Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > BRASIL URGENTE

Da porta do xadrez para o palácio

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

BRASIL URGENTE

Marcelo Antonio Oliva de Mello (*)

Programa Brasil Urgente, Rede Bandeirantes, 18h30 de um dia qualquer de junho. Numa delegacia da cidade de São Paulo, um repórter do programa presencia a prisão em flagrante de dois ladrões que roubaram um passe de ônibus e alguns trocados de um aposentado. O repórter, percebendo que a vítima estava exaltada e xingava os ladrões, logo pede para ser chamado ao vivo pelo apresentador, José Luiz Datena. Começa o espetáculo.

O aposentado, homem muito simples, grita para que os dois assaltantes, dois rapazes também humildes, queimem no inferno e coisas do tipo. Os ladrões não tinham usado arma ou ameaça para assaltar, bateram a carteira do aposentado. Que já estava se acalmando. Empolgados com o flagrante, mas descontentes com a aparente calma da vítima, o repórter e o apresentador do programa Brasil Urgente tratam de colocar fogo na lenha novamente.

Começam as perguntas ao aposentado, vindas do repórter e do apresentador: "O que você acha que deveria acontecer com eles?" "Você acha que bandidos merecem direitos?" A vítima do assalto se exalta de novo.

Agora as perguntas são para os ladrões: "Vocês acham certo o que fizeram?" "O que você acha que deveria acontecer com vocês?" "Por que você não mostra a cara?" "Agora você quer seus direitos, né?" Perguntas que deveriam constranger alguém que se diz jornalista.

A "reportagem" durou cerca de 20 intermináveis minutos. Um repórter e um apresentador despreparados e venenosos inflamando um senhor para que não parasse de xingar dois ladrões. Duas pessoas pertencentes à minoritária parcela da população brasileira que ganha rendimentos razoáveis para sobreviver no fim do mês usando três quase miseráveis para ganhar mais dinheiro, como fazem usualmente no programa de televisão no qual trabalham. Tudo travestido de "telejornal que presta serviços à população".

Troca de favores?

O desfecho da história não é difícil de imaginar. O aposentado vítima do assalto pegou um ônibus e voltou a sua casa, simples, numa periferia qualquer de São Paulo. Os ladrões foram encarcerados, quem sabe espancados por policiais. Talvez consigam fugir do precário sistema carcerário brasileiro, talvez tenham amigos em quadrilhas com algum dinheiro, que subornem alguém para saírem pela porta da frente de alguma delegacia. Voltarão à delinqüência, serão presos novamente, ou mortos.

Mais fácil de prever ainda foi o desfecho daquele dia para o apresentador José Luiz Datena. Em seu belo carro, seguiu para sua bela casa em algum bairro de classe média alta de São Paulo, comprados em alguma parte com o dinheiro ganho na exploração da imagem de miseráveis.

Meu desabafo se dá por duas razões. Em primeiro lugar sou formado em Jornalismo, e a exploração da miséria e da violência na mídia me irrita profundamente. Fico mais bravo ainda quando a exploração é disfarçada de jornalismo, de "verdade das ruas", de "serviço público" ou seja lá o nome que estes pseudo-jornalistas dão ao que fazem.

Em segundo lugar, causa-me indignação que o apresentador José Luiz Datena, participante da deprimente cena, seja um dos convidados do presidente da República para um jantar em Brasília para a "discussão" da reforma da Previdência, entre outras coisas. Datena estará acompanhado, entre outras "celebridades", da senhora Márcia Goldschmidt, que tem um programa chamado Hora da Verdade, famoso por forjar histórias estapafúrdias e por também explorar a vida e a imagem de pessoas simples para sobreviver no Ibope.

Será realmente um jantar com pessoas qualificadíssimas para a discussão do futuro do país…

Por que o presidente da República não chama jornalistas de verdade para discutir a reforma da Previdência? Será porque os jornalistas realmente discutiriam as reformas, e não engoliriam tudo o que escutarem para propagandear depois, talvez em troca de favores? Qual é o sentido de chamar apresentadores de televisão que não contribuem em nada para o crescimento do Brasil para discutir assuntos importantíssimos da nação? A única explicação que encontro é a exploração sórdida da televisão para vender uma idéia à população, usando figurinhas carimbadas especialistas em enganação e manipulação.

(*) Jornalista, São Paulo

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