Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > OFJOR CIÊNCIA 98

Cuidado, ele está vindo sobre nós!!!

Por lgarcia em 05/07/1998 na edição 48


Antônio Fernando Beraldo


“Nós, gauleses, só temos um medo:

de que o céu caia sobre nossas cabeças.”
Asterix
, do Goscinni e Uderzo

 

Amarcord: nos tempos da Guerra Fria e da corrida espacial, nuclear e, principalmente, armamentista, sempre havia aquelas fotografias maravilhosas de astronautas passeando no espaço, sobre o fundo negro do cosmo e a Terra azul e branca. No entorno, reportagens faiscando números sobre os foguetes e as então chamadas “cápsulas espaciais”, com trajetórias calculadas por “cérebros eletrônicos”. Aqui em baixo, a Guerra do Vietnã e os caças americanos e russos, os mísseis nos silos escondidos no deserto americano, a pílula, as operações plásticas, o DNA, e Bob Dylan cantando A Hard Rain Is Gonna Fall, e eu colecionava páginas e mais páginas da Manchete com o registro de tudo isso. Fotos do “homem no espaço” eram coloridas, as do Vietnã eram em preto e branco. Meu pai me deu um rádio de galena que era um espanto, eu conseguia “pegar” a BBC e aquele noticiário da ABC, como é que chamava? Seven O?Clock News, acho que era assim, entendia metade do que os locutores diziam, mas tudo bem. Não desgrudava da Associação Cultural Brasil-EEUU, atrás de números atrasados da Time e da Life, e já perturbava a paciência do pessoal do Goethe Institut, fingindo aprender alemão e dilacerando a Scala. Tudo e todas tinham em comum o grande número de páginas que dedicavam aos avanços da tecnologia, da ciência do brave new world, que era a estrela, pelo menos pra mim e para meus amigos. Mais crescido, e mais metido a besta, cheguei a colecionar alguns números da Scientific American, mas aí explodiu a Informática em nossas vidas, e havia muito para aprender.

E hoje, perto da virada do milênio, a tecnologia conquista a golpes de deslumbramento o seu espaço, junto aos tradicionais temas do jornalismo (política, esportes, o noticiário policial, economia, fofocas sobre a sociedade e os artistas). Palavras como genoma, clonagem, príons, já se incrustaram em nossas vidas e começam a rechear as páginas internas dos jornais, virando manchete quando alguma descoberta espetacular acontece. Geralmente são artigos traduzidos de revistas estrangeiras, informes extraídos de house organs ou papers publicados nas revistas especializadas. Na TV, cada vez mais freqüentes são os documentários….

No Brasil, país em que, é preciso lembrar, uma em cada cinco pessoas é analfabeta, existe uma crescente parcela da população com um elevado grau de cultura técnica que consome estas notícias. Pegue uma revista como Super Interessante, ou Globo Ciência, e vá até a seção de cartas dos leitores. Leia o que eles dizem, e são meninos (e meninas), adolescentes ao lado de marmanjos, escrevendo com a maior naturalidade e autoridade sobre coisas como Mecânica Quântica, cadeias de DNA, biodiversidade, inteligência artificial. Estão no outro extremo da escolaridade do país, são os que compram livros, estudam ou estudaram em universidades, e são provenientes de ambientes sociais e familiares que favorecem este tipo de cultura. São muito exigentes, atentos a erros, e fazem absoluta questão da atualização de informações.

Demanda, existe. Oferta…

Existe uma outra parte da população, bem mais numerosa, que consome produtos culturais e científicos com um misto de curiosidade e de desejo de “ascensão cultural”. São os que colecionam fascículos de enciclopédias, lêem sobre História, Geografia ou Biologia em jornais e revistas, e não perdem um Globo Repórter com temas científicos. São pessoas que alugam vídeos sobre a “vida animal”, não perderam um episódio de Cosmos (do astrônomo americano Carl Sagan, um imenso sucesso no mundo inteiro), leram O Mundo de Sofia (e gostaram). Para estes, a literatura científica deve ser mais leve, sem ranços acadêmicos nem hermetismos. Deve ser atraente e didática, com matérias recheadas de imagens e gráficos.

Será que a mídia não-específica está contentando esta demanda? Acho que não. Ainda é muito pouco, os “jornalões” publicam cerca de meia página diariamente, alguns nem isso. Nos fins de semana, o espaço aumenta, às vezes acontece um caderno especial quando um assunto está em evidência. A mídia vive do atual e do sensacional, e a ciência nem sempre é espetacular, nem sempre “dá notícia”.

As ciências têm o seu ritmo, seu jeito e seu rigor, e as pessoas comuns não estão interessadas na demonstração do teorema de Fermat ou nas provas do Big Bang. As pessoas comuns estão interessadas, e muito, no que lhes é mais próximo, como o El Niño ou ovelhas clonadas. Temas como seres extraterrestres ou coquetéis de remédios contra a AIDS estão sendo mal explorados, tratados com a mesma linguagem utilizada para comentar resultados do futebol ou a solução de um caso policial.

Nova Idade de Ouro da ciência

A mídia deveria saber que estes fatos são, por si só, espetaculares, e não carecem de superlativos. A mídia tem que se preparar para a nova Idade de Ouro da ciência, que já se instalou neste fim de século. Se o nosso tempo começou com a Física, a Química e a Matemática dando saltos, por conta das guerras, a guerra hoje é outra, as batalhas sendo travadas nos centros de pesquisa e nos laboratórios dos países desenvolvidos.

A Medicina já cura vários tipos de câncer, prolonga e melhora a vida (e, agora, a potência masculina). Visitamos Marte, temos estações orbitais, novos materiais, novas tecnologias de construção e destruição. A mídia deveria saber que a ciência mudou, e a visão segmentada que tínhamos tornou-se obsoleta: agora, tudo interage e se interpenetra, temos Físico-Química, Bioquímica, Descartes está morto, e holismo e interdisciplinaridade são as palavras.

A mídia insiste em impor seu tom, tratar a divulgação de uma descoberta científica como se fosse um “furo” jornalístico. Em seu afobamento, já que seu timing não coincide com o tempo da Ciência, vai entre trombadas e trancos, vai-se.

Gibi de uma página só

Recentemente, ocorreu um caso que é um bom exemplo do comportamento da mídia em relação a um tema espetacular: o fim do mundo. Olhe só:

O caso do asteróide desgovernado No dia 11 de março, a notícia se alastrou pela Internet e pelas principais redes de notícias dos Estados Unidos e da Europa: um asteróide, chamado XF11 iria se chocar – ou passar perigosamente perto da Terra -, e neste choque a raça humana iria virar paçoca, tal como aconteceu com os dinossauros, há 65 milhões de anos atrás. A notícia correu, nervosa, pelos canais competentes (ou não), causando reações de pânico, de incredulidade ou de desajeitada bravura por parte dos terráqueos, ante tão grande ameaça: afinal, a “coisa” bateria na gente às 13:30 da tarde do dia 26 de outubro do longínquo ano de 2028 e, até lá, já teríamos avanço tecnológico suficiente para mandar um John Wayne intergalático, montado em uma nave espacial armada de poderosos canhões de super-neutrinos, que iriam lançar a pedra do apocalipse nas profundas do cosmos… e a Terra respiraria aliviada, braços abertos para receber de volta seu herói. Infelizmente, nosso gibi termina aqui, logo na segunda página.

No dia seguinte, um tal de Donald Yeomans, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, estragou a festa da mídia, corrigindo a notícia anterior: refeitos os cálculos, o asteróide vai passar a mais de 900 mil quilômetros da Terra. Frustração na Caverna dos Super-Heróis, anticlímax para os internautas e para os consumidores do noticiário da NBC e CNN. Mas ajudou bastante a promover um filme chamado Impacto Profundo. Afinal, o asteróide, real, dá medo: é uma pedra de quase 2 km de tamanho, que orbita em torno do Sol a uma velocidade de quase 8 km por segundo (ou seja, faz do Rio a Sampa em menos de um minuto). Se batesse na gente, liberaria uma energia igual a 2 milhões de bombas atômicas, abrindo na Terra uma cratera de 32 km de diâmetro (duas vezes a área de Curitiba, PR) e causando um incêndio numa área 10 vezes a Grande São Paulo. Se caísse no mar, a seqüência de tsunamis (ondas gigantes) inundaria todos os países em poucos dias, afogando todo mundo que mora ao nível do mar. Se caísse num dos pólos, o estrago seria incalculável. E o pior é que 26 de outubro de 2028 cai numa quinta-feira, ou seja, lá se vai o fim-de-semana… em compensação, o fim-de-semana anterior ia ser uma farra sensacional, desde que os bares aceitassem cheques pré-datados.

Agora, falando sério, é no mínimo uma irresponsabilidade o sensacionalismo que se fez. Confira o press release que foi distribuído, <http://www.hq.nasa.gov/office/oss/announce/asteroid2028.html>, e o desmentido, no dia seguinte, <http://pluto.harvard.edu/iau/pressinfo/1997XF11.html>.

E, se você ainda deseja dar uma nova missão para o Super Homem, saiba que existem 108 corpos celestes com trajetórias ameaçadoramente próximas do nosso planeta. Qualquer um deles pode muito bem virar notícia. Fique preocupado!

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