Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Débora Cronemberger

Por lgarcia em 12/12/2001 na edição 151

O POVO

"Acusações repetidas e não investigadas?", copyright O Povo, 9/12/01

"Um dos assuntos que têm ganhado manchetes de jornais na última semana é a CPI instalada na Assembléia Legislativa para apurar denúncias de irregularidades no BEC. Vários depoimentos já tomados pelos deputados estaduais apontam um cenário de administração bancária no mínimo confusa. Os auditores encontraram créditos sendo concedidos pelo BEC sem análise do comitê de crédito, acima da capacidade de pagamento do titular, com garantia insuficiente inadequada ou inconsistente e por aí vai.

O esclarecimento da situação real do BEC é mais do que importante, é fundamental. A imprensa tem cumprido com competência seu papel de bem informar ao esmiuçar todas as questões envolvidas na CPI. Dinheiro público é assunto de interesse público. Seguindo a mesma lógica, como explicar, então, que a imprensa não venha tratando de polêmicas tão ou mais graves a respeito de outro banco? Desta vez, me refiro ao Banco do Nordeste (BN), banco de alcance e influência muito superiores ao BEC.

Essa nova análise teve como provocação uma nota paga publicada, na última quinta-feira, pela Associação dos Aposentados do Banco do Nordeste (AABNB). A nota, outra em meio a tantas já publicadas, toca na mesma tecla de que o BN vem realizando operações incompatíveis com o que a lei determina. Se há tanta insistência (várias notas publicadas) em torno de questões do BN, algo necessariamente está errado. Ou há uma campanha orquestrada para desestabilizar a qualquer preço a diretoria do banco ou há um sucessivo descumprimento de leis da parte do BN. Ambas as hipóteses são nocivas para a sociedade, por isso, exigem esclarecimentos.

Observei na crítica interna de quinta-feira: para não incorrermos na velha história de que trata-se de uma briga pessoal a partir de servidores que tiveram salários e benefícios cortados, vamos aos fatos. A nota fala de uma novidade: a empresa Austin Asis, analista de risco de bancos, teria classificado o Banco do Nordeste como o de pior desempenho entre os bancos públicos. ?A questão que salta aos olhos é que tal colocação considera os dados fraudados?, ressalta a nota. Esses dados têm por base as contradições entre o balanço publicado pelo BN e a avaliação feita por auditores independentes.

Informações destoantes

Esse mesmo assunto foi o tema desta Coluna em maio: ficou evidente a contradição entre o balanço do BN e a análise dos auditores independentes, que, por determinação do Banco Central, são dados que devem ser publicados lado a lado. O BN apontou um lucro líquido de R$ 57,16 milhões no exercício de 2000. Já os auditores independentes apontaram que o banco deixou de lançar R$ 1,3 bilhão como despesa. Se tivesse feito esse lançamento, o banco estaria com um patrimônio líquido negativo de cerca de R$ 300 milhões, situação inadmissível em instituições financeiras.

Para o leitor que não é especialista em economia, assim como eu, pode ser que o cenário seja um pouco árido. Mas o assunto é importante. Estamos falando de uma instituição cujo enfraquecimento não interessa a ninguém ? aliás, quem disse que discutir supostas falhas e aspectos polêmicos signifique um golpe contra a instituição? Se assim fosse, a função de ombudsman seria um enorme erro estratégico do jornal. Sabemos que é exatamente o oposto: é uma iniciativa que demonstra transparência e compromisso de querer se aperfeiçoar sempre.

Mas voltando aos fatos em torno do BN. Tantos questionamentos são material riquíssimo para investigação. ?O banco está com passivo a descoberto, termo técnico que pode ser substituído por rombo, desde junho de 2000.Como a lei não permite que um banco opere com passivo a descoberto e o Banco Central foi omisso em punir, o Tribunal de Contas da União tomou a iniciativa e abriu uma representação para investigar (processo 007812/2001-5)?, afirma o deputado federal José Pimentel (PT), membro da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara e da Comissão Mista de Orçamento do Congresso. ?Em depoimento à Comissão em setembro, a diretora de fiscalização do Banco Central, Teresa Grossi, declarou que esse rombo do BN chegará a R$ 7 bilhões. É um valor 50 vezes maior do que o desvio do Tribunal Regional de Trabalho (TRT) de São Paulo e 13 vezes maior do que o rombo no BEC, que hoje é alvo de CPI?, diz.

Para esclarecer essas e outras questões, a Comissão Mista de Orçamento aprovou um requerimento do deputado e convocou o presidente do BN, Byron Queiroz, para depor na próxima terça-feira (11), às 15 horas. Também será ouvido o ex-diretor financeiro do BN, Antônio Carlos Coelho.

Cautela diferenciada

Não se justifica um silêncio permanente em torno de uma organização que, além de ser fundamental para a região, ainda por cima está sediada em nossa cidade. O problema da ausência de cobertura significa algo que também já tratei anteriormente aqui neste espaço. Quando algumas instituições estão na berlinda, como o BN e o Judiciário, a direção do jornal se cerca de uma cautela que não é compatível à dispensada a outras questões tão importantes quanto. O cuidado com a informação sempre deve ser grande em qualquer circunstância, mas não pode ser maior ou menor dependendo de quem estamos tratando. Na crítica interna de quinta-feira, argumentei que pela importância da instituição e do tamanho da polêmica, o jornal precisa fazer matérias sobre o assunto. Questionei ainda se haveria alguma avaliação divergente na Redação ou na Direção sobre o que eu tinha acabado de escrever. Não obtive retorno.

Não podemos esquecer que nosso compromisso é com o leitor. Não nos cabe julgar, mas expor o que está acontecendo sob o risco de ir contra um princípio fundamental do jornalismo: o acesso à informação pública é um direito inerente à condição de vida em sociedade, que não pode ser impedido por nenhum tipo de interesse. Que há muitas questões a serem esclarecidas, isso há. A repetência insistente de denúncias e acusações aponta para um problema grave de qualquer maneira. O problema pode estar em quem fala sem parar. Ou em quem não pára para escutar."

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