Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > CASO BENEDITA DA SILVA

Crueldade do governo e confusão na mídia

Por lgarcia em 28/10/2003 na edição 248

CASO BENEDITA DA SILVA

José Antonio Palhano (*)

O enorme e alienante equívoco vem embalado na profusão de queixumes contra o que se supõe exagero da mídia em repercutir as estripulias viajoras da ministra Benedita da Silva. O que (quase) ninguém quer ver é que governo nenhum pode se dar ao luxo de fingir que criou um ministério apenas para arrefecer o rescaldo das suas derrotas eleitorais. Deu nisso: a infeliz da titular, por conseguinte caricata feito o pretexto que a levou à Corte, foi impiedosamente pendurada no pelourinho desde a sua, digamos, posse.

Não esquecer que o suplício de Bené, patrocinado exatamente pelo seu PT, vem de muito antes. Desde os primórdios, coube a ela o papel de churrasco no altar de sacrifícios a partir do qual o partido do presidente da República promove suas muitas e, no mais das vezes, espetacularmente perdedoras barganhas no teatro da política fluminense.

Dessa forma, Bené foi apenas transferida de uma churrasqueira, litorânea, para outra, mediterrânea. Com a mudança, naturalmente ficou mais exposta. Por pura e inaudita crueldade dos companheiros brancos e mais bem colocados na hierarquia, virou o saco de pancada da hora. E nem poderia ser diferente. É de uma apavorante irresponsabilidade essa manobra de tentar dar consistência ao ministério reduzindo Bené (e sua biografia) a um mísero bibelô étnico de primeiro escalão. Se ela ora apanha feito cachorro magro ? e bichado pela leishmaniose visceral, que avança feito peste pelo Centro-Oeste, como a simbolizar e repercutir os últimos feitos oficiais na saúde pública ? a culpa é exclusivamente do governo Lula. Despache-se Bené para seu Chapéu da Mangueira e ela lamberá suas feridas, se redimirá dos seus pecados e recuperará sua dignidade.

Mas seu calvário, pelo visto, deixa também um rastro de seqüelas, independentemente de ser ou não despachada. A mais grave delas incrustada no discurso segundo o qual é preciso ser benevolente e compreensivo com seus erros. Gente do naipe de Márcio Moreira Alves, Carlos Heitor Cony, Gilberto Dimenstein e outros considera que as críticas a Bené não passam de racismo mal-disfarçado e/ou intolerância religiosa.

Convenhamos, isto é tão inconsistente quanto o ministério da própria. Melhor, puro e escancarado pré-julgamento. Bené, afinal, errou. E é reincidente de carteirinha. Ao ser questionada pelo fato de içar os dois filhos a uma sinecura pública, aos tempos em que era governadora, respondeu candidamente, como se branca e bem-nascida fora como um ACM, um Sarney ou um Jader, que desconhecia o fato. Bené, assim, mostrava-se rápida e admiravelmente adaptada à política.

Em praça pública

Mais: suas contas não foram aprovadas pelo Tribunal de Contas. Mais ainda: para se livrar do vergonhoso parecer, fez um espúrio e nojento acordo com a arquiinimiga Rosinha Garotinho. Não coincidentemente, à sua imagem e semelhança posta em Palácio em manobra eivada da mais debochada safadeza. A primeira se prestou a enfeitar, etiquetada com a reza do negra-mulher-e-favelada o governo que se delicia em flambá-la em madeira do cerrado; a segunda, a saciar as gulas de poder do marido, outra caricatura política (porém bem mais esperta) tão passivamente aceita por muita gente boa que chama de racistas os que ousam dizer do fracasso e dos erros de Benedita da Silva.

Assim fica fácil. E, parece ser um cacoete inconsciente, politicamente correto. Bené apronta das suas e quem se mete a criticá-la é apologista da discriminação racial. Tudo a ver com nosso secular paternalismo, nossa sempiterna benevolência e nossa congênita hipocrisia. Bené, pelo seu passado, só merece que lhe passem a mão sobre a cabeça. Como uma contrapartida aos expedientes das suas antepassadas da senzala, escaladas para fazer cafuné dia e noite nas madames da casa-grande.

A vingar essa coisa, não basta criar as tais cotas universitárias para negros. Urge providenciar barreiras diferenciadas de tolerância para os que logrem subir na vida pública. Seria de bom-tom uma certa frouxidão em fiscalizar-lhes os passos.

Um rasguinho só de bom senso não faria mal a ninguém. Bené desceu o morro, coberta de glórias? Então, se está na chuva é para se molhar. Derrapou feio? Um pena. O fato de o governo a que pertence tanto se extasiar em assá-la em praça pública, sobre ser assombroso, de forma alguma a absolve. O resto é conversa fiada. Ou uma tola e dispensável tentativa de turbinar seu sofrimento tatuando-a de coitadinha. Quem já saiu da condição de mulher, negra e favelada dispensa o epíteto. Apesar do PT de Lula.

(*) Jornalista e médico

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