Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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Curativos históricos

Por Victor Gentilli em 05/07/1997 na edição 25

A polêmica levantada pelo filme “O que é isto, companheiro?” evidenciou claramente que o período denominado “anos de chumbo” ainda não foi de todo estudado, compreendido e examinado pela imprensa. Muito se falou e se debateu sobre o filme. De um modo geral, o debate foi rico e esclarecedor.

Uma releitura atenta do livro de Fernando Gabeira, editado em 1979, dez anos depois do seqüestro e há 18 anos, produziria uma pauta que ninguém fez. Eis abaixo uma relação de questões não tratadas pela imprensa.

– Gabeira, em momento algum do livro afirma que fora ele o autor do manifesto lido nas rádios e publicado nos jornais. Quem o faz é Ziraldo, na apresentação da orelha do livro. Possivelmente Ziraldo tinha como referência a entrevista de Gabeira ao Pasquim. De todo modo, o fato de Gabeira não explicitar a autoria de Franklin Martins, na época, por razões de segurança não eram de todo injustificáveis.

– Gabeira afirma no livro que o seqüestro era do conhecimento e fora autorizado por Carlos Marighela, líder da ALN. Hoje se sabe que Marighela desconhecia o seqüestro e correu riscos desnecessários no Rio pelo aumento da repressão.

– No livro, Gabeira cita o comandante militar do seqüestro, Virgílio Gomes da Silva, codinome Jonas, apenas uma vez num pequeno comentário tratando de sua morte. Aqueles que criticaram o diretor do filme por apresentar uma imagem de Jonas desumanizada tiveram 18 anos para dirigir as críticas ao próprio Gabeira. É possível até que o tenham feito. Mas tal debate não foi recuperado pela imprensa.

– No livro, Gabeira faz uma referência ao fato de que alguém deixara de constar da lista de 15 prisioneiros porque Toledo (Joaquim Câmara Ferreira) conhecia apenas pelo codinome. Alguns registros posteriores do episódio mostram que na lista havia um prisioneiro apresentado como Shu Shu. Os guerrilheiros conheciam apenas o codinome Xuxu, mas para não depreciá-lo fizeram a apresentação do nome diferente para que a opinião pública pensasse que fosse um perigoso oriental. Estávamos no auge da guerra do Vietnã.

– No livro, o seqüestro é apenas um capítulo, e ocupa um espaço bem menor do que aquele dedicado ao debate sobre a tortura. A humanização do torturador não era explícita no livro, mas pelas condições da época, já bastante insinuadas.

– O filme deixou de fora um dos momentos mais thriller do livro. É quando os seqüestradores já tem quase certeza absoluta de que a casa tinha sido descoberta. Gabeira continua entrando e saindo da casa à vontade, e conta, no livro, um diálogo sobre a sua suposta prisão. Estava implícito que a lista de prisioneiros a serem libertados imediatamente subiria de 15 para 16 nomes.

Contextualizar o seqüestro (1969), o livro (1979) e o filme (1997) seria indispensável para auxiliar uma compreensão melhor das épocas analisadas.

O debate propiciado pela imprensa pareceu mostrar que esta geração ignorou não apenas as gerações que a precederam, como também as que a sucederam.

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