Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > SENSACIONALISMO

Cristiano Romero

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106


VOZ DA AMÉRICA
EXTINTA

"Voz da América será extinta em dois meses", copyright Valor Econômico, 23/01/01

"O serviço brasileiro da Voz da América, que transmite notícias dos Estados Unidos para as principais rádios brasileiras desde 1961, vai parar de funcionar em dois meses. A extinção do serviço, antecipada pelo Valor há dez dias, foi oficializada na sexta-feira pelo governo americano, um dia antes da posse do novo presidente do país, George W. Bush.

A decisão foi tomada pelo Broadcasting Board of Governors (BBG), a estatal de comunicação americana, equivalente à BBC inglesa. O BBG decidiu investir mais nos serviços noticiosos que possui no Oriente Médio, na Rússia e nos países de língua espanhola. Junto com a Voz da América brasileira, serão extintos os serviços da Tailândia e do Uzbequistão. Também sofrerão cortes os serviços da Bulgária, da Romênia, da Eslováquia, da Armênia e da Turquia.

Inicialmente, segundo apurou o Valor, o serviço turco da Voz da América também seria extinto, mas uma forte reação diplomática evitou que isso acontecesse. O Departamento de Estado do governo americano teve participação na extinção dos serviços.

Embora goze de relativa autonomia administrativa, o BBG depende financeiramente do governo americano. O conselho que dirige a empresa é integrado por quatro representantes do Partido Democrata e quatro do Republicano, sendo que o voto de Minerva é do Departamento e Estado.

‘A lei de radiodifusão internacional, de 1994, requer do BBG que revise, avalie e determine, pelo menos uma vez por ano, depois de consultar o secretário de Estado, a criação ou eliminação dos serviços idiomáticos’, diz a nota oficial distribuída pela BBG.

Segundo informou uma fonte, o governo americano gasta US$ 410 mil (cerca de R$ 790 mil) por ano para manter o serviço brasileiro da Voz da América.

Com as mudanças, sete jornalistas serão demitidos, sendo um deles, o locutor José Roberto Dias Leme, que trabalha no serviço desde seu lançamento, há 40 anos.

O serviço, que fornece notícias para rádios como Bandeirantes, Jovem Pan, CBN, Nacional, Eldorado e Itatiaia, foi extinto um dia antes do lançamento página da Voz da América brasileira na Internet. Antes do corte, eram 53 serviços noticiosos em todo o mundo. Com o corte, 34 postos profissionais foram eliminados."

SENSACIONALISMO

"A mercadomania", copyright O Estado de S. Paulo, 21/01/01

"Escrevo nos primeiros dias e semanas do Terceiro Milênio, em janeiro de 2001. É provável que, em toda a História, não tenha havido nunca outro tempo tão fortemente marcado pela ativa mercantilização, não só da produção econômica propriamente dita, mas também do lazer e, portanto, da cultura e dos seus múltiplos subprodutos; outro tempo de tal maneira dominado pela omnipresençamanter o m e pelo soberano prestígio de mercado. Ora, o que é o mercado senão um jogo, uma aposta sobre o futuro?

São dois planos que se superpõem (e se potencializam): um é o andar térreo, o vasto alicerce da produção e da produtividade crescente, da cada vez maior plenitude de bens e produtos; outro é o do mercado, que cavalga e esporeia o primeiro, e domina, com a sua peculiar psicologia, todo o sistema: o caráter compulsivo (paranóico) do jogo que faz nascer, em meio à produção e à riqueza crescentes, sentimentos como a ansiedade, a angústia, a insegurança, o descontentamento de muitos, ou de todos.

Eis aí um fenômeno comum a todo o ecúmeno, mas mais sensível, talvez, na Europa, onde passei ainda agora quatro anos inteiros, do que em outros lugares: revistas, jornais, casas editoras, galerias de arte, cadeias de TV, vinhos e vinhedos famosos, bons restaurantes, viagens, queijos de qualidade, doces, vestidos, tudo está cada vez mais nas mãos de conglomerados financeiros cada vez maiores e mais poderosos. A força irresistível do mercado controla e arregimenta até os produtos mais sofisticados e frágeis do gênio humano. E a conseqüência é uma quebra inevitável de qualidade e de autenticidade; a riqueza material pode ser maior, a distribuição muito mais ampla, mas a massificação e o empobrecimento espiritual são cada vez mais sensíveis; a qualidade, o caráter, a força da criação já não são os mesmos.

Não se pode saber com certeza o que vão dizer do pensamento e da arte de nosso tempo os pósteros, cidadãos dos séculos vindouros; mas não há como deixar de constatar a rápida decadência dos últimos 50 ou 60 anos: já não nos restam talvez, em literatura e arte, no Ocidente, senão uns poucos supostamente ‘grandes’ nomes (García Márquez, talvez), capazes de gerar, como queira Bernard Berenson, grandes ‘mitos poéticos’.

A febre do mercado mutila a arte e seca suas fontes criadoras. A arte precisa de tempo (e espaço) para fazer-se e amadurecer. Mas talvez se deva abrir, aqui, duas exceções: a primeira é a exceção Millôr, aquela para a qual me chamou a atenção Millôr Fernandes. Em termos de humor e sátira, em termos de charges, cartuns, caricaturas, não houve decadência no último meio século, mas um notável florescimento, capaz de produzir mestres como Steinberg, Sempé, Herrblock, Chico Caruso, Jaguar (e o próprio Millôr) entre tantos e tantos outros.

O desenho de humor floresceu, em nosso tempo, acompanhando o extraordinário desenvolvimento do seu veículo natural, a imprensa. Mas não escapou do enraizado preconceito que muitas vezes nos impede de admitir e apreciar o valor propriamente artístico ou estético dos seus grandes mestres. Honoré Daumier, do qual se pôde ver, ainda há pouco mais de um ano, em Paris, uma monumental exposição retrospectiva, viveu no século 19. Não haverá outros nomes mais recentes? George Grosz, antes da guerra, expôs talvez como ninguém a realidade alemã do seu tempo; o germe, a raiz, a grosseira brutalidade moral (imoral) que serviria de alimento ao hitlerismo. Saul Steinberg, por sua vez, pintor da América (de uma certa América), é quando menos comparável a Hopper, a Hockney, certamente superior a Warhol ou Litchenstein, embora raramente se reconheça isso.

Uma segunda exceção é relativa ao cinema, a grande arte do nosso tempo.

Conforme se pôde constatar durante os anos 60 e 70, na própria Hollywood, por maior que seja a dominação dos grandes conglomerados financeiros sobre a produção, ela não chega a ser nunca completa e definitiva. A criação artística independente encontra meios de sobreviver e vencê-la. Nosso tempo, nosso meio século, gerou e continua a gerar grandes cineastas, desde Chaplin (que vinha de antes), Fellini, Bergman, Kurosawa, até os novos chineses, até a Festa de Babette e os ‘cult movies’ e uma, graças ao bom Deus, inesgotável fieira de pequenas e grandes obras-primas, um extenso colar de pérolas de tamanhos variados, em meio à vasta enxurrada, ao lixo verdadeiro da produção comercial e do cinema para o mercado adolescente.

E eis, enfim, uma ‘boa’ nova, de caráter, digamos, estatístico, que assinala este princípio de século e de milênio. A pressão do mercado adolescente vai-se reduzir consistentemente durante as próximas décadas. Em termos demográficos, o mundo (civilizado) tende a envelhecer rapidamente no 21º século; a trocar a vitalidade, o entusiasmo e a gula dos jovens pela experiência, pela moderação e pela (suposta) sabedoria da maturidade e da velhice.

Em outras palavras, a afrontosa exploração comercial do mercado ‘jovem’, hoje dominante (especialmente nos Estados Unidos) tanto no cinema quanto no próprio jornalismo, tende a render menos dinheiro no novo século; atrairá portanto menos investimentos e talentos, e abrirá espaço crescentemente, esperemos, para uma arte (e um jornalismo) menos sufocados pela imbecilidade e pelo sensacionalismo de hoje.

Assim seja. (Fernando Pedreira é jornalista)"

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