identidades por um fosso. É verdade que hoje a TV tem um grande sistema de feedback, com pesquisas e interatividade. Mas resposta, num sentido mais profundo, é a capacidade de intervir. As massas não têm condições técnicas de produzir televisão.

– Mas não é apenas desta violência que você trata no livro.

– Trato, na verdade, da violência social, da estrutural, anônima, invisível, nas condições de miséria da população. E também de outro tipo de violência, visível, anômica, do crime. A violência do Rio é, ao mesmo tempo, estrutural e anômica. Mostro que as condições de definhamento econômico da América Latina, com a baixa dos preços de seus produtos primários, fizeram com que se empobrecesse no cenário internacional, assim como o depauperamento do Estado. Criaram zonas de ilegalismo nesses países, que geram e exportam violência. Toda essa violência mostra um momento de passagem de uma condição social para outra. A violência é sintoma de uma mudança.

– Mas estamos mudando em direção a quê?

– A um regime em que determinadas classes não tenham mais nada a ver com o Estado. É possível que o Estado esteja perdendo sua soberania à medida que, cada vez mais, se fecha sobre seus interesses, debruçado sobre as classes mais ricas, que pagam impostos que serão usados para o pagamento da dívida externa. O resto da população está entregue a sua própria sorte. Essa espécie de lata de lixo da história acaba criando zonas em que a principal manifestação, a principal linguagem, é a violência.

– Qual o papel da mídia nisso?

– Ela cria um país imaginário, irreal. A mídia incita a todos nós a viver o paraíso aqui e agora, mediante o consumo. O discurso da mídia é violento.

– E qual o papel do Estado?

– O Estado monopolizou a violência e nos acarneirou a todos, tirou nossos chifres, nossas presas e nossas garras, e prometeu nos defender. Agora, o Estado se retira, deixando a população indefesa.

– Por que a televisão é tão violenta?

– Quanto mais nos acarneiramos, mais atraídos pela violência somos, porque ela continua em nós. Mas o soco do herói, na televisão, é um recurso de economia semiótica. Ele economiza duas horas de discurso sobre o bem.

– Isso tem influência na formação de uma sociedade violenta?

– Acredito que não diretamente. O que influencia é a banalização do fenômeno, já não nos escandalizamos tanto com a violência quanto antes.

– Antropológica do espelho é talvez seu livro mais complexo e filosófico. É uma tentativa de aprofundar a discussão sobre a mídia?

– Não sou filósofo, mas um aplicado leitor de filosofia. A novidade desse livro é o conceito de bios mediático, que pensei a partir da teoria dos três bios, concebida por Aristóteles. Tento uma teoria da comunicação que não seja masturbatória, que seja uma espécie de filosofia pública, uma atividade do pensamento."

 


DANO MORAL

"Boris e Record processam Kajuru", copyright O Estado de S. Paulo, 12/7/02

"A coisa não anda boa para o lado do comentarista esportivo Jorge Kajuru. Além do processo da RedeTV! por abandono de emprego, o jornalista está respondendo por mais duas ações do mercado televisivo. Uma delas é do âncora da Record, Boris Casoy, por danos morais, e a outra, da própria rede do Bispo Macedo. O motivo dos processos é um só: Kajuru teria dito em março, em uma entrevista na TV Gazeta, que Boris Casoy estaria levando dinheiro de políticos para entrevistá-los.

?Ele disse que conhecia gente do Departamento Comercial da Record e que foi
assim que ficou sabendo dessas negociações de políticos
para serem entrevistados no meu programa. Isso é um absurdo?, diz Boris.
?Me ofendeu e ofendeu a imagem do jornalismo da Record, por isso terá
de responder na Justiça.? Vale lembrar que, no início do ano,
Kajuru chegou a ser convidado para trabalhar na Record, mas preferiu ficar na
RedeTV!, de onde saiu recentemente. Comenta-se que o SBT, mesmo sem atrações
esportivas, estaria de olho no passe de Kajuru."

 

"Jornalista de ?A Noticia? é preso por calúnia", copyright O Estado de S. Paulo, 12/7/02

"O jornalista João Marcos Sabará Carvalho, diretor e editor do semanário A Notícia, foi preso por determinação do juiz Fábio Ferrario. A prisão aconteceu no final da tarde da quarta-feira, no apartamento onde o jornalista reside com a esposa, Rita Veronese, no bairro de Ponta Verde.

João Marcos estava com prisão preventiva decretada desde o início de junho.

É acusado por crime de calúnia contra três magistrados alagoanos."

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