Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > WEBJORNALISMO

Cristina Padiglione

Por lgarcia em 12/06/2002 na edição 176

CRIANÇA & TV

"Crianças aprendem a se defender da TV", copyright O Estado de S. Paulo, 9/06/02

"Proibir que as crianças se apeguem a produções pirotécnicas, repletas de heróis de vida fácil – todos são dotados de superpoderes – não é negócio. A proibição só aguça a vontade dos pequenos. Mais eficiente é ensiná-los a ?digerir? esse cardápio, filtrando a TV que tanto os encanta. Esse foi o caminho tomado pela direção do Colégio Santa Maria (zona sul de São Paulo), ao perceber que a brincadeira predileta de alguns alunos na faixa de 4 a 5 anos era ?brincar de Power Rangers?.

Veio daí a decisão da orientadora de Educação Infantil Suely A. Gonçalves Gomes de promover sessões de TV entre os alunos. Em dias alternados, foram exibidos o Sítio do Picapau Amarelo, o Castelo Rá-Tim-Bum e um filme dos Power Rangers. A excitação da criançada, após a apresentação desse último, era evidente. ?Nós percebemos que eles ficavam mais agitados e mais agressivos na hora de brincar. Dizem que gostam também do Sítio, mas preferem os Power Rangers. O Castelo, já acham mais parado?, afirma Suely.

Entre as meninas, o Sítio leva a melhor na preferência.

Orientadora e professoras partiram então para a tarefa de educar a leitura que as crianças devem fazer da TV. Para tanto, tiveram de fazer a lição de casa.

?Nós fomos conhecer esses programas. Concluímos que os heróis de antigamente ainda tinham um ideal, um caminho a seguir para conquistar suas vitórias. O Zorro tinha uma honra. Esses heróis japoneses de hoje conquistam tudo magicamente, não em razão de um ideal. Não são astutos, inteligentes, nada disso. Tudo empobrece muito a imaginação da criança?, avalia Suely. Nessa linha incluem-se o Dragon Ball Z, Digimón e Pokémon.

Um dos alunos contou a Suely que a mãe o proibira de ver Dragon Ball. ?Por quê??, quis saber a orientadora. ?Não sei, ela não me disse?, respondeu o garoto. ?Não adianta proibir e não explicar o motivo?, observa.

Em abril, numa reunião sobre a exposição das crianças à violência, os pais puderam discutir como orientar os filhos a digerir a programação que consomem. Alguns deles se prontificaram a coibir os excessos.

Documentado – Em depoimentos gravados longe dos pais, alguns alunos explicam a Suely suas preferências. Um deles conta que assistiu ao Dragon Ball Z (uma saga de guerreiros) escondido da mãe. As cores dos Power Rangers são citadas como um dos atrativos da produção – cada um veste um tom: vermelho, azul, amarelo e, representando o topo hierárquico, o branco. Tudo se resolve com pouco diálogo, muita ação e maniqueísmo, num formato cuja assimilação nem requer grande atenção da criançada.

?E por que eles lutam tanto?? questionou Suely no vídeo. Um dos meninos ponderou: ?Eles não lutam, atacam.? E explica que é necessário ?matar? o monstro. Suely pergunta se é mesmo necessário matá-lo: ?E se a gente conversasse com ele para que ele ficasse bom?? O menino diz: ?A gente pode conversar, mas, se ele não ficar bom, tem que matar?.

O fato de Power não ser desenho animado (como Digimón, Pokémon e Dragon Ball Z) excita ainda mais as crianças. ?O cenário é de verdade, tem gente de verdade. Tudo isso dá a idéia de um mundo mais real?, explica Suely.

A crianças de 6 anos, a orientadora já chegou a revelar que aquilo é uma produção ?de mentirinha?, fruto de efeitos especiais. Questionar, duvidar e achar outras saídas são exercícios mentais que as crianças podem fazer diante dos filmes e desenhos. É a aprendizagem do senso crítico da escolha, do pensamento divergente. ?Eles precisam saber que não é com luta que tudo se resolve.?"

 

BLOGS "PROFISSIONAIS"

"Blog na maturidade", copyright no mínimo, 5/6/02

"Desde segunda-feira estão no ar cinco novos blogs. Não seria novidade numa Internet que vê esse tipo bem particular de site pessoal nascendo toda hora se estes novos blogs não fossem particularmente profissionais. Quem os assina são algumas das principais estrelas do canal a cabo de notícias americano MSNBC. É o encontro de jornalistas do meio mais disciplinado e cheio de regras que há – a tevê – com a maneira mais informal possível de se publicar na Internet.

É um grande passo. Quando surgiram, faz uns dois ou três anos, estes pequenos diários on-line recheados de links caminhavam à margem das revistas eletrônicas, na contracultura digital. A MSNBC os colocou de vez no centro do picadeiro.

O blog de política nacional, por exemplo, está sendo escrito por Chris Matthews. Foi chefe da sucursal em Washington do San Francisco Examiner, comentarista das redes de tevê CBS e ABC, hoje ancora um programa semanal. Muito antes de seguir carreira na imprensa, Matthews foi o principal assessor político de Tip O?Neill, o presidente da Câmara dos Deputados que fez oposição ao governo Ronald Reagan, nos anos 1980. E aí vem o surpreendente paradoxo, aparentemente insolúvel. Com tanta tradição na velha mídia, Matthews vai agora escrever num formato inventado por tecnólogos, desenvolvido por gente comum e abusado por adolescentes mundo afora.

Blog é a corruptela de weblog, um diário na web. Seu formato, notas curtas, por ventura algumas imagens, quanto mais links apontando para informação complementar alhures, melhor. A nota mais recente empurra a anterior para baixo numa pilha interminável, forçando sua aparência de uma longa coluna em tripa. Quem escreve blog é o blogueiro no vernáculo tupinambá, e os blogueiros vêm de todos os tipos. Blogs, pois, são sobre tantos assuntos quanto possam existir. De vida pessoal a notícias da Copa. Ganha leitor quem escreve de maneira mais atraente, equação fundamental na web, que é vasta e (em grande parte) gratuita.

Mas só isso não explica um blog. Eles não são frutos do surgimento da web, vieram depois, quando as conexões de banda larga, em casa ou no trabalho, fizeram mais gente passar grande parte do dia dentro da Internet. Esse ?estar? online traz dinamismo para a atualização dos blogs. O blogueiro está navegando, depara-se com um artigo interessante, escreve três frases, põe o link, encerra a nota – gastou três minutos nisso. Blogar é uma atividade que se faz durante o trabalho, como que o intervalo para um cafezinho ou um cigarro. Daí a informalidade.

O jornal britânico Guardian foi um dos primeiros veículos da imprensa a abraçar o conceito e publica em sua edição on-line, diariamente, um weblog fantástico, selecionando as melhores reportagens que sua equipe de editores encontrou na rede. Ainda assim, trata-se de um weblog impessoal. Jornalistas de tecnologia desde cedo partiram para os seus blogs, assinados e absolutamente pessoais. É o caso de Dan Gillmor, editor no Vale do Silício do San José Mercury News. Cá no Brasil, tanto Cora Rónai quanto Elis Monteiro, do caderno Informática e etc. de O Globo, têm os seus.

Mas, em grande parte, o flerte do jornalismo com blogs nunca se atreveu tanto quanto agora. Jornalistas acostumados com outras arenas e sem uma empatia particular com a web escrevendo blogs quais fossem colunas é novidade que dita uma mudança de comportamento muito cara a quem tem bits e bytes circulando nas veias. Os blogueiros mais antigos e atentos vêm cantando a pedra de que o formato é ideal para o jornalismo na web há tempos. Dave Winer, um dos inventores dos blogs, chegou a apostar com o editor da versão on-line do New York Times, Martin Nisenholtz, que em cinco anos o noticiário blogueiro vai repercutir mais que o diário novaiorquino. Os blogs da MSNBC são um indício de que é isso mesmo?

Como testemunhos da história, weblogs já garantiram seu espaço. Foi particularmente o caso do onze de setembro, quando blogueiros de Nova York lançaram mão de seus computadores para escrever ao mundo o que viam. Saíram alguns depoimentos emocionantes, no calor dos fatos, quando todos, aflitos, buscavam saber um pouco mais. A característica é própria de um veículo sem intermediários – o que o autor escreveu e publicou está para ser lido imediatamente. Mas há outra característica fundamental para a imprensa que é a confiabilidade.

Há uma semana, o jornalista John Hiler publicou na revista eletrônica Microcontent News uma interessante análise a respeito do uso de blogs pessoais como veículos de informação. De lá, sai um exemplo precioso, o weblog de um holandês chamado Adam Curry. Curry se revoltou quando viu a imprensa mundial falar sobre o assassinato de Pim Fortuyn, candidato às eleições de seu país. Para o mundo, o desconhecido político foi descrito como aquela típica figura racista da ultra-direita européia. ?Será que falavam do mesmo Pim que os holandeses se acostumaram a conhecer??, escreveu Curry. ?Será que é o mesmo Pim que meu país apreciou por dez anos como autor de muitos livros e colunas que expunham com precisão os problemas políticos do país? Ele nunca pediu o fim da imigração ou expulsão dos muçulmanos. O que fez foi dar início a um debate público a respeito de um dos países mais densamente povoados do mundo.?

Lendo comentários de Curry, Hiler se perguntou em quem devia confiar: se no New York Times ou em Adam Curry. ?Se por um lado podem ser poderosas testemunhas de o que está acontecendo, os blogs não têm a mesma credibilidade de veículos tradicionais de imprensa. Confio em Adam, sendo leitor de seu blog há tanto tempo, principalmente nos campos em que ele é um expert: música, rádio e tecnologia. Mas não sei o quanto posso confiar nele quando fala sobre Pin Fortuyn.? A pergunta é boa.

Também não é à toa que foi a MSNBC que decidiu sair na frente da concorrência botando seus titulares para escrever no modelo que agrada aos leitores da web, principalmente os mais jovens. O MS à frente da NBC corresponde à Microsoft. O comunicado oficial anunciando a novidade não veio de Nova York, sede da Rede NBC, mas de Redmond, estado de Washington, onde fica a empresa de Bill Gates. Os laços íntimos da empresa jornalística com uma de tecnologia fazem o meio campo, uma trazendo a novidade, a outra cedendo a grife que garante credibilidade.

Além do mais, a tevê MSNBC tem um enorme problema nas mãos, como todas as tevês têm. Site de jornal, no fim das contas, republica o texto escrito para as páginas impressas. Mas tanto tevê quanto rádio, se querem participar da web, vêem-se obrigados a contratar um time de redatores que escreve textos a respeito das matérias em vídeo ou áudio apresentadas. Afinal, nem todo mundo tem banda (e paciência) para baixar uma reportagem e assistí-la numa micro janela. A solução adotada por muitos é colocar os editores-chefes dos telejornais para escrever um comentário a respeito de o que vai ser o noticiário do dia, devidamente distribuído por email aos assinantes uma hora antes de o jornal ir ao ar. É o caso, no Brasil, do Jornal da Globo.

A solução nem é má, afinal quem se interessar assina no website do jornal para receber a mensagem diária. Mas botar âncoras e editores-chefes para produzirem weblogs é radicalmente diferente. A relação entre leitores de blogs com seus autores repete o dinamismo da mídia. Se um blog é atualizado toda hora, todo dia, e as notas trazem lá a data e horário em que entraram, isso é um convite direto para o leitor. Quem escreve está lá, naquele momento, do outro lado da tela. Chris Matthews, da MSNBC, por exemplo. O mesmo sujeito que comanda semanalmente um debate com os principais políticos americanos, do vice-presidente da República ao líder da oposição no Senado, pode parecer muito distante na tela da tevê. No monitor do computador, não – está a um email de distância.

E é aí que a informalidade do blog conquista. Não se trata de um artigo com início meio e fim, mas de notas rápidas escritas com uma certa impunidade. Um trabalho constantemente incompleto. Uma nota do blog de Matthews, por exemplo: ?Costumo dizer no programa que gostaria de conversar com pessoas comuns em Israel e nos territórios palestinos para saber como sua vida política é e o que pensam sobre seus futuros. Vou estar lá sábado e domingo e são eles que vou procurar. Falo sobre isso na próxima semana.? É o formato blog que força o jornalista não apenas a mostrar o trabalho pronto, a reportagem, mas também o processo no qual vai descobrindo novos dados. Quais curiosidades o motivam.

Provavelmente, não se trata da questão de se blogs vão ou não repercutir mais que uma reportagem do New York Times – a dúvida é secundária. Mas, aos poucos, o dinamismo da Internet, quebrando fronteiras, aproximando escritores de leitores, facilitando a transformação de leitores em escritores, corrobora para o aumento da credibilidade da mídia. O fascinante dos blogs é que, cada vez mais, convivem com o resto do conteúdo publicado na grande rede. Não vieram, ao que parece, para substituir as revistas eletrônicas, mas para conviver com elas. Interagir. Afinal, vivem em grande parte de colocar links para artigos publicados na rede. Às revistas eletrônicas, ajudam a divulgar, atraindo leitores e forçando o aumento do informalismo que preside este mundo virtual.

Neste semestre, a Universidade de Berkeley passou a oferecer uma cadeira de weblogs em seu curso de jornalismo. Desde segunda-feira, blogs passaram a fazer parte do leque de opções da grande imprensa. É um convite aberto."

 

WEBJORNALISMO

"Mãozinha para os estudantes de jornalismo (I)", copyright Comunique-se, 4/5/02

"Desde que comecei a estudar o campo de jornalismo online – isso faz mais de quatro anos – e desde que criei o site Jornalistas da Web – há dois anos -, muitos estudantes de comunicação, em sua maioria de jornalismo, me procuraram para que eu desse minha opinião sobre esse cenário. É normal que os alunos passem cada vez mais a se interessar pelo jornalismo digital, pois é um mercado novo, atraente e que faz a gente pensar que quem não estiver nessa praia, morrerá em outra (é claro que não é bem assim…)

Decidi publicar aqui no Comunique-se uma coletânea de depoimentos meus sobre o jornalismo online, dados a estudantes de comunicação. Fui procurado por alunos de diversas universidades, entre elas PUC-MG, PUC-RJ, Uerj, Unicamp e UVA. A intenção é esclarecer dúvidas que sempre surgem entre os estudantes dos primeiros períodos.

Para não deixar nenhum depoimento de fora, optei por dividir o artigo em duas partes. Acompanhe a primeira abaixo:

Estudantes – O que você acha que mudou no jornalismo com o advento da internet?

Mario Cavalcanti – Podemos dizer que a internet, com seu dinamismo, deu mais gás ao jornalismo. Hoje em dia é inevitável o uso da Web pelas redações de impresso, rádio ou televisão. Os profissionais das, digamos assim, mídias convencionais, utilizam a internet como uma ferramenta de apoio aos seus trabalhos.

Estudantes – Quais as tendências, vantagens e desvantagens dessa convergência?

MC – As vantagens estão relacionadas às suas características naturais: dinamismo, interatividade, multimídia e abrangência (um fazendeiro isolado da cidade grande tem o mundo na tela do seu computador. O rádio também ganha nesse aspecto).

Uma grande desvantagem do jornalismo online talvez seja a falta de credibilidade do leitor, pois hoje qualquer um pode criar o seu próprio canal de notícias. Os leitores têm que saber passar essa peneira e descobrir onde encontrar conteúdo confiável. Por isso, muitas vezes eles acabam se tornando leitores assíduos de conteúdos online feitos ou apoiados pelas empresas de mídias tradicionais (O Globo, Estadão, Folha, Zero Hora).

Sobre tendências, com os recursos de interatividade e de multimídia da Web, fica difícil falar. São várias. O telejornalismo online é uma delas, que daqui a pouco será uma alternativa bastante interessante no meio jornalístico. O jornalismo feito para dispositivos móveis, como PDA e telefones celulares também é uma tendência.

Estudantes – Quais os novos meios que estão sendo criados e como o profissional de comunicação está se adaptando ao novo mercado?

MC – Como disse acima, o telejornalismo online e o jornalismo móvel são novos meios que vêm ganhando cada vez mais adeptos. O profissional de comunicação, se quiser entrar nesse mercado, tem que ficar muito antenado no que está surgindo. No campo de jornalismo móvel, por exemplo, muito se fala em conteúdo granular, ou seja, as notícias são (ou deveriam ser) cuidadosamente tratadas, adaptadas, transformadas em grãos para que o usuário de telefone celular consiga se informar sem ter que ler um texto gigante em seu dispositivo. Cursos de extensão podem ser uma boa para quem quer fazer um ?upgrade? profissional.

Estudantes – Quais os pontos negativos e positivos da profissão jornalista, especificamente na área de internet?

MC – Não só no mercado jornalístico online, como também nos outros, temos como ponto negativo a dificuldade de se empregar hoje em dia. Não existem mais tantas empresas que dão aquela segurança e conforto financeiro de anos atrás. Como pontos positivos, trabalhar na Web é prazeroso por ser um veículo que está em evidência e que exige muito do seu conhecimento profissional (isso é bom!). Quem trabalha com jornalismo na Web hoje, não deixa de estar ajudando a escrever a história deste meio como veículo noticioso.

Estudantes – Você considera a redação da Web mais movimentada que a redação das outras mídias?

MC – Não vejo diferença. A Web tornou o cenário jornalístico mais ágil. Hoje em dia, qualquer redação, seja online, impressa, radiofônica ou televisiva, utiliza a internet. Acredito que o ritmo seja o mesmo em qualquer uma delas. As redações estão mais dinâmicas."

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