Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA DE PIRES NA MÃO

Daniel Castro

Por lgarcia em 02/12/2003 na edição 253

MÍDIA DE PIRES NA MÃO

“Setor de mídia foi à UTI do BNDES, diz Lessa”, copyright Folha de S.Paulo, 25/11/03

“O presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Carlos Lessa, disse ontem que a indústria de comunicação foi ?toda para a UTI [Unidade de Tratamento Intensivo? do banco estatal.

A declaração foi feita durante palestra, na Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), na qual ele expôs os planos do BNDES para 2004 e respondeu às críticas que tem recebido por supostamente estar transformando o BNDES em um ?hospital? de empresas em dificuldades.

Ao dizer que há muitos setores da economia do país que precisam primeiro serem saneados para depois poderem aproveitar ?o espetáculo do crescimento?, Lessa usou a mídia como exemplo.

Segundo ele, ?as empresas de comunicação no Brasil, em situações diferenciadas, estão, todas elas, sem condições de aproveitar o espetáculo do crescimento?.

Para Lessa, são três as dificuldades do setor: dívidas em dólar, queda da receita publicitária devido à crise econômica e ?frustração? com os investimentos na área das ?tecnologias do futuro?.

Lessa disse que o BNDES está avaliando a situação da mídia, mas que o objetivo de uma eventual ajuda não será o crescimento induzido do setor, mas sim seu ?destravamento?, para que possa voltar a expandir de forma sustentável.

Em outubro, dirigentes das três principais entidades empresariais da área de comunicação do país -Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), ANJ (Associação Nacional de Jornais) e Aner (Associação Nacional de Editores de Revistas)- apresentaram ao BNDES estudos nos quais analisam a situação geral do setor e sugerem que ele tenha acesso a programas de apoio do banco oficial, como o de ?equacionamento financeiro das empresas? e os financiamentos normais para investimentos.

Lessa disse que, como esses estudo são públicos, poderia comentá-los sem violar o segredo da operação. ?Posso falar com muita tranqüilidade, porque não é segredo bancário, porque suas lideranças [as da mídia? me procuraram, fizeram uma exposição pública?, disse ele.

O presidente do BNDES afirmou ter usado o termo ?hospital? em relação ao papel do banco justamente em alusão a ajustes como o que se estuda fazer com a mídia. E sugeriu que tem sido criticado justamente pela mídia pelo uso desse termo.

?É curioso que a indústria de comunicação veio toda para a UTI do BNDES, em bloco. Aliás, se apresentou toda no mesmo momento, e juntinha. Com a liderança da imprensa escrita, da imprensa televisiva, das revistas e também das rádios. Tudo, em bloco.?

Lessa mencionou a importância da indústria de comunicação e acrescentou que, em 2004, o BNDES terá que fazer um programa para ?importante segmentos industriais?, entre eles o de comunicação.

?Se chamamos isso um ato de hospitalização ou não, é um problema de figura de linguagem. Como eu já apanhei muito por ter usado a palavra hospital, não uso mais. Na verdade, usei achando que era uma instituição necessária, não simpática, porém necessária. Aliás, o interessante é que a indústria de comunicação, toda, veio pedir hospitalização?, afirmou ele.”

“A mídia e o BNDES”, editorial copyright O Estado de S. Paulo, 26/11/03

“O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Carlos Lessa, não praticou nenhuma inconfidência ao comentar, durante entrevista coletiva que tinha por tema principal o caso Valepar, que todo o setor da mídia passa por graves dificuldades financeiras. ?Todas as empresas desse setor, em situação diferenciada, estão sem condições de aproveitar a retomada, o espetáculo do crescimento?, afirmou Lessa. De fato, não há empresa do setor que não tenha sido atingida pela crise, em maior ou menor grau, e não esteja fazendo o possível para reequilibrar suas contas. O Grupo Estado, por exemplo, acaba de repactuar suas dívidas, no quadro de uma profunda ? e dolorosa ? reestruturação corporativa.

O professor Carlos Lessa descreveu com exatidão a profundidade da crise. Acertou, também, ao elencar as causas do abalo do setor: ?A maioria está endividada em dólar; a economia não cresceu e, com isso, houve menos investimento em publicidade; e muitas acreditaram na telemática.? Também houve, é claro, acidentes de percurso na administração de algumas delas. Mas o fato é que, das três causas citadas pelo presidente do BNDES, duas decorrem diretamente de políticas governamentais que levaram as empresas de mídia ? e não apenas elas ? ao desequilíbrio. Os equipamentos e parte substancial dos insumos usados pelo setor de comunicação, da televisão ao jornal, são importados. Além disso, antes da mudança da política cambial de 1999, todas as empresas do setor se endividaram em dólar, mesmo porque não havia alternativa. A desvalorização do real frente ao dólar, determinada pelo governo, transformou empresas sólidas e prósperas em grandes devedoras que mal faturavam para pagar o serviço da dívida. A estagnação da economia, de fato, reduziu a publicidade em proporções inéditas na história da imprensa brasileira. Mas é preciso ver que a redução da atividade se deveu em grande parte à política de juros, que tornou proibitivos investimentos de qualquer natureza e reduziu substancialmente o consumo. Isso, pelo lado da receita das empresas de mídia; pelo lado dos gastos, os juros elevados apertaram a traquéia de empresas que já mal conseguiam respirar. Em resumo, respondendo à ironia do professor Lessa: ?As empresas foram em bloco pedir hospitalização no BNDES? porque, sem faixa de segurança, foram ?em bloco? atropeladas por políticas de governo.

Essa situação, a bem da verdade, foi criada durante o governo Fernando Henrique. Tanto assim que, na etapa final da campanha eleitoral, as entidades representativas das empresas do setor procuraram os quatro candidatos à Presidência, para colocá-los a par da crise e discutir as saídas possíveis. Só não conseguiram falar com o candidato Luiz Inácio Lula da Silva, que estava com a agenda cheia. Lula recebeu os representantes do setor logo depois que tomou posse. Reconheceu que a crise era aflitiva e se dispôs a procurar soluções. Lembrou que a mídia era o único setor da economia brasileira que não contava com o crédito de longo prazo e com juros módicos do BNDES ? o que constituía, afinal, um tratamento negativamente diferenciado.

Desde então, o governo, por um lado, e as entidades representativas da mídia, por outro, estão estudando meios para evitar que crises como a atual ? desencadeada por reformas cambiais e agravada pela política de juros ? inviabilizem as empresas de mídia.

A grande preocupação, revelada pelos principais ministros do governo nos primeiros contatos que tiveram com os representantes da mídia, é evitar que uma crise como essa acabe com a imprensa independente, deixando no mercado apenas as empresas dominadas por políticos, por seitas religiosas ou pelos murdochs tupiniquins, que já começam a se aproveitar das vulnerabilidades do setor.

A imprensa brasileira tem a exata noção de seu papel no processo democrático, tanto que não tem poupado o presidente do BNDES de críticas, quando julga que ele as merece. E o governo Lula, é necessário que se diga, compreende perfeitamente o valor da liberdade de expressão para a preservação do regime democrático e em nenhum momento deu mostras ou levantou suspeitas de que pretende colocar a imprensa de joelhos, como chegou a afirmar um velho empresário do setor ? mesmo porque sabe que isso não será possível enquanto estiver em vigor a Constituição de 88.

As empresas de comunicação não estão pedindo privilégios nem o governo os está oferecendo. Querem apenas tratamento idêntico ao recebido pelos outros setores da economia que procuram o BNDES. E o pleito está sendo estudado, como afirmou o presidente do banco, porque ?nenhum País pode sobreviver sem uma robusta indústria de comunicação?.”

“Chorando na rampa – III”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 1/12/03

“Bem, voltemos às agruras dos grupos de comunicação na sua luta para pegar algum da bolsa da Viúva. Já vimos dois desses problemas – o temor, mais do que justificado, dos técnicos do BNDES com a incompetência gerencial dos nossos patrões, e a desunião entre os grupos mais poderosos e mais endividados e os menores querem crescer em cima deles usando exatamente o dinheiro das linhas de crédito que seriam postas à disposição pelo BNDES. No entanto, há um terceiro obstáculo à tranqüila concretização do empréstimo: a questão regional.

As empresas com maiores dívidas se situam no eixo Rio-São Paulo – com uma ou outra exceção de monta. Este fato, no entanto, não quer dizer que os grupos regionais estejam bem, obrigado. Longe disso. Com até mais dificuldades para captar anúncios, devido a sua menor capacidade de cobertura e tiragem, nem o custo operacional bem menor é capaz de fazer com que esses grupos fiquem a salvo dos maus resultados e prejuízos relevantes.

Dessa forma, os problemas dos grupos fora do eixo Rio-São Paulo embora se assemelhem muito não podem ser tratados da mesma maneira que os dos conglomerados sediados nas duas maiores cidades do país. Essa é uma sinuca em que estão metidas as entidades representativas das empresas (Abert, ANJ e Aner), pois ao mesmo tempo que têm que defender uma solução conjunta, esta não pode ser a mesma para todos, o que, inevitavelmente, cria conflitos complicados de serem resolvidos.

Esse é o problema das entidades para o ?lado de dentro?, pois para o ?lado de fora? a situação é ainda mais desconfortável. Afinal, se o BNDES já fica cabreiro de emprestar dinheiro do meu, do seu, do nosso aos maiores grupos do setor de comunicação do país por temer sua incompetência na gestão, imagina o que pensam os técnicos do banco da idéia de botar bufunfa da grossa em grupos bem menores que eles não têm a menor noção de como são dirigidos.

Para tentar ao mesmo tempo contornar os choques internos e evitar um racha, e convencer o BNDES de que apoiar grupos regionais não é queimar dinheiro em praça pública, as entidades que representam as empresas pediram um estudo especial à consultoria de Maria Sílvia Bastos Marques, que fez o primeiro apanhado entregue ao banco mês passado. O estudo está para ser apresentado – se é que já não o foi, pois está sendo feito em grande sigilo – e apontará o caminho pelo qual se espera vencer mais este obstáculo.

Há ainda um outro pequeno detalhe que precisa ser explicado a respeito das dificuldades a serem superadas pelos grupos que desejam receber a mãozinha do BNDES. Mas isso fica para a próxima semana.

Mais do mesmo – Mais doses de veneno paranóico, turbinadas com outras análises tresloucadas e, até, informações relevantes? Então assine o devezemquandário Coleguinhas Por Mail, mandando emeio para cpm@coleguinhas.jor.br. Não tem mais burocracia que isso (bem, tem umazinha do yahoo, mas é indolor…) e, melhor de tudo, é ?de grátis?!”

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