Quinta-feira, 24 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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PRIMEIRAS EDIçõES > ELEIÇÕES 2002

Cristiane Costa

Por lgarcia em 02/10/2002 na edição 192

ELEIÇÕES 2002

“Uma teoria do escândalo político”, copyright Jornal do Brasil, 28/09/02

“Há livros que vêm a calhar. Às vésperas de uma eleição marcada por denúncias – a começar pela que tirou do páreo Roseana Sarney, mas que também não pouparam o candidato do governo, José Serra, e seu ex-tesoureiro; fizeram ruir a imagem do vice de Ciro Gomes; e mostraram que nem o PT de Lula estava imune à corrupção -, o sociólogo americano John B. Thompson está no Brasil para lançar O escândalo político: poder e visibilidade na era da mídia, livro que ele mesmo define como ?uma teoria social do escândalo?.

– Escândalos políticos não são novos. O século 19 está cheio de casos. Mas seu número aumentou sensivelmente após os anos 60 – assinala Thompson. Uma das razões seria o aumento de visibilidade dos líderes políticos.

– O desenvolvimento das novas tecnologias de mídia tornou-se uma faca de dois gumes para os políticos – acredita. – Sua visibilidade alcançou níveis jamais registrados, mas ficaram bem mais expostos.

Isso, para Thompson, não seria necessariamente negativo, nem representaria uma usurpação de todos os poderes legalmente constituídos pelo Quarto Poder, a imprensa.

– A mídia não está tomando o lugar do poder político – afirma. – Mas é claro que o universo político está sendo profundamente moldado pelos meios de comunicação.

A onda de escândalos seria ainda conseqüência de que a política é cada vez menos baseada na solidariedade de classe.

– O que torna um partido diferente do outro é cada dia menos claro. Uma política baseada em credibilidade pode ser um diferencial – analisa.

Pesquisador mostra os mecanismos por trás das denúncias

Além da extrema visibilidade oferecida pelas novas tecnologias de comunicação e a mudança de paradigma político, com o fim da divisão esquemática entre esquerda e direita, acarretando o nivelamento de todos os partidos, um terceiro fator determinante para a onda de escândalos políticos seria a emergência do jornalismo investigativo, a partir dos anos 60.

– Nos Estados Unidos, a cobertura da Guerra do Vietnam e do escândalo Watergate criaram uma cultura de jornalismo que valorizou a busca por informações secretas como parte legítima da atividade jornalística. O problema é que a distinção entre os diferentes tipos de segredos, privados e públicos, foi facilmente apagada – afirma J. B. Thompson.

Com seu livro O escândalo político, o professor de Cambridge ganhou o Prêmio Almafi, o mais cobiçado da Europa na área de Ciências Sociais, só conferido antes a pensadores do porte de Richard Sennett, Zygmunt Bauman e Norber Elias. O livro divide os escândalos políticos em três tipos: sexual, financeiro e de poder. Qual seria o mais prejudicial para a imagem de um político?

– Isso depende do contexto histórico e social. A importância de um escândalo depende de vários fatores. Por exemplo, escândalos sexuais tendem a ser mais danosos no contexto político britânico do que no italiano, francês ou brasileiro – afirma. Em parte, isso se deve, reconhece, à tradição de escândalos sexuais que, desde o século 19 e até antes, envolvem a aristocracia inglesa, fazendo a festa dos tablóides sensacionalistas.

Muitas vezes, nota o sociólogo, não é o escândalo sexual em si que causa a queda de um líder político, mas o que chama de ?transgressões de segunda ordem?, cometidas durante tentativas infrutíferas de acobertar o erro original.

– Essas transgressões de segunda ordem sempre acabam se tornando mais importantes do que a falha principal e são também as mais perigosas para a figura política no centro do escândalo.

Exemplos não faltam. Para o presidente americano Bill Clinton, por exemplo, a emenda foi pior do que o soneto. A acusação de perjúrio – por ter mentido em Juízo ao afirmar que não teve relações sexuais com a estagiária Monica Lewinsky – quase o leva a um impeachment.

Na época, houve quem se lembrasse do caso Profumo, um dos mais discutidos escândalos sexuais do pós-guerra na Inglaterra. Thompson acha que o ?golpe fatal? para o líder inglês também não foi a descoberta de seu caso extraconjugal com a jovem e atraente Christine Keeler, mas o fato de ter mentido durante depoimento na Câmara dos Comuns.

O caso Monica Lewinsky mostrou que mesmo um presidente dos Estados Unidos pode sobreviver a um grande escândalo sexual. Mas o final diferente das batalhas de Clinton e Profumo para limpar seus nomes não aponta necessariamente, segundo o pesquisador, para um relaxamento da sociedade em matéria de escândalos sexuais.

– Clinton sobreviveu ao impeachment, mas sua reputação ficou severamente manchada – assinala. Em comparação com a condescendência com que os affairs do presidente Kennedy eram tratados pela imprensa, houve mais do que um simples recrudescimento do puritanismo. O que esteve em jogo, acredita Thompson, foi o fim de uma ética jornalística que fazia questão de separar o público do privado.

– Há 40 ou 50 anos atrás, era uma prática comum dos jornalistas americanos silenciar sobre a vida privada de figuras públicas, mesmo quando seus casos extraconjugais eram conhecidos nos círculos do Poder. Muitos jornalistas sabiam das escapadas de Kennedy, mas fecharam os olhos. O que mudou de uma época para a outra foi a cultura jornalística, seu código de ética.

Nem por isso Thompson crucifica os jornalistas e os meios de comunicação em sua luta diária por tornar públicos os escândalos políticos. Talvez porque a onda de escândalos seja um preço a pagar pela democracia e pela transparência no exercício do Poder.

– As conseqüências de um escândalo político não são necessariamente deletérias. Jornalistas sempre contribuem para a vida pública ao investigar e revelar casos de corrupção e abuso de poder. Criticar isso é ignorar o importante papel que certos escândalos tiveram para estimular o debate sobre os padrões de conduta na vida pública.

No entanto, o pesquisador lembra que a liberdade de imprensa deve ser contrabalançada com a responsabilidade de não se expor a vida privada de uma pessoa à execração pública se isso nada vai acrescentar ao debate político.

– Devemos distinguir a importância política de escândalos financeiros e de poder da insignificância de escândalos sexuais. Enquanto os primeiros podem oferecer uma valiosa contribuição para a discussão pública sobre o Poder, é bem menos claro se os segundos têm algo a oferecer.

Para Thompson, obviamente não é preciso ser santo para tentar um cargo público, mas ?é indubitável? que a conduta passada e presente do político é vasculhada com muito mais intensidade hoje.

– A preocupação com o caráter pode até mesmo abafar questões como a competência política. Podemos, no futuro, nos descobrir governados por líderes cujas credenciais morais sejam impecáveis, mas cuja competência como agentes políticos e cuja capacidade intelectual para enfrentar os complexos problemas da sociedade estejam muito abaixo do desejado – adverte.

No entanto, não costumam ser os escândalos sexuais, mas sim os financeiros e de abuso de poder, como Watergate e o caso Irã-Contras, as formas mais rápidas de bombardeio de uma carreira política. São escândalos que envolvem questões como corupção, tráfico de influência, mau uso de fundos públicos, rompimento das regras da disputa política e o exercício de formas escusas de poder pelo próprio Estado.

– Esses escândalos podem ter sérias conseqüências para indivíduos e partidos envolvidos – comenta o especialista.”

“Dissecando estruturas do Poder”, copyright Jornal do Brasil, 28/09/02

“O poder judiciário, os meios de comunicação e opinião pública. Salete Maccalóz Lumen Juris R$ 50

Por que a Justiça e seus profissionais tornam-se notícia? Em que cenário histórico e político seus atores saem dos bastidores para os meios de comunicação? Qual é o conteúdo da representação do Judiciário na mídia? Tais questões, da maior importância para o funciona mento democrático da sociedade, são descritas e examinadas com rara lucidez nesta pesquisa sobre os reflexos do Sistema Judiciário na mídia.

Como juíza e professora, Salete Maccalóz está à vontade para dissecar as estruturas e a dinâmica do poder no Brasil. Seu enfoque se fundamenta num conhecimento sólido das ciências jurídicas e das ciências sociais, em geral. É uma abordagem multidisciplinar com uma linguagem jornalística. A origem do livro é uma tese de doutorado em Comunicação e Cultura, desenvolvida sob a orientação do filósofo Emmanuel Carneiro Leão, que assina o prefácio.

A pesquisa mostra que o Poder Judiciário, historicamente conservador, absorveu a natureza autoritária da ditadura militar e a mantém até hoje. Abdicando de seus princípios mais importantes, ele acaba se confundindo com o próprio governo. Na atualidade, quando as elites, o poder e o capital se internacionalizam e se desterritorializam, o Poder Judiciário partilha o compromisso governamental, junto aos órgãos internacionais, de desmonte do estado de bem-estar social, de apropriação do público pelo privado, de desconstituição dos direitos de cidadania, no processo acelerado da farsa modernizadora neoliberal. Salete Maccalóz questiona: qual é o futuro do Judiciário diante do desmonte do poder local e nacional? Que papel lhe é atribuído pelas propostas de reformas formuladas pelos órgãos internacionais?

Ao formatar a opinião pública, os meios de comunicação aliam-se ao poder internacionalizado e aos interesses hegemônicos internos, dando visibilidade apenas à pior face do Judiciário. Assim, a mídia explora, sem critério o nepotismo, o tráfico de influência e a subserviência, males gerais da sociedade, que são entrevistos nos corredores kafkianos da Justiça, onde vicejam vícios particulares, como a morosidade, a parcialidade e a corrupção.

Salete Maccalóz alerta: ?A crise da Justiça não passa por seus problemas estruturais, institucionais e de funcionamento. Eles sempre existiram, remendados aqui e ali. Hoje a sua crise é existencial. Uma crise que não está posta para o cidadão comum; ele sabe que precisa da Justiça, mais do que nunca. Historicamente não se tem referências a tantos abusos e desmandos, cometidos pelas autoridades públicas e privadas, em nome de uma ordem econômica internacional.?

O livro faz uma radiografia crítica do sistema. Desvenda as estruturas do poder e suas formas de preservação. Denuncia grandes corrupções e as cotidianas, que caracterizam essa ?ordem da desordem?. Mas não se deixa envolver pelo desencanto. Com lucidez, Salete Maccalóz aponta caminhos, formula hipóteses e apresenta propostas inovadoras de democratização do poder em sintonia com a democratização do Judiciário.”

“Todos trabalham para Lula”, copyright Folha de S. Paulo, 27/09/02

“O desenvolvimento da maioria das campanhas neste primeiro turno resultou em muitos candidatos perdedores e em uma atividade igualmente derrotada, o marketing político. Muito mais do que lições de ?como fazer campanhas?, a presente temporada apresentou inúmeros modelos de ?como não fazer?. Os erros foram exemplares, sempre em maior número e muito mais expressivos do que os acertos.

Nunca assistimos a tanta pancadaria numa campanha presidencial como agora. O início foi o que se convencionou chamar de ?desconstrução da imagem de Ciro?. O neologismo serve apenas para esconder um erro estratégico na quantidade e no tamanho dos ataques. Pois, se Serra, o atacante, por um lado conseguiu seu intento, também conseguiu, com isso, reforçar uma imagem de destruidor de candidatos, iniciada com o episódio Roseana Sarney.

Isso se deve ao fato de o principal responsável pela campanha tucana, Nizan Guanaes, ser um excepcional publicitário, seguramente um dos mais importantes do país. Mas marketing político não é propaganda, é outra ação no complexo mundo das comunicações. E aqui, talvez, falte-lhe algum traquejo.

Fazer uma campanha presidencial protegido pela fortaleza do Plano Real é relativamente fácil -assim foi em 94 e, guardadas as proporções, em 98. Para trabalhar um candidato governista, conciliando a visão que as pessoas têm do presidente no poder com a expectativa de mudança e a personalidade do postulante, é preciso bem mais do que a adaptação de um bom jingle de cerveja.

Na eleição estadual de 90, em São Paulo, vetei a campanha de ataques que Nizan, na sua primeira tentativa de incursão no marketing político, pretendia colocar no ar contra Paulo Maluf, imaginando que com isso faria Fleury ganhar a eleição, no segundo turno. Apesar de o resultado do primeiro turno ter apresentado uma diferença de 12 pontos: 34%, contra 22% do candidato apoiado pelo governador Quércia.

As aparências indicavam o caminho do ?bater para crescer?, já que o adversário tinha flancos frágeis. Também tenho que reconhecer que, por hipótese e de acordo com a argumentação do momento, a campanha violenta talvez conseguisse ganhar, com um só golpe mortal. A decisão era dificílima. O fato é que acabei optando por uma campanha propositiva, sem deixar de ser aguerrida, que, lenta, gradualmente e com muito sofrimento acabou vitoriosa.

Em defesa do publicitário deve-se salientar que os políticos, em geral, e a chamada militância, em particular, nunca têm paciência para suportar um candidato com baixos índices de intenção de voto. Bater é sempre a solução simplista imediata. Difícil entenderem que cada caso é um caso diferente que tem que ser estudado e resolvido. Às vezes, até com um ?cacete? bem aplicado.

Se há quem bata, há quem apanhe. Neste caso, a ?desconstrução? pegou Ciro Gomes como se fosse uma gripe muito forte. O vírus sempre causa algum estrago, mesmo ao atingir um organismo sadio, bem estruturado. Se pega um debilitado, a avaria é muito maior. Foi o que aconteceu aqui. Os programas eleitorais do candidato, em geral, foram sempre mal avaliados pela população. Mesmo quando ele ainda ostentava níveis altos de intenção de voto, sua comunicação jamais conseguiu empolgar os seus eleitores potenciais.

Junte-se a esse quadro uma inexplicável demora em reagir e -quando veio- uma reação tíbia, olímpica, como se o candidato estivesse acima de qualquer suspeita, podendo simplesmente desqualificar as acusações que o atingiam. Junte-se também uma e outra declaração infeliz, posteriormente explicadas de forma defensiva, e pronto: a infecção viral cresce e vai cortando a capacidade do paciente de respirar.

Ao perceber a extensão da doença, o comando político da Frente Trabalhista ensaiou uma reação, convidando-me para fazer o que chamo de Pronto-Socorro Eleitoral. Reuni minha equipe e avaliamos que ainda dava tempo para uma tentativa de salvar o moribundo. A campanha estava no meio, faríamos ajustes sérios na comunicação, tratamento de choque. Passo a passo assistiríamos ao ataque gripal mudar de alvo. Era previsível que a pancadaria seria redirecionada para Lula. E Ciro, já fortalecido, poderia se beneficiar disso, voltando a disputar lugar no segundo turno. Não deu certo, pois o paciente optou por um tratamento com chá caseiro.

Para a população, que sempre assiste horrorizada a esse pugilato eleitoral, sobraram poucas alternativas. Garotinho pode ser uma, não tivesse ele começado a campanha revestido de tão pouca credibilidade na autocomparação com Getúlio e Juscelino. Melhorou depois, cresceu um pouco, mas pode ser difícil se livrar de uma certa aura de demagogia.

Agora é Lula, diz o refrão do petista. Pois parece que todos trabalham para isso. Inclusive ele, guardando-se numa bem montada campanha de espera, sem grandes arroubos, assistindo de camarote à epidemia se espalhar. Repete-se o que ocorreu com Marta Suplicy na eleição municipal paulistana. Ficou acomodada, sempre acima dos 30%, esperando quem chegaria em frangalhos para a batalha final. Desta vez, com uma diferença: talvez nem haja segundo turno. De todo modo, se houver, Lula tem se mostrado muito bem protegido. A vacina antigripal foi sendo religiosamente tomada nesses anos todos. (Chico Santa Rita, 63, jornalista, especialista em marketing político, é o responsável pela campanha de reeleição do senador Romeu Tuma (PFL-SP). Participou da campanha eleitoral de Fernando Collor à Presidência da República.)”

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