Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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PRIMEIRAS EDIçõES > GUERRA NA MÍDIA

Daniel Piza

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

GUERRA NA MÍDIA

"Luto altivo da revista ?New Yorker?", copyright O Estado de S. Paulo, 30/09/01

"Há símbolos inatingíveis em Nova York. Depois do atentado do dia 11, e depois de baixada a poeira das duas torres do World Trade Center, uma curiosidade tomou os que têm interesse pela cidade e por jornalismo: o que dirá a New Yorker sobre tudo isso? E na última semana a resposta veio, como sempre, em grande estilo: embalada por uma capa preta de Art Spiegelman. A meia-cobertura traz na vertical e em vermelho as palavras ?September 11, 2001?; sob ela, a capa estampa a silhueta das torres gêmeas sobre um fundo cinza-chumbo. A mensagem é direta: a New Yorker está de luto. Mas não perdeu a altivez.

O melhor artigo, para variar, é de Adam Gopnik. Ex-editor da seção Talk of the Town, ex-crítico de arte e ex-correspondente em Paris da revista, ele agora assina a coluna Diário de Nova York e, nesta última, lembra uma frase de um dos maiores cronistas da New Yorker, E.B. White, que em 1949 comentou como a cidade atrai os sonhadores de destruição: ?A ameaça da mortalidade é parte de Nova York agora, no som dos jatos acima.? White, Gopnik poderia ter lembrado também, foi o autor que, diante das imagens do pouso na Lua em 1969, reclamou que a bandeira americana fosse fincada no solo lunar em vez do lenço branco da paz. Verdades doem, não precisam de reforço.

?Ouvimos os jatos agora?, escreve Gopnik, ?e provavelmente não seremos mais capazes de olhar a cidade com a mesma afeição irônica, exasperada. No entanto, no anoitecer daquele dia, ninguém podia caminhar pelo Central Park, pela Sétima Avenida ou através de uma vazia e um tanto sinistra Times Square sem sentir uma surpreendente onda de devoção pela Nova York real.? Então Gopnik vem com uma daquelas frases que resumem tudo e fecha seu texto: ?É a cidade simbólica que nos traz aqui, e a cidade real que nos mantém. Parece difícil mas importante acreditar que a cidade vai seguir adiante, porque agora sabemos como seria perdê-la, e a sensação é a de perder a própria vida.?

Como a New Yorker, Nova York não é só para nova-iorquinos. Mais da metade da reação que está havendo contra países islâmicos radicais não haveria se eles só tivessem atingido Washington, a cidade oficial, sede do governo americano, endereço de trabalho de George W. Bush. Nova York é a cidade mais tolerante do mundo, símbolo e realidade do encontro de nacionalidades, global antes mesmo da globalização, cosmopolita a ponto de ser imitada em todos os quadrantes do mundo. Quem lê a New Yorker e não mora em Nova York não se sente excluído do que é descrito e comentado ali, mas convidado a olhar o mundo de um jeito que Nova York tornou mundial: entre irônico e afetuoso, exasperado e vital.

Talk of the Town veio, naturalmente, mais longa que o habitual, pluralista como costuma ser: há desde a eulogia de John Updike (?as ruínas ainda emitiam fumaça, mas Nova York estava gloriosa?) até o simplismo de Susan Sontag (?Quantos cidadãos sabem do bombardeio do Iraque pelos americanos??), passando pelo medo da guerra de Denis Johnson (?Imagine uma sucessão de dias como esses se estendendo por anos?) e pelo apoio judaico de Aharon Appelfeld (?Na mitologia judaica moderna, a América é a figura paterna que salvou muitos judeus dos cruéis bolcheviques e nazistas ao nos garantir um lar?). Diga o que quiser dos nova-iorquinos, eles sabem o que é liberdade de expressão.

Nova York, assim como é simbólica e é real ao mesmo tempo, é e não é os Estados Unidos. Nela os ideais americanos mais universais, inclusive o da multiplicação do dinheiro pelos bancos de investimento que ocupavam os arranha-céus do WTC, se tornaram realidades sutis. Enquanto o ex-governador do Texas, campeão em execuções da pena de morte e defensor de um novo sistema Guerra nas Estrelas, ocupa a Casa Branca e ceva o Pentágono, Rudolph – ou apenas Rudy – Giuliani comanda Nova York. Símbolo dos imigrantes que compõem a cidade, ele a tornou realmente mais pacífica e, mesmo depois da tragédia, soube manter o equilíbrio de tantos. A New Yorker rende homenagem: ?A cada vez que ele falava, comunicava ao mesmo tempo dor e decisão – e tranqüilidade.?

A revista tem também portfólio de Joel Meyerowitz, que mostra em três fotos o sul de Manhattan com as torres de dia, de tarde e de noite. Diversas fotos de diversos autores também acompanham a matéria de capa, escrita pelo editor da revista, David Remnick, que coleta depoimentos de vários colaboradores, entre eles repórteres importantes como Lillian Ross e Seymour Hersh. Entre as falas, há uma do líder do Taleban, mulá Omar, que explica de modo curioso por que abriga Osama bin Laden: ?A América é temente a Deus. Não é como a União Soviética, que ela nos ajudou a derrotar. Mas ela está por trás dos inimigos do Islã.? Depois da URSS, é a vez de Israel ser derrotada?

Por fim, o crítico de arquitetura, Paul Goldberger, fala sobre o significado perdido das torres (?as regras da construção urbana vão mudar?), e o de cinema, Anthony Lane, sobre a difrença entre as cenas reais e as dos filmes de desastre (?Não suportávamos olhar, e tudo que fizemos foi olhar?). Mas a edição traz também matéria sobre beisebol e resenhas de ópera e livros que nada têm a ver com o ataque terrorista. Há símbolos inatingíveis em Nova York."

 

"O que muda na TV após o atentado", copyright O Estado de S. Paulo, 30/09/01

"Os atentados do dia 11 ainda causam atrasos e, num paradoxo natural, criam novidades na programação dos EUA. Na quinta-feira, estreou o oitavo ano de Friends (Warner) com veto em uma cena. Nela, Monica e Chandler burlam a segurança de um aeroporto ao embarcar sob disfarce.

Agora, a expectativa é sobre West Wing (Warner). A NBC exibe, na quarta, Isaac and Ishmael, um especial com duas horas. O enredo põe o dedo na ferida do terror, mas sem menção direta aos ataques.

No Brasil, o temor dos canais pagos é o de atrasar estréias, já que pilotos estão sendo refeitos. O pacote do Sony ainda está mantido para 5 de novembro. ?Qualquer tema que raspe o assunto será retirado?, avisa Carolina Vianna, gerente de Marketing. ?Já reprogramamos Dawson?s Creek para o dia 10.?

O Fox tem séries de conteúdo ?suspeito?, como Arquivo X. Mas a gerente de Marketing Fabiana Lang está mais preocupada com Ally McBeal e a leva de novembro, pois Mulder e Scully, Dark Angel e Lone Gunmen, só voltam em março. ?McBeal e Dharma & Greg já atrasaram por lá. E, hoje, até o transporte aéreo preocupa?, diz Lang.

A ressaca do terror deu margem a reprises sobre personagens do momento, como Osama bin Laden, suspensão de produções, como um documentário sobre a Casa Branca de Bush, da NBC – e um tom sóbrio ao Emmy do dia 7. Saem de cena o tapete vermelho e o glamour dos figurinos. No lugar da estrela Ellen DeGeneres, quem fará a abertura é o jornalista Walter Cronkite."

 

"Paz no Oriente é o clichê da temporada", copyright O Estado de S. Paulo, 29/09/01

"O mundo não vai recuperar-se tão cedo do surpreendente e terrível ato terrorista que vitimou mais de 6 mil pessoas nos Estados Unidos. Tanto é que, desde o dia 11, o noticiário de todos os meios de comunicação assumiu outro perfil, que privilegia a cobertura internacional passando necessariamente pelos Estados Unidos e pelo Oriente.

A função do jornalismo é essa mesma: informar o público da melhor maneira possível sobre os desdobramentos de fatos importantes e conseqüências que ele traz para a sua vida. Esse papel a TV tem cumprido bem no âmbito do noticiário, mesmo diante da falta de imagens inéditas para ilustrar o caso EUA/Osama Bin Laden.

O vespertino Matéria Pública, da TV Cultura, por exemplo, ajuda o telespectador a decifrar o economês do noticiário convencional ao colocar no estúdio especialistas para esclarecer como o ataque provocou a alta do dólar e suas conseqüências no bolso do brasileiro.

O problema é a ?obrigação? que a TV assumiu como um todo em colocar o assunto em pauta, independentemente da vocação do programa. Assim, o que se viu na última semana foi uma overdose de mesas-redondas compostas invariavelmente pelo rabino Henri Sobel (em todos os canais em todas as horas do dia), um representante da religião islâmica, da católica e da espírita, discutir se os muçulmanos são sinônimo de terrorismo e outros temas afins.

Comandados pelo comunicador de plantão – Hebe, Luciana Gimenez, Adriane Galisteu, Ratinho, etc. – esses debates descambam sempre para um apelo piegas pela paz e pela união dos ?diferentes? povos.

Como que imbuídos da missão de promover a confraternização universal, esses programas lançam mão de um proselitismo tão mal arrumado (porque é totalmente desprovido de informação) que constrange o telespectador um pouco (pouquinho, só) mais crítico. A veemência dos discursos é tanta que parece capaz de convencer Bush a mudar de humor em relação ao Taleban.

Tal como uma praga, o lugar-comum dissemina-se de maneira irreversível e atinge até os mais inocentes. Como os atores do elenco de O Clone. Durante a festa de lançamento de O Clone, nova novela das 8 da Globo, Vera Fischer, Giovana Antonelli, Eliane Giardini, Murilo Benício, entre outros, foram estimulados pelos colunistas sociais eletrônicos e agregaram aos seus discursos a defesa da paz no Oriente e uma defesa capenga dos muçulmanos, cujo modo de vida foi apresentado durante locações da novela no Marrocos."

    
    
                     
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