Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Daniel Piza

Por lgarcia em 03/07/2002 na edição 179

COPA 2002

"Erros, retratações e provas", copyright O Estado de S. Paulo, 30/6/02

"Coréia e Turquia fizeram bom primeiro tempo ontem, disputado, com gols bem construídos. Há bons jogadores nos dois times: na Coréia, Hong, Seol e Ahn; na Turquia, o goleiro Rustu, Sas (que não jogou ontem) e Basturk. A Turquia é mais compacta e objetiva e terminou merecendo o terceiro lugar; os coreanos finalizam muito mal, embora compensem em empolgação e alguma habilidade. Do time turco, quatro jogam no campeonato inglês e quatro no italiano. Mas ninguém neste mundo poderia comparar essa partida com uma hipotética Itália vs Inglaterra ou Argentina vs França, em termos técnicos, ou mesmo com Irlanda vs Uruguai ou Portugal vs Espanha.

Jogadores desses times zebras produziram, por sinal, alguns dos mais belos gols da Copa de 2002 e também alguns lances, como o chapéu de carretilha do turco Mansiz sobre Roberto Carlos. E estiveram em algumas das partidas mais memoráveis, como Suécia vs Senegal e Coréia vs Itália. Mas ainda cometem muitos erros primários, de fundamento ou tática. ?Futebol é um jogo de erros?, diz o ex-craque Sócrates, e a final de hoje comprova, pois Alemanha e Brasil erraram menos ao longo dos jogos ou erraram quando podiam.

O vizinho Luis Fernando Verissimo, ontem, tentou desculpar os comentaristas de TV e rádio que cometeram a gafe de pedir a saída de Ronaldo no intervalo de Brasil vs Turquia. Afinal, eles são obrigados a palpitar em cima do fato e correm sempre o risco de queimar a língua.

Tudo bem, ainda que muita gente já discordasse do diagnóstico deles durante o primeiro tempo. Mas o pior foi que, na hora de votar no melhor da partida, eles tinham a chance de se retratar e não se retrataram. Se um jogador faz um belo e decisivo gol e três assistências (passes para jogadores cara-a-cara com o goleiro adversário), ao contrário de todos os demais, só pode ser eleito como o melhor em campo.

Por sinal, no capítulo ?retratação a Ronaldo? os comentaristas brasileiros estão com volumoso débito em conta corrente, já que sempre tiveram certeza de que ele não voltaria ou, se voltasse, não voltaria jogando bem. Por isso também poucos reconhecem que ele tem sido melhor que Rivaldo, não só porque fez mais gols, mas também porque fez gols mais importantes e foi mais perigoso com suas finalizações e assistências, além de ser tecnicamente mais completo. Mas se Rivaldo jogar bem hoje tende a ser eleito o melhor da Copa; ainda assim, as retratações a Ronaldo continuarão necessárias.

Se Nelson Rodrigues estivesse vivo, o que estaria descrevendo? A ?recuperação épica? do futebol brasileiro. Ainda que termine como vice, essa seleção seria para ele a prova do talento que brilha nos campos europeus e mesmo assim é vítima da maledicência nacional. Sim, Rivaldo não é Rivellino, Ronaldo não é Pelé e Ronaldinho não é Zico, mas os três são honrosos herdeiros de uma tradição que o mundo inveja."

 

"Kahn, de Oliver a Hermann", copyright Jornal do Brasil, 29/6/02

"Inimigo público número 1 dos 170 milhões de brasileiros, esperança do técnico Rudi Völler e dos 80 milhões de alemães, pesadelo dos comentaristas, ídolo (secreto) dos argentinos, o goleiro da seleção alemã juntou-se aos nossos três RRR?s e nos últimos dias ingressou no hall da fama internacional.

Até quarta-feira passada era conhecido apenas pelos experts como o menos vazado da Copa. Com a decisão sobre a Turquia e a definição dos adversários da final, Herr Oliver Khan, 33 anos, ganhou súbita notoriedade. Com a ajuda da defesa, transformou-se na Linha Maginot germânica, única barreira capaz de deter a blitzkrieg brasileira.

O mito da defesa inexpugnável foi derrubado logo no início da Segunda Guerra Mundial quando, ao contrário do que imaginou o deputado francês André Maginot (da esquerda democrática), os generais alemães, com suas velozes divisões panzer, contornaram a extensa fortaleza ao longo da fronteira franco-germânica e entraram com relativa tranqüilidade pela Bélgica.

A história das guerras está ai para demonstrar que não existem ataques indestrutíveis nem defesas inabaláveis. As muralhas de Jericó foram tomadas de assalto graças às trombetas e Tróia foi batida com o estratagema do cavalo de madeira.

Sem o imponderável, as guerras seriam dispensáveis – os desfechos decididos num jogo de dados, palitinho ou quem sabe, num campo de futebol. Como, aliás, vai acontecer amanhã para angústia, Angst, de meio mundo, deterministas ou não.

Convém contrariar os fatalismos, assim como as evidências e tendências – o que nos leva a outro Kahn, Herman (1922-1983), físico e estrategista americano de origem alemã que no auge da Guerra Fria admitiu a possibilidade de um confronto nuclear. Partiu do pressuposto de que guerras são inevitáveis e a capacidade nuclear incontrolável, fez os cálculos em termos de megatons e previu que uma guerra nuclear poderia ser ganha. Stanley Kubrick inspirou-se nele para criar o estranho amor do Dr. Strangelove.

Esse quase homônimo do golquíper alemão nos interessa neste momento em função do conflito entre suas obras mais conhecidas: O Ano 2000, exercício futurista montado em cima do infalibilidade das estatísticas e pesquisas numéricas (cujos acertos ainda não foram computados), e Pensando no impensável, onde vai na direção contrária e admite que o horror nuclear não conduz necessariamente à paz. Em outras palavras: probabilidades são probabilidades.

O sobrenome Kahn, comum na Europa, espalhou-se pelos EUA nos últimos 150 anos. Origina-se de Cohen e nas sucessivas migrações deu Kahan, Kahane, Kagan, Kogan. Há um banqueiro e mecenas (Otto Herman), poeta simbolista (Gustave), arquiteto revolucionário (Louis Isadore), bacteriologista (Reuben) e até um sexólogo (Fritz, autor de Nossa vida sexual, best-seller internacional nos anos 30 e 40). Minha preferida é Madeline Kahn, extraordinária comediante (1942-1999) que Mel Brooks tantas vezes usou nas suas gozações cinematográficas.

Ligeiro deslocamento no ?h? dá Khan — título honorífico islâmico convertido em sobrenome, ostentado pelo playboy Ali Khan e pelo maior gênio militar dos últimos mil anos – o mongol Gengis Khan (1162-1227) que com seus guerreiros atravessou a China, Índia, Pérsia, Rússia até a Bulgária.

Certamente não gerou o galalau louro que amanhã estará encarregado de agarrar nossos chutes. Mais provável que sua origem, embora remota, seja a mesma do futurólogo Hermann, que morreu precocemente aos 62 anos. Vale, portanto, lembrar que o inexorável é apenas uma hipótese."

 

"Time promove ?vão ter de me engolir? coletivo", copyright Folha de S. Paulo, 1/7/02

"Uma batucada em fila indiana foi a forma encontrada pela seleção brasileira para protestar contra as críticas que o time recebeu durante as eliminatórias, na preparação para a Copa e até na primeira fase do Mundial.

Foi assim que boa parte dos jogadores deixou os vestiários ontem sem falar com os jornalistas.

O cordão foi puxado pelo atacante Ronaldinho, e a ele se seguiram Edílson, Júnior, Denílson, Roque Júnior, Juninho, Edmilson, Kaká e Ricardinho.

O capitão Cafu passou em disparada pela zona mista, a área reservada para a imprensa, sem atender a dezenas de pedidos de entrevistas. Respondeu a meia dúzia de perguntas e se foi.

Scolari também se recusou a atender o batalhão de repórteres. Só falou à Fifa e à TV Globo.

Numa seleção recheada de jogadores criticados por público e crítica, o ressentimento foi a tônica da comemoração nos vestiários, segundo a Folha apurou.

O clássico ?vocês vão ter de me engolir?, berrado por Zagallo em 1997 após a conquista da Copa América, reapareceu ontem.

Os poucos que falaram com a imprensa deixaram claro o sentimento de vingança que tomou o time. ?Os jogadores da seleção foram muito bombardeados, principalmente o pessoal do meio-campo para trás. A gente fica chateado, porque ninguém ganha um jogo sozinho?, disse Marcos.

?Calamos a boca de muita gente no Brasil que nunca acreditou em nós. Viemos desacreditados e conquistamos o penta porque nos fechamos?, afirmou Luizão.

?A seleção saiu desacreditada. No sofrimento, as mini-sociedades se unem. Foi o que ocorreu com a gente?, declarou o preparador físico Paulo Paixão.

Um exemplo da união pôde ser visto antes da final, quando os titulares chamaram os reservas para integrarem a tradicional foto oficial do jogo."

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