Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Daniel Piza

Por lgarcia em 23/10/2002 na edição 195

ELEIÇÕES 2002

“Patrulheiros do futuro”, copyright O Estado de S. Paulol, 20/10/02

“Não sei por que tanto espanto com a reação petista ao depoimento de Regina Duarte, em que manifesta medo de um governo Lula. Ou com o pedido que esse presidenciável fez a Boris Casoy para que não lembrasse suas relações com os ?democratas? Fidel Castro e Hugo Chávez. Há tempo se sabe que os companheiros não entendem direito o conceito de liberdade de expressão.

Não são poucas as pessoas, da elite ou não, que sentem temor de que o governo Lula, caso amplie demais os gastos públicos ou tome medidas equivocadas no câmbio, entre num ciclo autodestrutivo de inflação alta, redução de investimentos estrangeiros e descontrole fiscal. E de que erre as ênfases na atuação diplomática e prejudique relações comerciais importantes para o Brasil. Por que essas pessoas não podem expressar esses temores?

Claro que discordo de táticas alarmistas como o apelo de Regina Duarte ou a comparação que Serra fez entre Lula e Chávez; só que defendo até a morte o direito de eles expressarem essas opiniões. Há uma diferença nítida entre tais opiniões e, por exemplo, aquela justaposição de imagens feita pelo programa de TV de Serra – devidamente proibida – que fazia supor que José Dirceu incitou grevistas a baterem em Mário Covas. É a diferença entre opinião pessoal e acusação leviana. Já passou o tempo de a sociedade brasileira entendê-la.

Também acho uma forma de patrulha que Lula seja criticado por ter provado de um Romanée-Conti 97 na noite depois do último debate, assim como discordara daqueles que criticaram Mercadante por usar uma Montblanc. Não há nenhuma contradição entre defender maior inclusão social e adquirir honestamente artigos de luxo. Ao contrário. No Brasil ainda acham que um mercado aberto e competitivo nada tem a ver com geração de empregos e distribuição de renda, mas ao Estado, que pode até subsidiar a exportação de vinhos e incentivar a abertura de uma multinacional de canetas, certamente não cabe produzir vinhos e canetas. Para ser forte, ele precisa mais de inteligência que de tamanho.

Mas o ímpeto patrulheiro de muitos petistas é flagrante. No Rio Grande do Sul, por exemplo, livros escolares foram ideologizados, setores públicos como a Polícia e o Judiciário foram partidarizados, e as intenções supostamente modestas do Orçamento Participativo logo se revelaram como cooptação de líderes comunitários pela legenda. Vários jornalistas foram intimidados e intimados por denunciar políticas suspeitas do governo petista. Isso para não falar na tática guerrilheira de enviar e-mails insultuosos a todo articulista que ouse criticar o populismo do PT.

A campanha atual do partido, por sinal, já é um convite à massificação das opiniões e à conseqüente patrulha às divergências. À maneira das convenções do partido, dividido em facções que só uma cúpula forte pode doutrinar, ou do Fórum Social Mundial, em que o pluralismo permitido é aquele que não vai além do espectro da extrema-esquerda à centro-esquerda, a conclamação dá o tom final. A campanha exagera no marketing, é baseada na combinação eufórica de sons e imagens, foge dos conteúdos, não deixa espaço à tal ?dialética? que eles tanto mencionam. Não é desse material que a democracia se constrói.

Política em pó

Quanto ao mérito da questão, acho alguns temores plausíveis. O PT diz que não; afinal, vem se comprometendo com acordos como o do FMI e prometendo rejeitar medidas como controle cambial e moratória. Mas não pode eliminar o fato de que até o começo do ano não era assim que pensava e votava. O PT foi contra o Plano Real, contra a reforma previdenciária e a CPMF, contra a lei de responsabilidade fiscal, etc., etc. É curioso que hoje diga o oposto do que dizia até há pouco tempo e isso seja classificado pela imprensa de amadurecimento político, não de estratégia eleitoral. E até agora não ouvi nenhum cacique petista dizer: ?É, estávamos errados.? Alguém ouviu?

Fiat lux

O que aconteceu na última semana – a subida dos juros básicos para 21% – é um polaroid dos erros cometidos pelo governo FHC nos últimos oito anos. Para não entregar ao próximo governo um país que, além da produção em queda e do desemprego em alta, chega a dois dígitos de inflação (aonde quase chegou em 2001, segundo alguns institutos), tenta desaquecer a economia e conter a alta do dólar. Mas a economia já está desaquecida, e o dólar disparou não só por temor da incompetência do próximo governo, mas também porque a dívida pública chegou ao limite da insolvência, tal a dependência de investimentos externos.

Outro triste retrato é a ridícula comemoração dos resultados da balança comercial. Obviamente são importantes para o caixa, ao evitar a queima das reservas. Mas melhoraram menos pelo aumento das exportações (5%) que pela queda das importações (17%); as exportações que aumentaram foram as de commodities (sobretudo o café, por uma elevação do preço), pois as de produtos manufaturados caíram 4,8% (ou seja, na contramão da história); e a médio prazo a queda das importações pode afetar a competitividade da economia nacional. O Brasil ainda não acordou para o novo mundo do comércio exterior.

Terror & teoria

?Os intelectuais europeus (…) insistem em servir às teses abstrusas do marxismo segundo as quais os países ricos se enriqueceram assaltando os países pobres. Fazem tabula rasa da revolução industrial (…) e negligenciam as conquistas essenciais do capitalismo.? O grande Jean-François Revel, autor de L?Obsession Anti-Américaine.

Ao Deus-não-dará

Escrevo depois de ter visto os dois primeiros episódios da série Cidade dos Homens, na TV Globo. Há bons momentos, como uma espécie de ?sitcom? que se passa na favela, mas nada brilhante. Não tem a força do filme Cidade de Deus, da mesma equipe, mas tem algumas diferenças interessantes: na minissérie, vemos as pessoas que moram na favela estudando, trabalhando e se ajudando; não é qualquer miniatrito que termina em matança; o jogo de poder contagia todas as relações, mas a violência não é o código único.

Por que não me ufano

É muito fácil tirar sarro dos economistas. O Prêmio Nobel, por exemplo, foi para Daniel Kahneman, cujo trabalho mostra como a psicologia influi na economia (no caso, porque as pessoas se preocupam mais com as perdas do que com os ganhos), o que Keynes – na parte mais relevante de suas idéias – já dissera muitas vezes. Mas ainda mal se analisaram esses mecanismos. Ou seja, a economia ainda parece estar onde a física estava antes de Einstein e Heisenberg, a psicologia antes de Freud, a arte antes de Picasso.

Mas cientistas políticos e sociólogos mereceriam chacota equivalente. No Brasil, por exemplo, além de chamarem de neoliberal o governo FHC (juros, impostos e gastos públicos cada vez mais altos) e de esquerda o populismo conservador de Anthony Garotinho (assistencialismo, família e religião), dizem que ?Terceira Via? é meio-termo entre capitalismo e social-democracia.

Não. É entre o liberalismo ?puro? (Estado Mínimo) e socialismo. Aquilo que o Brasil deveria procurar, nalgum ponto entre Roberto Campos e José Serra…

Aforismos sem juízo

A ética começa onde a auto-exigência começa.”

 

“13 e/ou 45”, copyright Folha de S. Paulo, 22/10/02

“O primeiro turno evidenciou a influência provocada pela eleição presidencial na definição de voto para governo. Diversos candidatos do PT tiveram suas votações vitaminadas pelo desempenho de Lula na disputa presidencial. Em São Paulo, José Genoino atropelou Paulo Maluf nas últimas semanas de campanha e conquistou a vaga no segundo turno obtendo mais de 2 milhões de votos de vantagem. O inverso também aconteceu: nos Estados em que o candidato do PSDB ao governo liderava, casos de SP e MG, Serra melhorou seu desempenho nos últimos dias.

E agora no segundo turno, como o eleitor paulista está combinando seu voto? As pesquisas realizadas na última sexta-feira pelo Datafolha revelam que a maioria do eleitorado (67%) demonstra fidelidade partidária e pretende digitar duas vezes o mesmo número no próximo domingo. A dupla do PT, Lula e Genoino, é a opção de 35% dos eleitores paulistas. A dobradinha do 45 é a opção de 32%, isto é, votarão em Serra para presidente e em Alckmin para governador. Isso mostra que há uma divisão equilibrada entre oposição e situação na maioria do eleitorado do Estado. Dentre os 33% que sobram, 17% optam pela dupla Lula/Alckmin, e ainda 3% preferem Serra e Genoino.

Para entender melhor essas combinações vale a pena observar alguns cruzamentos. A dupla petista, por exemplo, é citada muito mais pelos homens (41%) do que pelas mulheres (30%). Já, ao contrário, a combinação de candidatos tucanos agrada mais às mulheres (36%) do que aos homens (29%). Os simpatizantes do PSDB optam mais pela dupla tucana (82%) do que os do PT pela dupla petista (76%). Entre os que aprovam o governo Fernando Henrique Cardoso, a maioria (56%) forma a chapa Serra/Alckmin. Por outro lado, ao destacar os eleitores da cidade de São Paulo, apenas metade (49%) dos que aprovam a administração de Marta Suplicy optam pela dupla Lula/Genoino. A coerência pára por aí. Entre os que têm mais simpatia pelo PT, 17% escolhem Lula para presidente, mas preferem Alckmin para governador. Essa mesma combinação é feita por 10% dos simpatizantes do PSDB. Já a dupla Serra/Genoino atinge apenas 1% entre os simpatizantes de cada partido.

Entre os que avaliam o governo Fernando Henrique como ótimo ou bom, cerca de um em cada cinco eleitores paulistas (19%) escolhe Lula para presidente e Genoino para governador. Mas a aparente incoerência joga nos dois times: na cidade de São Paulo, entre os que aprovam a gestão Marta Suplicy 22% optam por votar em Serra para presidente e em Alckmin para governador.

Nestes últimos dias de campanha será interessante acompanhar essa parcela de cerca de um quinto do eleitorado paulista que demonstra infidelidade na formação das chapas e que podem definir a eleição. Nesse estrato, a dupla Lula/Alckmin está em vantagem, e isso é o que proporciona a liderança do peessedebista. Caso parte desses eleitores decidam-se pela fidelidade tucana, deixando de votar em Lula para votar em Serra, a opção não terá peso significativo na disputa presidencial, mas garantirá a vitória de Alckmin. Se a fidelidade pender para o lado petista poderá ser o suficiente para que Genoino reverta a desvantagem.

A observação dessas combinações de voto na próxima pesquisa poderá revelar se a fidelidade partidária dessa parcela do eleitorado paulista irá pender para algum lado ou se irá prevalecer a infidelidade.”

“Contra o medo, Fernando Henrique”, copyright O Globo, 20/10/02

“Nada mais incongruente do que ver na mesma noite, quase no mesmo momento, Regina Duarte com uma cara trincada de dar medo ameaçando com o medo, e em seguida Fernando Henrique seguro, sereno, tranqüilizando as pessoas em relação ao futuro, qualquer que seja, inclusive aquele que, por suposto, tanto enche de temor a ex-namoradinha do Brasil. De um lado, ela dizendo: ?Estou com medo. O Brasil corre o risco de perder a estabilidade. Não dá para jogar tudo na lata de lixo?. De outro, ele confessando na Confederação Nacional da Indústria que fica ?irritado? com previsões desse tipo e garantindo: ?Se ganhar fulano ou beltrano, nada vai acontecer?. Alguma sincronia deve estar faltando entre o presidente e a campanha de seu candidato.

Sabe-se que a eleição não está decidida, e na reta final da próxima semana tudo pode acontecer, até uma campanha de alto nível como a do primeiro turno, prevalecendo o clima de 94 e 98, não o de 89. Mas é improvável. No momento em que escrevo há um cheiro de pólvora no ar que só tende a aumentar. Afinal, algum marqueteiro poderá argumentar sempre que o discurso do ódio e do medo funciona. Não funcionou para Collor?

Funcionou, mas em compensação não funcionou quando foi tentado há pouco, na primeira série do horário eleitoral. O Brasil de hoje talvez esteja mais amadurecido, escolado, acredita menos em fantasmas, por causa mesmo de traumas como aquele. Será possível que a fala apocalíptica da Regina vá surtir efeito? A incerteza nos rondando, a insegurança tomando conta das pessoas, bandidos atacando o Palácio Guanabara, o dólar, os juros e o risco Brasil disparando, a nossa auto-estima lá embaixo, a população cheia de motivos reais para temer, e ela falando em estabilidade, com medo não do que está acontecendo à sua volta aqui e agora, mas do que pode vir a acontecer, de acordo com sua paranóia. A mim, mais do que o futuro, me meteu medo aquele olhar possesso num rosto crispado de quem tivesse acabado de ser assaltado na rua. Ela não veio para prevenir, para evitar o perigo, mas para anunciá-lo, com um certo prazer sádico do tipo ?vocês vão ver!?. Parecia um daqueles chatos que torcem para que tudo dê errado só para ter razão, para no final afirmarem: ?Eu não disse??

Ainda bem que logo depois viu-se e ouviu-se o presidente. Ponto para ele, que tem combatido o terrorismo eleitoral com serenidade exemplar. Como em campanha eleitoral as coisas são muito dinâmicas e relativas, tudo muda rapidamente, o inimigo de ontem é o amigo de hoje e vice-versa, o que estou dizendo pode ser desmentido na segunda-feira, se é que já não foi entre a escritura e a leitura de agora.

Do governo Fernando Henrique, acho que não, mas dele próprio certamente a gente vai sentir saudade – de sua vocação democrática, de seu estilo civilizado, de seu temperamento tolerante, lhano, afável, cordial e tantas outras palavras de um vocabulário que não costuma ser muito comum em política. Pode acontecer o que aconteceu com JK, cuja imagem melhorou à medida em que o tempo foi passando, reforçando na gente a certeza de que ele foi muito melhor do que sua administração – assim que nem FH.

Na era JK eu trabalhava no jornal de Carlos Lacerda, principal adversário de Juscelino e um demolidor de presidentes. Sua metralhadora giratória era devastadora. Sua oposição era implacável e corrosiva, não livrava nada: nem vida privada, reputação, moral, nada. Seus discursos, brilhantes, não deixavam pedra sobre pedra. Mas nem isso retirava do seu alvo preferido o sorriso, a simpatia e o fair-play. O que ACM disse de FH – que se alguém quiser ser seu inimigo não deve chegar perto – podia-se dizer do criador de Brasília.

Há pouco tempo estive lá, na capital, justamente quando se comemorava o centenário de nascimento de seu inventor, e ouvi muito essa comparação. Os políticos e os colegas de profissão com quem conversei, mesmo os que apóiam Lula, eram unânimes em ressaltar uma certeza, pensando nos então quatro candidatos: ?igual a Fernando Henrique, jamais?. O que alegavam os jornalistas que cobrem a área política é que, houvesse o que houvesse, FH nunca perdia a linha, a compostura e a tolerância: nunca fez uma grosseria com um profissional e sobretudo nunca reclamou de repórter junto ao editor ou ao patrão. ?Já Serra?, me disse uma colega, ?é reclamão, nunca está satisfeito com uma cobertura e, o que é pior, gosta de se queixar lá em cima?. Com Lula é difícil a comparação porque ele nunca foi ministro, não esteve no poder, mas no primeiro turno ele cometeu pelo menos um gesto de intolerância, ao abandonar intempestivamente um encontro na ?Folha de S.Paulo?. Os dois têm o que aprender com o atual presidente. Há muito do que reclamar do governo FH, mas a liberdade de expressão vai poder dizer: ?eu era feliz e não sabia?.”

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