Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > c)

Cuba e a patrulha macartista

Por lgarcia em 07/05/2003 na edição 223

LEITURAS DE VEJA

Cristhian S. Camilo (*)

A edição de Veja de 7 de maio de 2003 (n? 1.801) traz uma, por assim dizer, reportagem sobre as reações da classe intelectual e artística mundial à execução de três cubanos pelo regime de Fidel Castro. O texto, extrapolando sua função informativa, faz analogias e comparações infundadas e ilógicas, inclusive com ataques mal-dissimulados a personalidades brasileiras.

O jornalista Mário Sabino inicia sua matéria afirmando que há três motivos para a complacência com o regime cubano:


"Antes de mais nada, o antiamericanismo puro e simples, um fenômeno de idiotia generalizada que faz muita gente boa acreditar que George W. Bush é igual a Adolf Hitler, e que Osama bin Laden é o vingador dos pobres e oprimidos. Em segundo lugar, a nostalgia esquerdista que insiste em reerguer em sonho o Muro de Berlim. E, por último, mas não menos importante, o próprio fascínio exercido pela figura de Fidel Castro ? uma espécie de paizão castrador que habita o inconsciente dos coraçõezinhos comunistas."


Esbanjando preconceito, o jornalista tacha como idiota qualquer pessoa que seja simpática ao antiamericanismo. Ao mesmo tempo, cita como objetivo da esquerda o reerguimento do Muro de Berlim. E, finalmente, tenta exibir veia irônica, ao apontar a figura paternal de Fidel para o que a matéria chama de "coraçõezinhos comunistas".

Não pára por aí. Mais adiante, o jornalista insinua de forma grosseira a simpatia de Frei Betto, assessor especial do governo brasileiro, pelo regime que matou mais de 18 mil cubanos, assim como acusa veladamente Chico Buarque, autor de letras e textos contrários à ditadura militar brasileira, de acreditar que a ditadura cubana seja aceitável.

O texto, longe de cumprir sua função noticiosa, estrutura-se sobre uma base de ataques imotivados e gratuitos a figuras de destaque ou simpatizantes da esquerda, como o filósofo Norberto Bobbio.

A matéria de Veja, seja no conteúdo ou na forma de sua redação, parece ter o objetivo não de informar, mas de exercer patrulhamento ideológico típico do macartismo estadunidense. Senão, vejamos:

a) Quantos simpatizantes esquerdistas o jornalista deve ter entrevistado, para apresentar com tanta veemência a afirmação sobre o sonho de redivisão do mundo em um bloco socialista e um capitalista?

b) Por que não se motivou o repórter a perguntar a Chico Buarque sua opinião sobre os recentes acontecimentos em Cuba, em vez de presumir posição favorável do compositor a Fidel?

c) Cita o antiamericanismo como um movimento tolo, formado por idiotas que não teriam motivo para insurgir-se contra a propagação forçada dos EUA de suas opiniões, sem mencionar as atitudes unilaterais desse país, como a rejeição ao Protocolo de Kioto, ou a invasão do Iraque baseada em falsas afirmações.

Postura freqüente

O texto "jornalístico" difundido pelo semanário carece de fundamento, pesquisa e, mesmo, boa educação, ao atacar, com insinuações indelicadas, personalidades diversas sem ouvir-lhes a opinião.

Não se dá conta o jornalista de que sua matéria, mal-elaborada e mal-redigida, atingirá milhares de pessoas, que, equivocadamente, poderão ler o texto como algo autêntico e verdadeiro. O jornalista, portanto, utiliza-se, no caso, do alcance da revista para propagar suas verdades pessoais e seus preconceitos, não se importando, aparentemente, com a necessidade de bem-informar e até questionar, por que não, a simpatia de celebridades brasileiras ao regime castrista, ou a reação inicial brasileira às execuções, feita de forma tímida, em minha opinião, com medo de melindrar o "companheiro" Fidel.

A postura do repórter, enfim, foi a de, partindo de um ato de Fidel, atacar genericamente todos os que ele, jornalista, indica genericamente como esquerdistas, "idiotas" e "simpatizantes do totalitarismo". Postura essa, infelizmente, freqüentemente veiculada em diversas publicações de mídia, especialmente em Veja, em diversas ocasiões. Até quando?

(*) Estudante de História da Universidade de Brasília

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