Terça-feira, 19 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > BUSH & MÍDIA

David Daley

Por lgarcia em 31/01/2001 na edição 106

MONITOR DA IMPRENSA

BUSH & MÍDIA

"Boa relação com imprensa é crucial para governo", copyright O Estado de S. Paulo / The Hartford Courant, 25/01/01

"Quando o pai de George W. Bush disputou um segundo mandato na Casa Branca oito anos atrás, gostava de exibir seu adesivo de campanha preferido: ‘Aborreça a mídia: reeleja Bush.’ Mas, com o próprio W. Bush agora na Casa Branca, os conservadores preparam-se para quatro anos de aborrecimentos causados pela comunidade jornalística de Washington, que quase unanimemente tende a favorecer mais o campo democrata que o republicano e gosta de inserir nas matérias sobre o novo presidente palavras manhosas como ‘herdar’ e ‘empanar’.

‘Geralmente, os padrões de tratamento usados pela imprensa são diferentes, e costumeiramente mais elevados, quando se aplicam a um republicano’, diz Rich Lowry, redator-chefe da National Review, influente revista semanal conservadora. ‘O exemplo agora é Hillary Clinton e seu acordo para um livro, em oposição ao de Newt Gingrich. É algo que permitiria que se adotasse o mesmo tom ultrajado da cobertura dada a Newt, mas isso não ocorre. Penso que é o tipo de tendenciosidade que vocês vão ver no caso de Bush, a tendenciosidade dos dois pesos e duas medidas.’ O debate tendencioso é mais velho que Tucídides, ou, pelo menos, Spiro Agnew. E, excetuado algum tipo de sentença da Suprema Corte que resolva a situação, ele não vai ser decidido logo.

Liberais dizem que a mídia é centrista e tímida, uma elite pertencente às grandes empresas. Conservadores afirmam que ela é uma elite liberal, muito desligada dos EUA que existem entre os dois litorais. Embora haja certa verdade nas duas afirmações, a realidade é mais complexa.

‘Não acredito na crítica da esquerda ou na crítica da direita sobre as distorções da mídia pertencente a grandes empresas’, disse Paul Begala, antigo conselheiro do ex-presidente Bill Clinton. ‘As distorções são claras:

preferência por escândalo em vez de substância, e busca interminável dos motivos mais baixos e de qualquer tipo de politicagem, em vez do enfoque em programas governamentais.’

‘Repórteres não são ativistas políticos’, disse, por sua vez, Brit Hume, diretor-administrativo em Washington do Fox News Channel e um dos poucos republicanos na comunidade jornalística da capital americana. ‘Eles não tentam conscientemente promover a agenda de um político ou de um partido em detrimento de outra. A coisa não funciona dessa forma. O processo é muito mais sutil e muito mais difundido. Certos ideais são defendidos universalmente, mesmo que não sejam buscados ativamente. Há comentaristas conservadores, mas bem poucos repórteres conservadores trabalhando nas ruas.’ Hume acrescentou: ‘É difícil encontrar em Washington um repórter contrário ao aborto. É difícil encontrar um repórter que não se preocupa com a proteção ambiental. É difícil encontrar um repórter que não considera reduções tributárias uma tentativa de ajudar os ricos à custa de todos os demais. A religião de Joe Lieberman é um ponto a seu favor. As convicções religiosas de John Ashcroft estão sendo usadas por muita gente que se opõe a ele. O negócio é assim.’

E essa é a Washington em que George W. Bush entrou: uma cidade em que a maioria dos repórteres não votou nele e não compartilha seus ideais, mas não vai adotar uma hostilidade agressiva, a menos que fareje um escândalo. Mas, com o Congresso tão precariamente sob controle dos republicanos e o país dividido quanto a aspectos-chave do programa de Bush – reforma do ensino, cortes de impostos, possível privatização de segmentos da previdência social -, o presidente precisará trabalhar com essa comunidade jornalística para comunicar-se e reunir apoio, se quiser ter êxito."

"Clinton aprendeu rapidamente a não ignorar jornalistas", copyright O Estado de S. Paulo / The Hartford Courant, 25/01/01

"Repórteres que vão cobrir a Casa Branca para os maiores jornais dos Estados Unidos e seus principais periódicos de opinião perguntam se George W. Bush está à altura da tarefa de entender-se com a mídia. ‘Bush orgulha-se de manter a imprensa na ignorância, e essa é uma idéia muito ruim’, assinalou Tucker Carlson, da TV CNN.

‘Eles (os os republicanos) já caíram nessa’, disse Rich Lowry, da revista National Review. ‘São muito sigilosos e têm muito medo de vazamentos’, acrescentou. ‘Mas é preciso alimentar a fera (a mídia), pois do contrário ela vai mordê-lo de um modo impossível de imaginar.’

Para comprovar isso, Bush não precisa ir além do ex-presidente Bill Clinton, do Partido Democrata.

Clinton assumiu a presidência em 1993, depois de uma campanha em que passou por cima da cabeça da comunidade jornalística itinerante e foi direto à MTV e a Arsenio Hall. Mas, quando Clinton e auxiliares como George Stephanopoulos tentaram governar dessa forma – quando, literalmente, fecharam a porta entre a sala de encontros com a imprensa e o escritório de mídia -, a operação-tartaruga da imprensa contribuiu tanto para a ineficácia inicial do governo que Stephanopoulos perdeu o cargo para o mestre de comunicações dos republicanos, David Gergen. E, em questão de dias, Clinton estava bancando o bonzinho, dando um churrasco à mídia nos jardins da Casa Branca."

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