Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES >

De como o PT salvou uma semana vazia

Por Alberto Dines em 05/06/1997 na edição 23

A ntecipava-se uma reprise dos recessos provocados pelos feriadões, quando os jornais mostram-se incapazes de mostrar um mínimo de autonomia informativa sem a oxigenação oficial (contra ou a favor).

De repente, estouram as denúncias do militante Paulo de Tarso Venceslau contra as vantagens auferidas nas prefeituras petistas de S.Paulo por uma empresa de propriedade de um amigo do peito e protetor de Lula.

E, mais uma vez, tivemos a imprensa sob o império da afoiteza e da ligeireza, o “tratamento” (edição) impondo-se à informação, as opções políticas suplantando (e evidentemente deformando) a espontaneidade genética do processo jornalístico.

Cabem ao Diário do Povo, de Campinas os primeiros louros das denúncias (e um viva à imprensa regional que deixa de ser caudatária dos jornalões metropolitanos). O Jornal da Tarde teve a sensibilidade de avaliá-las e magnificá-las. Se, a partir de agora, nossos pauteiros começarem a ler os grandes jornais regionais e estaduais pode acontecer uma reversão extremamente salutar no processo mediático brasileiro. (Ver “Sete anos depois, o ‘furo’ volta a Campinas”, abaixo).

Cabe ao resto da mídia, no entanto, a coroa de espinhos, pelos exageros da suíte, pela bola-de-neve artificiosa e enganadora, de proporções nacionais, armada em torno de um caso partidário, de importância secundária e cuja transcendência reside apenas em comprovar o velho ceticismo quanto aos grupos e indivíduos messiânicos.

Serviu também para validar a inspirada e amarga profecia escrita pelo repórter Fernando Rodrigues (o denunciador do escândalo da compra dos votos na Câmara) na Página Dois do Folhão, véspera da primeira matéria do JT. “A vida útil de um escândalo” (ver Entre aspas) comporta uma avaliação adicional que não cabe aos operadores jornalísticos mas aos media-watchers quanto mais a imprensa confundir jornalismo investigativo com o denuncismo atropelador e mesclar reportagem com politização da informação, a vida útil dos escândalos será menor.

O trabalho da imprensa no caso dos precatórios esticou-se por dois meses. O da alegada compra de votos para a reeleição dominou o noticiário durante 13 dias (o cálculo é do próprio FR). O novo gate (grotesca caricatura do Watergate primal), ficará na primeira dos jornais um pouco mais, talvez, por razões alheias à sua importância intrínseca.

Vale a pena examiná-las: os quatro jornalões reagiram sob os mesmos impulsos nas edições seguintes à revelação do JT. Enquanto os dois cariocas, menos exaltados, recuaram logo em seguida, os dois paulistas mantiveram nos dias subseqüentes igual encarniçamento embora com motivações diferentes. Voltavam ao velho esquema de imitação e antropofagia de inspiração marqueteira que tantos males causou à nossa imprensa no início dos anos 90.

O Estadão, desta vez, assumindo-se plenamente como “irmão” do JT (e esquecendo do trabalho pioneiro do Diário do Povo de Campinas), mas, sobretudo, por decorrência de suas convicções ideológicas, aliás transparentes e inequívocas, preencheu alegremente o vazio do recesso parlamentar com fartíssimo material para denegrir o petismo adversário.

Já o Folhão, para mostrar imparcialidade, carregou nas tintas, no destaque e no espaço. Não carecia: repercussão forçada, em qualquer direção e sob qualquer pretexto, é o oposto de isenção. Resultado: os paulistões igualaram-se.

E, para comprovar a esquizofrênica relação competição-clonagem que persiste entre os dois, no domingo 1/6, o Estadão sapecou em manchete de primeira páginas a sua própria sondagem de opinião pública, feita pela empresa do grupo, InformeEstado: “Pesquisa mostra o desgaste da imagem de Lula”.

O mesmo besteirol estatístico da peça similar da DataFolha de 16/5, logo em seguida à divulgação das fitas do Senhor X: realizada apenas na cidade de São Paulo, com um universo ainda menor, 700 pessoas, escolhidas aleatoriamente e abordadas telefonicamente e nas ruas, imediatamente após as denúncias iniciais. Também não se revela o teor do questionário para que se aquilate o grau de indução contido nas perguntas. Resultados, igualmente pífios – antes do Escândalo do PT cerca de 57% dos paulistanos não confiavam em Lula, agora são 70% (13% de diferença!); com relação ao PT – antes, 47% dos paulistanos reprovavam o PT, agora são 56%, diferença de 9% (a comparação é com os dados da mesma empresa).

Tanto papel e tinta para tão pouco!

A tábula rasa do denuncismo

Antes de jogar os denunciados na sarjeta, os caciques da mídia devem aprender a diferenciar. Colocar Lula no mesmo banco dos réus junto de Amazonino Mendes ou Orleir Cameli é uma perversidade dobrada: se contra os governadores do Amazonas e do Acre ainda não apareceram as evidências embora estejam envolvidos há muito num clima de suspeição, aqui trata-se de uma figura que merece o respeito de todos os brasileiros – simpatizantes ou não de suas posições – que conhecem minimamente a história recente do Brasil.

Há que saber diferenciar, sim. Biografia não é arte para ficar nas estantes, deve ser consultada e avaliada. A excelência jornalística reside também discernir – com o coração ou a razão, não importa – entre erros e infrações, entre primários e reincidentes.

Nesta corrida selvagem para ver quem tasca primeiro, a imprensa está ajudando a formar uma opinião pública igualmente selvagem e insensível.

As críticas de Lula à mídia

São bem-vindas. Claro que os jornais não gostaram, o problema é deles. A sociedade precisa de críticos da mídia, muitos, quanto mais, melhor. Inclusive quando a crítica vem daqueles que se consideram injustiçados. São eles os mais aptos, sem teorizações e academicismos, a revelar os efeitos dos linchamentos morais.

Colocar a imprensa no pedestal da intocabilidade é conferir-lhe uma perigosa hegemonia sobre os demais poderes da República que só compromete o sistema de checks and balances (poder e contra-poder) do modelo liberal-democrático até agora vigente. Aceitem as críticas com esportividade ou então mudem o regime.

É dura a vida do Ombudsman

Na mesma edição (1/6) em que o representante dos leitores da Folha reclamava da tentativa de desqualificar as fontes que revelaram os últimos escândalos, o mesmo jornalão, duas páginas adiante (p. 8 do 1o Caderno) fazia o mesmo com o economista Paulo de Tarso Venceslau. E de uma maneira que não honra a elegância do jornal.

Lançar suspeitas sobre o passado do veterano militante da luta armada insinuando uma vinculação entre a falha na segurança no Congresso da UNE em Ibiúna, em 1968 (da qual era o responsável e que resultou na prisão dos participantes) e a morte de Carlos Marighela é uma tremenda injustiça. Malícia ou malvadeza que, seguramente, o ombudsman saberá condenar.

Onde entra Requião

No eloqüente editorial de 1a página (18/5) em que a Folha reclamou a instalação imediata de uma CPI para investigar as denúncias de compra de votos para a reeleição uma frase não pode ser esquecida: “sabemos que CPI’s tendem a se transformar em palco de exibicionismo demagógico…” Para evitar uma democracia corrupta, completa o jornal, não haveria outra opção.

Exibicionismo demagógico é expressão que soa familiar aos que acompanham a CPI federal em andamento (ver citação, no Entre aspas, de artigo deste observador).

E para comprovar a penosa afirmação da Folha eis o que o relator da CPI dos precatórios, em pessoa, concede uma entrevista à Gazeta Mercantil (30/5) onde confessa uma novidade: “NÃO PENSO ANTES DE FALAR”.

Mande-nos seu comentário.

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem