Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA & GOVERNO

Da nota-veneno ao bom jornalismo

Por lgarcia em 28/10/2003 na edição 248

MÍDIA & GOVERNO

Chico Bruno (*)

Sábado, 25 de outubro, Folha de S.Paulo, coluna da Mônica Bergamo, nota Rosa Chique:


"Os membros da IS, que se reúnem em SP na próxima semana, escolheram alguns dos melhores e mais caros hotéis para se hospedar. Só no Grand Hyatt vão ficar 200 pessoas, em apartamentos cuja diária custa R$ 500. O Emiliano vai pagar um coquetel oferecido por Marta Suplicy".


Uma despretensiosa nota informando que políticos da Internacional Socialista, que se reuniu segunda-feira em São Paulo, ficariam hospedados em luxuosos hotéis paulistanos. Até aí nada demais, a colunista apenas mostrava aos leitores que socialistas também curtem o melhor. O demais estava na última frase da nota, totalmente fora do contexto, afirmando que a prefeita paulistana Marta Suplicy ofereceria coquetel aos ilustres visitantes a ser pago pelo Hotel Emiliano, um dos mais sofisticados de Sampa.

A frase, ao destoar do teor da nota deixou, no ar várias interrogações. Por que cargas d?água aquela frase telegráfica, sem nenhuma informação plausível que completasse a notícia? Por que o hotel bancaria um coquetel oferecido pela prefeita aos socialistas visitantes? Qual a intenção da jornalista?

Explicações à imprensa

Várias podem ser as respostas. A mais factível é que a colunista estaria apenas levantando a bola para alguém chutar, principalmente num momento de fragilidade do governo federal, às voltas para explicar a série de pecados cometidos pelo primeiro escalão (ministros Agnelo Queiroz, Benedita da Silva, Anderson Adauto e secretário nacional de Segurança Pública, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, que se demitiu).

Esse é um hábito comum na imprensa brasileira: colunistas deixam no ar informações venenosas. São denúncias que devem ser desdobradas pelas redações, com riqueza de detalhes em palpitantes matérias. Os exemplos são inúmeros. Os leitores do OI devem conhecê-los. Afinal, o que levaria o Hotel Emiliano a assumir o pagamento de uma fatura que caberia à prefeita Marta Suplicy pagar?

Chamaram atenção, também, duas matérias da revista Veja desta semana, que retomam assuntos relacionados à campanha eleitoral de 2002: entrevista do publicitário Duda Mendonça, nas páginas amarelas, concedida ao jornalista Lauro Jardim, com o título "Se sou problema, adeus", na qual o publicitário se diz magoado e desconfortável com o noticiário recente sobre seu papel no governo e suas empresas. Na entrevista, Duda Mendonça afirma a certa altura: "Tudo o que você tem de explicar muito não vale a pena. Gosto de criar, e não de ficar dando explicações à imprensa todo dia".

Ética e responsabilidade

Ele possivelmente tem razão quanto à primeira frase. Ao completá-la, incorre em erro comum às personalidades públicas, e ele queira ou não tornou-se uma delas. Portanto, suas atividades profissionais devem ser acompanhadas pela mídia com acuidade. Incorreto é creditar ao jornalista Ricardo Kotscho, assessor de imprensa do presidente Lula, conselhos publicitários dados à primeira-dama Marisa da Silva que, segundo a mídia, são de sua lavra.

A outra matéria da Veja é nitroglicerina pura. O jornalista Policarpo Junior assina reportagem com o título "Paz, amor e guerra", na qual revela a existência de uma tropa de choque que atuou nos bastidores da campanha presidencial de Lula com o objetivo de defender o candidato e atacar os adversários a qualquer custo e expedientes. Um belo trabalho jornalístico, fruto de muitos dias de apuração, de entrevistas e checagem de informações. Matéria que deveria ganhar suíte nos demais veículos de imprensa, pelo seu teor apimentado ? a reportagem denuncia ações ilegais, como a violação do cofre da sede paulista do Banco do Brasil, e envolve personalidades, como o ministro da Previdência Ricardo Berzoini, o senador Antônio Carlos Magalhães e o procurador da República Luiz Francisco de Souza.

A reportagem de Policarpo Junior deve gerar desconforto entre os envolvidos, felizmente trazidos à tona de maneira correta, respeitados os padrões de ética e responsabilidade do jornalismo. Ao que parece, pelo menos momentaneamente, está desativado o jornalismo fiteiro que durante muito tempo manchou o jornalismo brasileiro.

(*) Jornalista

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