Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Débora Cronemberger

Por lgarcia em 05/12/2001 na edição 150

O POVO

"Retrato da cobertura da violência", copyright O Povo, 2/12/01

"Na última sexta-feira à tarde, recebi uma pesquisa extremamente importante sobre a cobertura jornalística a respeito do tema ?Violência?, quando envolve crianças e adolescentes. O estudo, chamado ?Balas Perdidas?, resultou de análise de um grupo de consultores técnicos organizado pela Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI). Foram cruzadas informações de reportagens publicadas em 46 jornais de 24 Estados em um período de 12 meses (1? de julho de 2000 a 30 de junho de 2001). O Povo e o Diário do Nordeste foram os jornais cearenses incluídos na lista dos veículos analisados.

O trabalho produzido e editado pela ANDI envolveu colaboradores de peso, como o Ministério da Justiça, o Unicef e o Instituto Ayrton Senna. Trouxe à tona conclusões provocadoras, que revelam que há um longo caminho para que a imprensa em geral tenha mais compromisso em matérias contextualizadas, com riqueza de fontes e discussão de soluções, para que o público leitor não corra o risco de ser informado pela metade. Por uma questão de viabilidade, esta coluna vai precisar se ater a poucos tópicos do estudo, que não deixará, no entanto, de continuar sendo uma fonte rica de dados para futuras análises.

Duas perspectivas de discussão

Dois grupos de reportagens foram selecionadas para compor o universo analisado no estudo. O primeiro grupo reuniu matérias sobre infância e adolescência nos jornais. Durante 12 meses, os 46 principais jornais (*) do país produziram 14.905 inserções pautadas pela temática Violência. Neste primeiro grupo, a média nacional de inserções sobre o tema foi de 30 pontos, o que é uma média baixa levando em consideração que são 30 pontos num máximo de 100. Nesta primeira análise, O Povo teve uma média acima da nacional, ocupando o 12? lugar no ranking dos veículos, com 32,6 pontos. Para efeito de comparação, o primeiro colocado foi o Jornal do Tocantins, com 39,1 pontos. O Diário do Nordeste, o outro jornal cearense incluído no estudo, ficou em 42? lugar, com 24,7 pontos. O último colocado foi a Tribuna de Alagoas, com 20 pontos.

O outro grupo de reportagens analisadas pelos consultores compreendeu um tipo de publicação específica: as revistas e suplementos dos jornais voltados ao público adolescente. Um importante mérito do O Povo é que ele aparece como o primeiro colocado nacional nesta categoria de análise. Durante os 12 meses da pesquisa, os 46 jornais produziram um volume de 10.940 inserções sobre temas voltados para o público jovem. A média nacional de inserções foi de 57,3 pontos, num máximo de 100. O Povo ficou em primeiro lugar, com 75 pontos. Em segundo lugar, o suplemento Folhateen, da Folha de S.Paulo, com 70,8 pontos.

Cenário preocupante

O que assombrou os consultores reunidos pela ANDI é que o resultado geral foi considerado muito desalentador. Mais do que a baixa média geral de inserções sobre temas voltados para criança e adolescente, especialmente com o tema Violência, o estudo organizado pela ANDI aponta falhas que comprometem a qualidade da cobertura. Resumindo, não é só a baixa quantidade em geral de matérias que chama a atenção, mas também a baixa qualidade. A pesquisa aponta que há um enorme esforço para ser desenvolvido na educação dos jornalistas para a cobertura ideal dos temas de violência envolvendo jovens e adolescentes como vítimas ou agentes.

O estudo diz: ?A quantidade de reportagens descritivas oferecida cotidianamente ao leitor indica que ele está sendo informado pela metade, quando muito. Isso acontece porque as reportagens, salvo honrosas exceções, são:

  1. desprovidas de contextualização;
  2. não investigam as causas da Violência;
  3. não procuram pelas soluções;
  4. priorizam a descrição dos atos violentos, o que as imagens de TV podem fazer com mais competência (ainda que seja igualmente desnecessário);
  5. transformam o fenômeno social da Violência em casos de polícia;
  6. a imprensa vira porta-voz das delegacias e os Boletins de Ocorrência (BO) se tornam fontes prioritárias dos jornalistas;
  7. não responsabilizam o Poder Público, porque raramente é procurado;
  8. não cobram a ausência de Políticas Públicas.?

São conclusões que merecem uma reflexão demorada, de maneira que a mídia em geral se aperfeiçoe e ofereça matérias dentro de um contexto social, não tratando de assuntos de violência como uma mera sucessão de fatos, como observa a ANDI.

(*) Jornais analisados no estudo ?Balas Perdidas?: A Crítica (AM), A Gazeta (AC), A Gazeta (MT), A Tarde (BA), Correio de Paraíba (PB), Correio Popular (SP), Diário da Amazônia (RO), Diário da Tarde (MG), Diário de Cuiabá (MT), Diário de Natal (RN), Diário de Pernambuco (PE), Diário do Nordeste (CE), Diário do Pará (PA), Diário Popular (SP), Estado de Minas (MG), Folha do Estado (PR), Folha de S.Paulo (SP), Gazeta de Alagoas (AL), Gazeta do Povo (PR), Hoje em Dia (MG), Jornal de Brasília (DF), Jornal do Brasil (RJ), Jornal do Commercio (PE), Jornal da Tarde (SP), Jornal do Tocantins (TO), Meio Norte (PI), O Dia (PI), O Dia (RJ), O Estadão do Norte (RO), O Estado de S.Paulo (SP), O Estado do Maranhão (MA), O Globo (RJ), O Imparcial (MA), O Liberal (PA), O Norte (PB), O POVO (CE), Tribuna da Bahia (BA), Tribuna de Alagoas (AL), Tribuna do Norte (RN), Zero Hora (RS).


Outra visão, novo desafio

A próxima ombudsman do O Povo ficou definida na última semana. A editora-executiva do Núcleo de Negócios do O Povo, Regina Ribeiro, vai assumir a função no dia 7 de janeiro, data de aniversário do O Povo. Formada em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e com pós graduação em Economia pela UFC, Regina trabalha há 11 anos no O POVO. Foi repórter e teve experiência de edição em Cidades (hoje Editoria Fortaleza), Política e Economia. Para Regina, sucesso nessa nova empreitada."

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