Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Débora Cronemberger

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

O POVO

"Teste de pesos e medidas", copyright O Povo, 30/9/01

"Os atentados terroristas nos Estados Unidos marcaram de forma dramática o início de um novo capítulo da História. Para a imprensa mundial, a cobertura do fato e de suas conseqüências será um grande teste de responsabilidade e compromisso com a notícia, com o dever de informar – e de informar bem. E o que necessariamente significa informar bem? Eis uma questão que contempla inúmeras respostas subjetivas, partindo de visões diferentes de edição e de curiosidades distintas de leitores.

Na última semana, O Povo trouxe um assunto que, sim, considero interessante. Mas há que se refletir sobre os destaques que cada informação merece. Na edição da última segunda-feira, por exemplo, O Povo escorregou ao dar a manchete de página à seguinte notícia: ?Maranhense que mora na Arábia é cunhada de Laden?, numa referência ao saudita Osama bin Laden, acusado pelos Estados Unidos de estar por trás dos atentados que mataram milhares de pessoas no dia 11 de setembro. No texto da matéria, há entrevista com a prima da cunhada do acusado de ser terrorista. É um encadeamento de relações que parece brincadeira. Essa prima, por sinal, mora em Goiânia, foi entrevistada pelo programa Domingo Legal, apresentado por Gugu Liberato. Ela declarou diversas vezes, tanto na televisão quanto em jornais, que não tem maiores informações sobre a cunhada brasileira de Osama bin Laden. Na verdade, nunca chegou a conhecê-la pessoalmente.

Essa relação é notícia? Acredito que sim, uma vez que é um dado curioso sobre brasileiros que, de alguma forma, estão ligados aos atores principais dessa situação tensa mundial. Só que essa ligação é tão distante, tão vaga, que merecia no máximo ser inserida em matéria com outras informações. Dar manchete de página a isso é apostar num material que não se sustenta por si só. A chefe de Redação, Fátima Sudário, concordou que o destaque daquela página deveria ter sido direcionado para outra informação. ?Foi uma prioridades das mais infelizes essa da manchete à prima da cunhada?, comentou.

Questionamento sobre excessos

Na semana passada, recebi observações de dois leitores que consideram que a imprensa em geral está exagerando no material sobre os atentados. Ambos disseram que estão fartos de ver e/ou ler notícias sobre o terrorismo e ressaltaram que há muitos outros assuntos que merecem atenção da mídia. Se a imprensa deixa de noticiar outros assuntos fundamentais, aí sim, a cobertura precisaria ser redimensionada com urgência. Mas os atentados não podem ser vistos como um fato isolado que aconteceu há quase três semanas, como se a continuidade de cobertura sobre o tema fosse uma insistência descabida na falta de melhor material para publicação.

Os fatos acontecidos em 11 de setembro são de tamanha magnitude que realmente abalaram a ordem mundial – e essa conclusão é compartilhada mesmo por pessoas que não costumam se espantar publicamente diante de outras situações graves. O cenário pós-atentados ainda está longe de se consolidar. Ainda haverá muitas conseqüências sociais e econômicas, que nem de longe ficarão restritas aos países diretamente envolvidos nessa anunciada guerra contra o terror.

Aqui no Brasil, os desdobramentos já se disseminam, refletindo sobre áreas distintas. Vou dar dois exemplos. Um é o reflexo econômico. Já foi anunciado o aumento de preços de produtos básicos, como pão e gasolina, cujos valores sofrem influência com as variações do dólar. A cotação da moeda americana teve aumentos sucessivos no Brasil imediatamente após os ataques. Outro desdobramento que podemos ter como exemplo é o político: o PFL já vem citando, em propaganda eleitoral, o que aconteceu nos Estados Unidos como um exemplo dos males provocados por radicalismos. Trata-se de uma provocação clara de como será o tom do discurso durante a campanha do próximo ano. Por tudo isso, não considero que esteja havendo algum exagero sobre o sucessivo destaque na imprensa. O noticiário só não pode se limitar a isso.

Esquecimento infeliz

A coluna Melhor Idade, publicada toda quinta-feira, é voltada para os leitores da terceira idade, trazendo dicas que possam melhorar a qualidade de vida. Por isso mesmo a falha é grande: na última quinta-feira foi comemorado o Dia Nacional do Idoso. Na quinta-feira não houve matéria no jornal sobre o assunto, com o serviço de programação, por exemplo. O jornal trouxe matéria apenas na última sexta-feira. O pior foi que a coluna, com esse público leitor bem específico, também não fez qualquer referência à data comemorativa. Aliás, fez, mas citando a data errada (1? de outubro).

Ausência da coluna

O jornal deixou de explicar, no último domingo, a razão de não ter sido publicada a coluna Ombudsman. O motivo é que entre os dias 19 e 22 deste mês estive em Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco, participando do Encontro Nacional de Ouvidores/Ombudsman. Cerca de 300 ouvidores estiveram presentes ao evento, que discutiu, em um dos painéis, a experiência do ombudsman na imprensa.

A princípio o painel previa a participação também do ombudsman da Folha de S.Paulo, Bernardo Ajzenberg, que de última hora não pôde comparecer. A discussão aconteceu, então, a partir das experiências no O Povo, com o meu depoimento e o do ex-ombudsman Lira Neto.

Entre os presentes ao encontro, uma certeza sobre o trabalho de ombudsman na mídia: a imprensa vai ganhar mais credibilidade e ser muito mais transparente quando este tipo de função deixar de ser a exceção à regra. É refletindo permanentemente sobre o nosso trabalho que podemos torná-lo melhor para nossos consumidores, os leitores."

    
    
                     

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