Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES >   SBT

Cristina Padiglione e Keila Jimenez

Por lgarcia em 11/12/2002 na edição 202

ESPERANÇA

“A Última Esperança”, copyright O Estado de S. Paulo, 8/12/2002

“A crise enfrentada pela Globo na novela das 8 (ou das 9, quando de fato vai ao ar) chegou ao ápice no início da semana passada, com a mudança urgente de mãos: o autor Benedito Ruy Barbosa licenciou-se da função por problemas pessoais. Cedendo à pressão imposta pelo ritmo industrial da emissora, abriu mão de escrever sozinho e passou o bastão a Walcyr Carrasco. O novo autor tem a missão de regularizar a entrega de textos à Produção, a fim de sanar todos os problemas causados pelo atraso na conclusão dos capítulos escritos.

Faz pelo menos três meses que as gravações se arrastam em função da demora na entrega de capítulos. Cenas são feitas na véspera ou no mesmo dia em que vão ao ar. Atores ficam à disposição do expediente, sem chance de agendarem outros compromissos ? para ter um período de folga, Raul Cortez teve de ?embarcar? seu personagem, Genaro, para a Itália.

É esperado que Ruy Barbosa reassuma o barco antes que a novela chegue ao fim, mas não há previsão para tanto. ?Vou cuidar da minha saúde, que entrei num estresse sem-fim, e da minha mãe, que está no Incor?, conta o titular. Fiel à tarefa de escrever sozinho, sempre, sem admitir interferência externa, Ruy conta que não fez maiores recomendações a Carrasco sobre o destino dos personagens. ?Ele acompanha a história, sabe como as coisas vão se desenrolar, e o Luiz Fernando (Carvalho, diretor de Núcleo de Esperança) está junto?, fala.

Edmara, filha do autor, também assina como colaboradora, mas Ruy diz que ela tem feito companhia para a avó no hospital.

O atraso resultou na necessidade de flashbacks constantes e a história mergulhou na chamada ?barriga? ? jargão para designar que nada acontece na trama. E a audiência despencou. Esperança passou bem até pelo teste do horário eleitoral, um adversário óbvio para a faixa nobre da TV: apesar dos quase 20% que desligavam a TV durante a propaganda gratuita, a novela chegou a resistir, alcançando até 45 pontos. Agora, acumuladas as conseqüências pelo atraso do texto, a audiência na Grande São Paulo chegou a 35 pontos ? cada ponto representa 47,5 mil domicílios na região.

?O convite para assumir a novela partiu da direção da Globo, não do Benedito, mas eu fiquei muito feliz?, conta Carrasco. ?Ele é um dos autores que mais admiro e farei de tudo para respeitar a trama, que é muito boa. Mesmo assim, sei que cada autor acaba colocando algo de si na novela.?

Convidado às pressas, Carrasco não estabeleceu meta de capítulos para adiantar à Globo e não sabe ainda se os atores terão folga nas festas de Natal e ano novo. ?Não sei até quando vou ficar. Espero que o Benedito possa reassumir a novela assim que estiver recuperado dos problemas que está enfrentando.?

Análise ? Para Maria Immacolata Vassalo de Lopes, professora da Escola de Comunicação e Artes (Eca-USP), que desenvolveu um estudo sobre a boa recepção que Terra Nostra teve na Itália, o problema não pode ser atribuído unicamente a Benedito Ruy Barbosa. Toda análise deve levar em conta o trabalho autoral: escritor e diretor, no caso, Luiz Fernando Carvalho.

?Não são coisas separadas. A questão do ritmo, das características da produção entraram em crise por causa da postura do Benedito, de escrever sozinho. Mas é preciso considerar a dupla autor-diretor?, diz Immacolata. ?O Luiz Fernando já tinha feito um trabalho em Os Maias que ficou carregado para a TV. Acho que ele repetiu isso agora. A novela ficou um pouco pesada?.

A professora concorda que isso interfere no enredo, que a imprensa italiana, segundo ela, considerou ?fraco?, sem a densidade de muitas histórias se entrelaçando. Nós percebemos aqui um enredo frágil. ?E os atores? Aquele ator, o Otávio Augusto, é muito bom, mas não há texto para ele. Não tem um enredo, uma trama, um mistério. Há lacunas que o autor parece que tinha idéias de desenvolver e acabou não realizando?.

Vale lembrar que a expectativa em torno de uma novela de Benedito Ruy Barbosa, dirigida por Luiz Fernando Carvalho, e estrelada por Ana Paula Arósio e Raul Cortez, que estavam em Terra Nostra, é grande. O problema é que Esperança parece com Terra Nostra, mas não é Terra Nostra, não tem o mesmo vigor. O romance principal, de Toni e Maria, não empolga. A paixão entre o rico Maurício e a plebéia Caterina terminou com ele ficando louco ? ou reencarnando o espírito do pai ? e com ela nos braços do peão Zequinha (Marcos Palmeira). Maria, que herdou a fortuna do marido, não mexeu em um centavo e continua vivendo na pensão. Bastou Francisca, que era durona, cruel, saber que o marido a traíra, para virar uma mulher frágil e apaixonada. E os italianos da fazenda, que não trabalham e só bebem vinho? São várias as pendengas que Carrasco terá de resolver.

Imprensa especializada ? A novela das 8, que tradicionalmente é o programa mais visto da TV em todo o País, sustenta uma indústria à parte, dentro e fora da tela. Recheio entre o Jornal Nacional e a linha de shows, o folhetim do horário contamina o ibope dos produtos que vêm antes e depois.

Nas bancas de revistas, os acontecimentos dos próximos capítulos pautam publicações semanais que, ao se abastecerem do tema, acabam abastecendo também a audiência do produto. O mau desempenho de um contagia o do outro.

Há mais de 25 anos comandando revistas que têm a novela como principal assunto, Décio Piccinini, diretor de Redação da Ti-Ti-Ti, conta que já viu problemas de atraso em produções passadas, ?mas nunca nesta proporção atual?.

?Nos dois últimos meses, fizemos duas capas de assunto geral (como o novo clipe do Daniel, por exemplo), que venderam bem mais do que as capas sobre Esperança?, conta Piccinini. Para adiantar o que vai acontecer nos próximos capítulos, a revista tem recorrido a fontes nos bastidores da novela.

?Mesmo quando a Janete (Clair) morreu, no meio de Eu Prometo (1983), logo a Glória Perez assumiu e conseguiu uma frente de capítulos razoável?, lembra o jornalista.

A chegada de Carrasco é uma esperança também para Manoel Carlos, autor escalado para escrever a próxima novela do horário, Mulheres Apaixonadas. Manoel gostaria de estrear apenas em 10 de março, mas a emissora ainda trabalha com a previsão de 17 de fevereiro, sem a certeza de que haverá fôlego para segurar o atual folhetim por muito mais tempo no ar.

Novela também vai mal no mercado internacional

A crise de Esperança se refletiu também no exterior, onde vem decepcionando a audiência. Além da fragilidade do enredo, a novela foi produzida no embalo do sucesso de Terra Nostra, responsável pela renovação no nível de exportação da Globo para alguns países. Na Itália, a expectativa tanto pedia uma continuação da primeira novela (também de Benedito Ruy Barbosa) que Esperança foi batizada como Terra Nostra 2 na Rette 4, mesmo canal que exibiu a primeira.

Logo se viu que uma história nada tinha a ver com outra. Se Terra Nostra chegou a ser vista por quase 4,5 milhões de italianos, Esperança não passou dos 3 milhões. ?Há a decepção de não ser uma continuação da outra história?, conta a professora Maria Immacolata, da USP, que realizou um estudo sobre Terra Nostra na Itália. ?A imprensa italiana falou da falta de carisma do elenco e da história, que deixava a desejar, que não era intensa como Terra Nostra?, completa.

A emissora local, Rette 4, que pagou cerca de US$ 4 milhões pela trama, viu o share (porcentual de audiência no universo de televisores ligados) cair de 8,4% para 4% em menos de um mês de exibição.

Em Portugal, a carreira de Esperança não é melhor. O folhetim, que estreou lá em setembro, transmitido pelo canal SIC, tem alcançado 30% de share, número bem abaixo dos méritos de Terra Nostra, que chegava a registrar lá 76% de share.”

 

REGIONALIZAÇÃO / TV

“Cultura regional deve ganhar mais espaço na TV”, copyright O Estado de S. Paulo, 5/12/2002

“A regionalização da TV brasileira está em debate. A discussão – que não deixa de ser polêmica – foi desencadeada pelo projeto de lei, defendido atualmente pela deputada federal Jandira Feghali (PC do B/Rio), que busca regulamentar um princípio já existente na Constituição Federal. Desde 1988, o inciso III, do artigo 221 da Constituição, já prevê essa regionalização da programação cultural, artística e jornalística das emissoras de rádio e TV, que, muitas vezes, é ignorada.

Formulado em 1991, o projeto de lei, inicialmente, obrigaria as emissoras a exibir em sua programação diária, das 7 às 23 horas, pelo menos 30% de programas culturais, artísticos e jornalísticos totalmente produzidos no local de sua sede. Mas o relatório original acabou passando por modificações. Entre terça-feira e ontem, representantes de grandes emissoras e de TVs regionais, cineastas (representados por Tizuka Yamasaki, Geraldo Moraes e João Batista de Andrade), entre outras entidades, se debruçaram sobre o projeto, a portas fechadas, no gabinete da deputada em Brasília, e assinalaram alterações.

Com nova versão, as emissoras ficariam obrigadas a reservar de 10% a 20% de sua programação diária para produções regionais (mas a meta é atingir os 30% em três anos). Dessa porcentagem, 40% estaria voltada para a produção independente, das quais 40% são destinadas à produção audiovisual. ?É o setor mais organizado e que expandiu nos últimos anos?, defende o cineasta João Batista de Andrade. ?E desses 40% do audiovisual, 5% poderá ser ocupado por publicidade local.? Além disso, os canais teriam de exibir um longa-metragem nacional toda semana.

Por conta das complementações, a vota&ccccedil;ão do projeto de lei no Congresso saiu da pauta de ontem. Uma nova reunião está marcada para terça-feira, às 15 horas, quando será definido o relatório final. O projeto deve voltar à pauta ainda este ano. Independentemente de sua aprovação ou não, o projeto de lei já abriu precedentes para manifestações de apoio incondicional ou de total repúdio. A presidente da Congresso Brasileiro de Cinema, Assunção Hernandes, representando a classe do audiovisual, encabeça a ala dos pró-regionalização da programação televisiva via decreto. Segundo ela, em todo país democrático, as concessões de TV são regidas e controladas por lei. ?Você vê no Brasil emissoras determinando qual presidente vai ser eleito ou não.?

Assunção conta que os profissionais do audiovisual pediram complementação no projeto de lei original, pois este não incluía as produções independentes nas emissoras de rádio e TV. ?No artigo 221 da Constituição, existe um princípio que fala sobre o estímulo a produções independentes, mas também precisa ser regulamentada?, afirma. ?Existe um estudo que comprova que, quando a TV trabalha com produtoras independentes, seu custo reduz pela metade?, diz Assunção. Ela aponta ainda uma abertura no mercado, diante da demanda de profissionais locais. ?Vão surgir novos talentos e as produções ficam mais balanceadas pelo País, não ficam só no eixo Rio-São Paulo?, acredita. ?O profissional pode ficar onde ele nasceu, com melhor qualidade de vida, mas com condições de trabalhar.?

O ator Paulo Betti é outro defensor fervoroso para que a regionalização da TV se torne realidade. Segundo ele, não é possível ignorar a televisão como difusor cultural, já que ?90% de toda e qualquer informação que o brasileiro recebe, cultural ou não, ele recebe pela TV?. ?Todos nós que somos migrantes dentro de nosso próprio País, colonizados por um sotaque só, queremos que alguma coisa se faça no sentido de regionalizar a produção da televisão no Brasil?, afirma Betti. ?Sabemos das dificuldades, mas é uma discussão muito apropriada.?

A autora Maria Adelaide Amaral, que atualmente se dedica à nova minissérie da Globo, A Casa das Sete Mulheres, acha importante, saudável até, que as emissoras abram espaço em sua programação para a ?prata da casa?. ?Fico feliz quando vou para o Rio Grande do Sul e vejo que lá existe uma produção local, uma teledramaturgia local?, comenta. ?Temos língua e cultura nacional, mas temos particularidades regionais. Se você acaba com a cultura, você acaba com o norte da pessoa.?

Enquanto isso, quem faz coro contra a criação do decreto argumenta que as disparidades entre os Estados precisam ser levadas em consideração. Uma afiliada no interior de uma região do Nordeste não tem a mesma infra-estrutura que uma grande emissora paulista, por exemplo. ?Essa lei é um absurdo total, o autor do projeto não tem idéia do que é TV brasileira?, ressalta Luiz Eduardo Borgerth, consultor do SBT. ?Vamos supor que temos 430 geradoras no País, cada uma com seu casting, escritor, aderecista. Já pensou 430 episódios de novelas diferentes no mesmo dia??

O diretor técnico da TV Cultura, José Munhoz, alerta também para as possíveis barreiras, provocadas pelas diferenças regionais, na prática dessa obrigatoriedade. ?Se a emissora apresenta uma estrutura pequena, só para fazer jornalismo, ficará difícil cumprir essa meta de programação num local onde não tem tanta notícia assim.? Conseqüentemente, segundo Munhoz, elas teriam de produzir outros tipos de atração para completar a grade. Para tanto, será necessário um estrutura um pouco maior do que um simples estúdio. Em outras palavras, elas teriam de se adequar à nova realidade, o que envolve custos. ?Será preciso investir em infra-estrutura técnica e operacional.?

Para o autor de novelas Aguinaldo Silva, assunto não pode ser tratado como projeto de lei. ?Primeiro, é preciso saber se as emissoras têm cacife para bancar produções locais; segundo, se as pessoas estão interessadas nesses programas.? O autor acredita que os canais de televisão precisam se voltar mais para a regionalização, mas não por meio de um decreto. ?A iniciativa tem de partir das próprias emissoras.?

Antonio Teles, consultor da presidência da Rede Bandeirantes, acredita que, se o projeto for aprovado, tende a ser uma daquelas leis superficiais que jamais são colocadas em vigor. ?Entra em conflito com a realidade das regiões brasileiras. Uma coisa é você chegar a Joinville e falar sobre programa regional, outra é você chegar a Picos, no Piauí. Existem estações de rádio que não têm funcionários, funcionam com cartucheiras automáticas?, diz. ?Eles não tiveram o trabalho de conhecer as regiões mais pobres do País para ver em que condições se opera emissoras de rádio e televisão.?”

 

SBT

“SBT projeta fechar o ano com crescimento de 22% em publicidade”, copyright Cidade Biz (www.cidadebiz.com.br), 5/12/2002

“O SBT deve fechar o ano com receita publicitária 22% maior do que a de 2001. O crescimento é real, segundo o diretor de novos negócios da emissora, Rodrigo Navarro Marti, e renderá ao canal um salto na participação sobre o bolo publicitário da TV, que era de 12% no início de 2002 e pode fechar o ano próximo a 20%. ?Estamos ganhando participação em cima da Globo, que detinha 65% do bolo e hoje está com 60%?, afirma Marti.

O resultado é positivo, mas, por outro lado, representa meio caminho andado para o SBT, que tem por meta igualar seus índices de audiência e de participação no bolo publicitário. O natural seria que um número acompanhasse o outro. A alcançar 20% do bolo, a participação do SBT ainda ficará defasada em relação à audiência do canal, que é de 25%, segundo o Ibope. No caso da Globo, a fatia do bolo é maior do que o índice de audiência, que é de 50%. É nesta diferença que o SBT está de olho.

A expansão do canal de Silvio Santos, que este ano completou 21 anos, se apoiou em iniciativas diferenciadas, como o projeto comercial que vincula marcas a programas da emissora, no caso do patrocínio da Nestlé ao Show do Milhão, e da redução drástica do preço de tabela, em troca de participação nas vendas do anunciante. A iniciativa este ano pôs na tela da emissora a Vigor, Schering, Velho Barreiro, da Tatuzinho, e os Óleos Maria, da Vida Alimentos, que há tempos estavam fora da mídia.

Para o ano que vem, o SBT tem na manga parcerias como a da Nestlé, que investiu R$ 60 milhões no projeto de marketing para atingir o povão. Como as negociações ainda estão em andamento, o executivo não revelou nomes de anunciantes, que terão seus produtos associados a outras atrações do canal. O SBT também continuirá com as propostas comerciais que prevêem participação nas vendas de clientes.

O canal também tece uma parceria com 18 telefônicas, entre elas a Tess, Telecom America, Telefônica Celular, Telesp, TIM e Oi. Além de canal para a interação do público com programas da emissora, as operadoras serão veículo para o jogo do Show do Milhão em versão SMS – mensagem curta de celular, na sigla em inglês. Para jogar, o usuário terá de discar para um número determinado e solicitar uma pergunta. Os pontos conquistados poderão ser trocados por prêmios e minutos de conversa grátis.

Outra receita aguardada pela emissora é a das vendas da Enciclopédia Show do Milhão, apresentada ao mercado nesta quinta-feira. Com preço acessível para atingir o grande público, a enciclopédia deve ter 40.000 unidades comercializadas em um ano, estimou Marti. O que resultará num faturamento de cerca de R$ 24 milhões para o SBT, Klick Editora e Delta, as três empresas envolvidas no projeto. O 14 volumes da enciclopédia podem ser comprados à vista por R$ 540, ou em 12 parcelas promocionais de R$ 59. A promoção acaba em janeiro. A partir de fevereiro, as parcelas sobem a R$ 69.”

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