Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Débora Cronemberger

Por lgarcia em 17/10/2001 na edição 143

O POVO

"Limite para certas informações", copyright O Povo, 14/10/01

"Na edição do último domingo, O Povo publicou uma matéria que trata de um assunto importante, como alerta para escolas e pais: brincadeiras perigosas de crianças. Na semana passada, observei, no comentário interno do jornal, que considerei um erro a publicação do quadro ?Brincadeiras arriscadas?, onde eram explicadas, com detalhes, as brincadeiras de crianças que poderiam causar danos para a saúde.

É um exemplo de como o papel de informar precisa ser limitado em determinadas circunstâncias, em nome do bom senso. Certamente o objetivo do jornal foi repassar para o leitor os tipos de brincadeiras que são perigosas e que precisam ser evitadas pelos orientadores educacionais. O problema é que foi criada uma situação contraditória: o jornal publicou o material para alertar sobre os problemas, mas deu a ?receita de bolo? para crianças que eventualmente tenham lido a matéria. Seria o mesmo que publicar um quadro explicativo sobre a ação mais freqüente de assaltantes de carros, dando detalhes sobre os procedimentos. Mesmo que a matéria tenha por objetivo esclarecer os leitores sobre os cuidados que deve ter para evitar o roubo do carro, novamente seria criada uma situação contraditória, uma vez que a ?receita? do arrombamento estaria disponível para pretensos interessados por intermédio do jornal.

Associação que provoca constrangimento

No final da semana passada, outro problema na matéria foi levantado, dessa vez pelo diretor da escola Tia Léa, Guilherme Sampaio. Ele alertou para uma questão que não configura exatamente um erro, mas precisa servir como reflexão para editores. A matéria tinha a seguinte manchete: ?Brincadeiras perigosas?. A foto que ilustrava a matéria, logo abaixo da manchete da página, mostrava crianças. Na camisa delas, havia uma discreta referência à marca da escola Tia Léa. Foi o suficiente para que o diretor recebesse questionamentos de pais de alunos, preocupados com a freqüência desse tipo de brincadeira na escola.

Para quem se preocupou em ler a matéria, percebeu que não há qualquer referência negativa para a escola. A própria legenda abaixo da foto era neutra: ?Atividades no recreio devem ser orientadas por supervisores e educadores?. O problema é que ainda assim a associação imediata da imagem com a manchete provocou prejuízo. O diretor da escola deu um bom exemplo para ilustrar o constrangimento que essa situação pode provocar. ?Imagina se fizéssemos um jornalzinho com a manchete Picaretagem na Imprensa e colocássemos uma foto onde constasse a marca do O Povo. Mesmo que a matéria não acusasse o jornal em nada, ou mesmo que fizesse elogios, a associação imediata da foto com a manchete provocaria constrangimento?, avaliou.

O diretor tem razão. O editor-executivo do O Povo, Carlos Ely, também considerou que o caso deve provocar uma reflexão por maiores cuidados. ?Se alguém ler a matéria, verá que não há sequer registros de casos no Tia Léa, mas concordo com a observação do diretor. Por mais que não tenha havido erro, ou o propósito de complicar a situação de ninguém, uma edição pode levar a leituras precipitadas.?

Cuidados na cobertura da guerra

É importante reconhecer os bons resultados na cobertura do O Povo sobre a guerra. Há uma cobertura diversificada, contextualizada, com direito a furos inclusive em agências nacionais de notícias, como foi o caso da entrevista publicada na última semana com um membro da equipe Médicos Sem Fronteiras no Paquistão. Em uma decisão que considero importante, o jornal não vem utilizando a expressão ?Guerra contra o terror?, que vem sendo tão disseminada pelos Estados Unidos. O uso dessa expressão poderia legitimar erros e excessos das ações dos Estados Unidos e seus aliados, já que muita gente que não tem nada a ver com terrorismo certamente vai pagar caro pelos terríveis atentados de 11 de setembro.

Nesses tristes tempos de guerra, com informações desencontradas vindas dos dois lados envolvidos, todo cuidado é pouco para que possamos evitar manchetes delicadas como algumas publicadas no O Povo na semana passada. No exemplar da última segunda-feira, que trazia a cobertura sobre os primeiros ataques dos Estados Unidos em retaliação aos atentados, O Povo trouxe um material sobre a guerra com alguns deslizes significativos de edição.

Conclusões precipitadas

Na página com as últimas notícias da edição, estava estampada a seguinte manchete: ?Ataques foram precisos e não há vítimas civis?. A matéria usava como fonte a milícia afegã que combate o Talibã. A fonte da matéria é a oposição ao Talibã, ou seja, de aliados dos Estados Unidos. Mesmo sendo afegãos e naturalmente tendo interesses de que não haja morte de civis, os opositores que compõem a oposição ao Talibã apóiam os Estados Unidos. Não se esperaria deles uma atitude crítica aos ataques dos americanos e seus aliados.

O Talibã contou uma história diferente. Disse que pelo menos 20 civis morreram no dia em que aconteceram os primeiros ataques no país. Portanto, o jornal não poderia ter afirmado de forma alguma a inexistência de vítimas civis, a não ser que a manchete estivesse entre aspas (o que configuraria uma declaração de terceiros) ou que informasse a fonte da notícia (a oposição afegã).

Outro ponto delicado foi outra manchete onde se lia ?Terror sob bombardeio?. Os Estados Unidos podem até ter toda uma estratégia de combate ao terror, com uma máxima preocupação de não afetar civis ou pessoas que não têm nada a ver com terrorismo, mas eles estão sujeitos a sérios erros a qualquer momento. Embora o alvo seja o terror, quem está sob bombardeio é o Afeganistão, como bem informou a manchete da capa do jornal do mesmo dia."

    
    
                     

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