Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES > AÇÃO AFIRMATIVA / EUA

Danny Schechter

Por lgarcia em 08/07/2003 na edição 232

MÍDIA / EUA

"O que sabem os americanos? Não muito", copyright O Estado de S. Paulo / Newsday, 7/07/03

"Milhões de americanos aceitam o que lhes dizem e pensam que entendem o que estão vendo. E, com a maior freqüência, o que lhes dizem e o que eles vêem são notícias parecidas com uma matéria-prima manipulada. Mas os fatos que realmente têm importância raramente chegam a um número significativo de olhos e ouvidos do público.

Além disso, a maioria dos comunicadores da informação sabe que os governos mentem, iludem e enganam.

Eles também sabem que a imprensa aparentemente existe para manter os olhos abertos sobre os governos, para dissecar os erros e omissões , oferecendo outras versões mais verídicas dos fatos. Este foi o papel que a mídia desempenhou, como adversária, no caso Watergate, durante a Guerra do Vietnã e até mesmo, embora a contragosto, durante o governo Clinton.

Hoje, nossa mídia abandonou esse papel histórico. A parte do público que se lembra dos grandes jornalistas do passado sabe disso. Até mesmo os grandes representantes do jornalismo o admitem.

Pouco antes de morrer, no dia 11 de junho, David Brikley disse a respeito do meio jornalístico que foi a sua vida: ?A tal ponto o noticiário da televisão tornou-se trivial e vazio de conteúdo que agora é pouco diferente do programa de entretenimento?. Mas muitas pessoas do público nem mesmo esperam que a mídia seja honesta em sua comunicação da informação. O caso Jason Blair, no New York Times, foi a ponta de um iceberg. Alguns jornais importantes, como The Boston Globe e The Washington Post foram humilhados no passado por revelações de que alguns repórteres falsificaram certas histórias.

Além da simples credibilidade, o sistema atual da mídia fundiu ?news biz?(o negócio da notícia) e ?show biz?(o negócio do entretenimento).

O que dá a compreensão (e a falta de compreensão) da notícia são as impressões e as imagens, mais do que a informação. Uma recente pesquisa Gallup constatou que 40% das pessoas acreditavam que haviam sido encontradas armas de destruição em massa no Iraque. Uma pesquisa anterior havia mostrado uma porcentagem semelhante de pessoas, segundo as quais, nos atentados de 11 de Setembro havia um seqüestrador iraquiano.

Em contraste, 44% do público na Inglaterra, onde a mídia tem uma atitude mais crítica em relação ao governo, disse à pesquisa Yongov do Daily Telegraph que acreditavam que o governo de Londres e o governo de Bush os havia iludido em relação à ameaça representada pelo Iraque.

Ao mesmo tempo, uma pesquisa da CNN/USA Today constatou que 56% dos americanos disseram que, embora jamais se venha a encontrar as tais armas de destruição em massa, a guerra foi justificada.

A ausência geral de uma comunicação abrangente e meticulosa da informação é particularmente lamentável agora que Washington está sob o controle de uma administração que levou as relações públicas ao reino do ?gerenciamento da percepção?.

Seus especialistas em comunicação, treinados em empresas, aperfeiçoaram uma máquina que trabalha 24 horas para coordenar todos os pronunciamentos oficiais. Eles cunharam e testaram frases de impacto. Eles querem garantir que nós regurgitemos suas frases simplificadas e saudemos suas posições patrióticas. Em seu mundo, a propaganda é passada ao público como marketing.

Concedamos que, por causa da televisão e da Internet, o número de fontes de informação à disposição do público explodiu. Mas ?a comunicação da notícia em profundidade? pela televisão é breve e efêmera e raramentne fica retida na mente do público. Os canais a cabo servem a um público mais selecionado.

Os sites da Web, mais diversificados, freqüentemente se limitaram a círculos restritos de pessoas interessadas.

As revistas, semanais ou mensais, de opinião, como The Nation, Atlantic Monthly, The New Yorker ou o Harper?s, podem comunicar a informação em genuína profundidade em questões de conseqüência, mas, em sua maioria, têm circulação relativamente pequena. Muitas delas apelam para um segmento de elite da população que elas pensam ser influente e numeroso, mas na realidade não é nenhuma coisa nem outra.

No caso dos jornais, provavelmente cerca de 2 milhões de pessoas lêem diariamente o mais conhediado diário da nação – The New York Times. Elas pensam que são um grupo influente e importante e acreditam que possuem o conhecimento de tudo o que acontece no mundo.

O que dá sentido à informação é o contexto, são os antecedentes. É a interpretação. Quando falta isso, como acontece com freqüência, falta também a compreensão."

 

"Quatro cantos", copyright Tribuna da Imprensa, 2/7/03

Quando eu era redator do ?Jornal do Brasil?, nos anos 1967-1975, certa vez recebemos ordens expressas da direção: ?Jamais escrevam `guerrilha? ou `guerrilheiro?. No lugar disso ponham `terrorismo? e `terrorista?. A ordem vinha do mais alto escalão da ditadura e o jornal se submetia. Perguntei: ?E guerrilheiros do passado como os da Resistência?? Resposta: ?Daqui para a frente, são >terroristas?.

Quem consultar jornais brasileiros da época (não só o JB, hoje cadáver insepulto, incapaz de morrer com um mínimo de dignidade) irá confirmar que ?guerrilhas? e ?guerrilheiros? foram banidos do vocabulário. Mas esta semana, numa conferência de imprensa do pomposo secretário da Defesa Donald Rumsfeld, ele copiou a ditadura brasileira. ?No Iraque não há guerrilheiros. Há terroristas? – proclamou.

Um repórter chato (ainda existem alguns) leu então uma definição de guerrilha do próprio Pentágono: ?Operações militares ou paramilitares conduzidas em território sob poder do inimigo ou território hostil por forças irregulares predominantemente locais?. E perguntou: ?Não é exatamente o que ocorre no Iraque?? E Rumsfeld: ?Não, não é?. Seguiu-se gargalhada geral – justo prêmio para o melhor programa de ficção e humorismo da TV americana."

 

"O Colunista Que Incomoda A Casa Branca", copyright Mídia Global (www.uol.com.br/midiaglobal) 6/07/03

"Ari Fleischer, o porta-voz da Casa Branca, fez uma careta de desdém ao ouvir o nome de Paul Krugman e se recusou a fazer comentários sobre este prestigiado economista da Universidade de Princeton que, como colunista do ?New York Times?, tornou-se o principal e mais contundente crítico do presidente George W. Bush, a quem chama de mentiroso.

– Ele não é muito lido aqui dentro – disse Fleischer.

Na verdade, a simples menção do nome do colunista na Casa Branca desperta reações imediatas, em geral na forma de palavrões, numa clara demonstração de que os artigos que ele escreve duas vezes por semana incomodam o governo. Krugman é hoje a figura que os republicanos, em geral, mais adoram odiar.

– Ele, na verdade, não faz análise e jamais permite que outro lado tenha razão em algo. Faz ataques pessoais e é sarcástico. As suas credenciais econômicas se evaporaram: Krugman se transformou num mero gladiador da esquerda – disse Lawrence Kudlow, economista de linha conservadora e comentarista da CNBC, estação de TV a cabo cujas análises são geralmente pró-Bush.

Denominado pela revista ?Washington Monthly? como ?o mais importante colunista político dos EUA?, e pela ?Editor & Publisher? como ?o colunista do ano?, Krugman tem despertado reações bruscas – se não enciumadas – de outros colunistas e inclusive de jornalistas que cobrem as atividades do governo. Eles geralmente o criticam dizendo que Krugman seria mais efetivo se fosse menos radical em seus artigos.

Segundo Nicholas Confessore, editor da ?Washington Monthly?, isso se deve basicamente ao fato de que aqueles jornalistas ?detestam contradizer os relatos que se cristalizam em torno de determinados políticos ou políticas de governo?:

– O que torna Krugman interessante é, em síntese, não apenas o motivo pelo qual ele critica, ou o que ele escreve para criticar o governo, mas sim a razão pela qual ninguém mais faz isso. Repórteres ou colunistas não têm a mesma atitude de Krugman porque, agindo como ele, estariam violando algumas das regras informais, mas estritas, sob as quais os jornalistas trabalham em Washington. Eles preferem comunicados oficiais – disse Confessore ao GLOBO.

Para James Carville, estrategista do Partido Democrata, a notoriedade de Krugman e o incômodo que seus artigos causam têm uma explicação:

– Ele vai contra as coisas mais básicas em que as pessoas e os jornalistas querem acreditar sobre Bush. Aceitar como corretos os fatos que Krugman registra faz com que os repórteres em Washington pareçam idiotas – disse ele.

O próprio Krugman explicou que não pretendia escrever tanto sobre Bush, mas que o comportamento dos jornalistas que cobrem o governo acabou levando-o a se dedicar a isso:

– O que é realmente impressionante aqui é o silêncio da mídia. Eu não queria continuar escrevendo sobre isso. Mas os repórteres parecem estar muito mais ocupados em caçar ratos e cachorros do que em ver o que os políticos dizem sobre as suas reais propostas políticas – afirmou ele.

Krugman transformou Bush no principal tema de seus artigos assim que ele venceu as eleições: ?A grande lição da campanha desse ano é a de que um candidato pode se safar dizendo coisas que se pode demonstrar que são falsas, contanto que as inverdades envolvam grandes cifras?.

Ao contrário dos repórteres do setor, e dos colunistas em geral, Krugman não faz a menor questão de ter contatos com políticos. Ele não vai a Washington e jamais troca idéias com funcionários do governo:

– Felizmente, ao mesmo tempo em que gosto de jogar com assuntos políticos, jamais fui capaz de levar muito a sério os responsáveis pelas políticas. Essa falta de seriedade ocasionalmente me causa problemas – gracejou o colunista.

?O governo tem mentido muito para todos nós?

Ultimamente ele tem dedicado o seu espaço para desancar o governo pela utilização de fatos falsos, duvidosos ou incompletos para justificar algumas decisões, notadamente a de invadir o Iraque. ?Direi a vocês o que é escandaloso. Não é o fato de que as pessoas critiquem o governo, e sim o fato de que ninguém está sendo responsabilizado por enganar a nação ao levá-la à guerra?, escreveu Krugman.

– Eu certamente estou zangado, porque me sinto ofendido quando mentem para mim. E o governo tem mentido muito para nós todos, e isso me assusta. Acho que estamos lidando aqui com níveis de irresponsabilidade que têm conseqüências reais – disse."

 

AÇÃO AFIRMATIVA / EUA

"Decisão que universidades entendem", copyright O Estado de S. Paulo / The New York Times, 6/07/03

"As duas decisões adotadas na semana passada pela Suprema Corte americana em dois casos envolvendo admissões na Universidade de Michigan não tiveram as características dramáticas de um marco judicial. Elas mantiveram a ação afirmativa, que facilita o acesso de minorias, como negros e latinos, à universidade.

Assim como a decisão anterior sobre admissões – o caso Bakke versus Universidade da Califórnia, em 1978 -, esta mais recente manteve a ação afirmativa no reino legal confuso que ela habita há 25 anos. Como no caso de Bakke, temos outro par de decisões apertadas, além de um padrão – considerações raciais valem, desde que não sejam feitas quantitativamente – que não parece lógico e é muito mais fácil de ser obedecido pelas ricas universidades privadas do que pelas combalidas universidades públicas.

Então por que as universidades, públicas e privadas, ficaram tão felizes com a decisão? Parte da resposta é que num passado recente, digamos 1995, uma irresistível e poderosa onda contrária à ação afirmativa parecia varrer o país. A decisão fornece uma aparente garantia de que a ação afirmativa nas admissões agora está assegurada por mais uma geração. Ter isso por escrito – e com força de lei – é sempre um alívio.

Outra resposta, menos óbvia, é que a decisão, ao confirmar o padrão do caso Bakke, chegou muito mais perto de alinhar a justificativa legal da ação afirmativa com as verdadeiras razões pelas quais as universidades a praticam – que pouco têm a ver com corrigir erros do passado ou dar vagas aos candidatos com as notas mais altas. Para entender por que as universidades gostam da decisão, é preciso entender sua cultura e entender como elas vêem seu lugar no mundo.

Muitos têm a impressão de que o governo americano forçou as universidades a adotar a ação afirmativa nos anos 60 e 70. Não foi assim. As universidades adotaram a ação afirmativa voluntariamente, com entusiasmo e paixão.

Quase ao mesmo tempo, as universidades também adotavam uma causa que acabaria se mostrando contraditória: o princípio da admissão por competição acadêmica aberta. Primeiro, instituíram testes de admissão para identificar os candidatos com maior potencial; depois começaram a descontar notas a fim de admitir mais estudantes de minorias (em particular, negros e latinos), porque os membros desses grupos, em média, se saem pior que os brancos nos exames.

Contradição – Como as universidades puderam abraçar dois princípios governantes diferentes, a diversidade e a meritocracia? Do ponto de vista das universidades, a contradição não é tão direta quanto parece. Durante a ascensão da ação afirmativa, seus padrões acadêmicos gerais normalmente melhoraram, tanto para os estudantes quanto para as faculdades, e assim não parecia que elas estavam abandonando o critério do mérito.

As universidades tampouco concordam com a visão do público, segundo a qual as admissões são um sistema de premiação, que precisa ser conduzido com absoluta justiça para cada candidato.

Autonomia – Em vez disso, as universidades se consideram refinadas instituições autônomas, que, de uma forma singular, combinam fragilidade e durabilidade – as universidades antecedem tanto a democracia como o capitalismo. Seu compromisso com algo que parece idealista – a busca e disseminação do conhecimento – lhes confere autoridade, independência e fascínio incomuns.

A razão pela qual tantas pessoas querem (ou deveriam querer) estudar nas grandes universidades é absorver a cultura universitária; as instituições, incluindo as públicas de elite como a Universidade de Michigan, escolhem candidatos que possam fortalecer ao máximo sua cultura. A idéia de que as universidades deveriam ser forçadas, em nome do mérito individual, a usar critérios quantitativos externos para selecionar seus alunos é uma violação profunda de sua auto-definição.

Nicho especial – Assim, é importante que a juíza Sandra Day O?Connor tenha escrito em seu parecer que ?as universidades ocupam um nicho especial em nossa tradição constitucional? e tenha proposto que as disputas legais deveriam ser vencidas pelas universidades porque elas merecem ser deixadas em paz. Ela justificou a a&ccediccedil;ão afirmativa não para corrigir um erro do passado, mas sim para espaço para manobra a esta categoria de instituições.

A defesa da Universidade de Michigan (o acusado nomeado, Lee Bollinger, então presidente da Universidade de Michigan e agora presidente da Universidade de Colúmbia, em breve será meu chefe) apoiou-se firmemente na idéia da ?diversidade? – isto é, os benefícios educacionais inerentes a um corpo estudantil racialmente integrado – por não ter outra opção. A diversidade foi a única justificativa pela qual o então juiz Lewis F. Powell Jr., em sua decisão no caso Bakke, aceitou as preferências raciais conferidas pela ação afirmativa.

O?Connor aceitou o argumento da diversidade e o citou com mais força e sentimento que Powell. Mas a juíza acrescentou uma nova e importante justificativa que reflete com muito mais precisão o atrativo da ação afirmativa para as universidades: as universidades seletivas estão envolvidas, em parte, no treinamento de um grupo de líderes da sociedade, e uma sociedade com tensões raciais e étnicas poder ser beneficiada enormemente por uma liderança integrada.

Liderança – A correlação não é a causa, mas a era da ação afirmativa criou uma estrutura multirracial em vários setores – algo que poucas sociedades do mundo conseguiram – e as relações raciais claramente melhoraram. As universidades assumem há séculos o papel de treinar líderes para melhorar a sociedade, portanto estão totalmente à vontade com este argumento. Ele também mostra a ação afirmativa como uma força corrigindo problemas atuais, o que é uma justificativa muito mais sólida do que uma força corrigindo problemas antigos que não existem mais.

O juiz Clarence Thomas, em seu parecer dissidente com sabor populista, argumentou contra a idéia de que as universidades devem ter um papel na seleção das elites da sociedade.

Porém, no mundo em que vivemos, as elites existem, e as universidades ajudam a criá-las. As universidades agora têm a permissão expressa da Suprema Corte para conduzir o processo visando ajudar a resolver um grande problema da sociedade americana.

Diversidade – Antes do advento da ação afirmativa as universidades eram esmagadoramente brancas e o punhado de estudantes das minorias tinha de ficar quieto e adaptar-se à cultura majoritária. Não havia um encontro cultural verdadeiro, apenas o ajuste silencioso dos poucos estudantes das minorias.

Agora parecemos ter chegado a um consenso nacional sobre a ação afirmativa no qual todos, do presidente Bush para baixo, gostam do resultado de uma liderança integrada, mas consideram desagradável a maneira como ela foi obtida, e portanto não querem saber demais sobre os detalhes. Como aconteceu freqüentemente em sua história, a Suprema Corte encontrou um modo de consagrar o consenso com autoridade judicial. (Nicholas Lemann, redator da revista ?The New Yorker? e autor de ?The Big Test? (O Grande Teste), assumirá em setembro o cargo de reitor da Escola de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade de Columbia )"

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