Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Débora Cronemberger

Por lgarcia em 31/10/2001 na edição 145

O POVO

"Cautela quanto a suspeitas", copyrirght O Povo, 28/10/01

"Suspeita é sinônimo para simples conjetura, suposição. Como tal, não pode receber o mesmo tratamento jornalístico de um fato comprovado. O Povo embarcou numa suspeita para dar uma manchete conclusiva na capa do dia 20. A manchete da primeira página destacava: ‘Carta com antraz chega ao Brasil’, relatando o recebimento de envelope, na sucursal carioca do jornal americano New York Times, que a princípio estaria contaminado pelo vírus antraz. Ao contrário da capa, a manchete da página interna do O Povo apresentava uma informação fiel aos fatos, ‘NY Times recebe pó suspeito no Rio’.

A qualquer tempo, ainda mais em meio a uma guerra peculiar (o combate ao terrorismo não é fundamentada no conflito formal entre nações), toda prudência jornalística é necessária para evitar a disseminação de boatos e especulações que provoquem mais pânico. Prudência anula a competência jornalística, sempre baseada na agilidade e voltada para chegar à informação na frente dos concorrentes? Claro que não. Pode até atrasar o processo da feitura do jornal, mas ser prudente nesses tempos incertos é uma obrigação da qual não podemos fugir, sob o risco de aumentarmos a paranóia que já existe, diante de fatos comprovados ou não.

O caso do New York Times é um grande exemplo. O chefe da sucursal carioca, Larry Rohter, recebeu uma carta, postada de Nova York, que considerou suspeita. Preocupado, enviou a correspondência à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) para análise. O primeiro exame apontava para a existência de bactérias. Nenhuma conclusão sobre o antraz, vírus que já infectou várias pessoas nos Estados Unidos e provocou a morte de algumas delas. Mas esse dado preliminar já levou jornalistas do New York Times a tomar Cipro, o medicamento indicado para antraz.

‘Era uma informação forte no mesmo dia em que tínhamos a confirmação de um caso na Argentina’, comentou o diretor-executivo da Redação, Arlen Medina. ‘Felizmente o caso foi desmentido no início da tarde do sábado – quando toda a edição de venda avulsa do domingo já estava fechada. A Redação aproveitou o segundo clichê, anteriormente previsto, para corrigir a informação na capa, baseada nos exames da Fundação Oswaldo Cruz.’

Erro compartilhado

Não foi apenas O Povo que embarcou nessa ‘barriga’, termo jornalístico que indica a publicação de um grande erro de informação. O Estado de S.Paulo deu a manchete: ‘Repórter do ‘Times’ no Rio recebe carta com antraz’. O Globo foi mais cuidadoso, destacando a manchete: ‘Ameaça de antraz no Rio’. A Folha de S.Paulo foi mais cauteloso ainda: ‘NY Times no Rio de Janeiro recebe carta com bactéria’. De fato, a carta continha bactérias, mas inofensivas à saúde, que podem ser encontradas no solo e até na pele, segundo o presidente da Fiocruz, Paulo Buss.

A opção correta para O Povo, bem como para os outros veículos, teria sido tratar a suspeita como ela deve ser tratada. Ou seja, como suspeita. ‘ Este caso trouxe um debate interno e estamos redefinindo critérios mais rígidos para a divulgação de informações ainda não consolidadas’, afirmou o diretor-executivo. Afinal, como disse o editorial do O Globo do último domingo, é dever da mídia separar o fato do boato.

Simpatizar não é apoiar

Ainda na edição do dia 20, O Povo trouxe outra manchete polêmica, ‘Apoio de Ermírio a Tasso deve dar novo realce à sucessão’. O problema é que a manchete deu como certa uma situação que a própria matéria reconhece como indefinida. Segundo disse a matéria, o empresário Antônio Ermírio de Moraes, um dos mais importantes do país, disse ter simpatia pela provável candidatura do governador Tasso Jereissati na sucessão presidencial. Da mesma forma que elogiou Tasso, Antônio Ermírio fez referências positivas ao ministro José Serra, outro dos pré-candidatos a presidente pelo PSDB. O empresário conclui que ainda não tem candidato a presidente.

A manchete equivocada gerou protestos de leitores. De fato, entre manifestar simpatia e confirmar apoio, há uma boa distância. A Redação admitiu que a manchete foi equivocada. ‘O termo mais preciso seria simpatia, e não apoio, como foi noticiado’, disse Arlen Medina.

Erro no editorial

Na última terça-feira, o editorial do O Povo tratou dos conflitos entre palestinos e judeus, questão intrinsecamente ligada à guerra contra o terrorismo. Um leitor ligou para comentar que o jornal tem todo o direito de se manifestar a favor da causa palestina, desde que trate de informações corretas. O editorial afirmou: ‘A hora é de exigir que as grandes potências corrijam o erro cometido em 1948, quando não forçaram Israel a aceitar a criação de um Estado palestino.’ O leitor comentou: ‘Israel havia concordado com a criação do Estado, só que a recusa foi feita pelos próprios palestinos’, afirmou.

No Almanaque Abril, uma pequena retrospectiva que confirma o comentário do leitor: ‘No fim da II Guerra Mundial, aumenta o apoio internacional à criação de um Estado judaico com a notícia do massacre de cerca de 6 milhões de judeus nos campos de extermínio nazistas. Encerrado o conflito, os britânicos delegam à Organização das Nações Unidas (ONU) a tarefa de solucionar os problemas da região. Sem uma consulta prévia aos árabes palestinos, a ONU aprova, em 1947, a divisão da Palestina em dois Estados – um para os judeus, outro para os árabes. Estes, porém, rejeitam o plano. Em 14 de maio de 1948 é proclamado o Estado de Israel. Cinco países árabes enviam tropas para impedir sua criação. A guerra termina em janeiro de 1949, com a vitória de Israel e o desaparecimento do Estado árabe-palestino previsto pela ONU.’"

    
    
                     

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