Sexta-feira, 18 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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De quem é a batata quente?

Por lgarcia em 05/10/2000 na edição 99

"Uma avaliação do caso Wen Ho Lee", copyright The New York Times, 28/9/00

"Com o testemunho público da advogada-geral Janet Reno e de Louis Freeh, diretor da Federal Bureau of Investigation (FBI), na terça-feira, 26 de setembro, o caso Wen Ho Lee entrou em nova fase. Agora é possível ver pela primeira vez numa apresentação pública as descrições do caso governamental contra o Dr. Lee, ex-cientista do governo que se confessou culpado por tratar inadequadamente materiais confidenciais. O caso é considerado grave no padrão de atividades duvidosas e, em última análise, ilegais, embora não seja conclusivo sobre a questão de como o governo chinês obteve seus ganhos indiscutíveis na tecnologia de armas nucleares. Mas na pista da sessão conjunta dos comitês do Senado, Judiciário e da Inteligência, na terça-feira, qualquer julgamento referente a segurança nacional e liberdade civil do caso – e o contínuo debate jornalístico sobre sua cobertura – pode ser iniciado pela avaliação da apresentação de Freeh.

Está além de qualquer discussão razoável que o Dr. Lee manuseou constante e brutalmente, desde 1993, o material confidencial. Ele confessou-se culpado quanto a esta acusação. O julgamento de Freeh lança um novo panorama sobre um indivíduo que intencional e repetidamente passou por cima do sistema de classificações nos computadores dos Laboratórios Nucleares de Los Alamos. Seria abandono de dever para o FBI e para o Departamento de Energia não reagir à cópia e à desclassificação de 470 arquivos de armas nucleares que o Dr. Lee efetuou, bem como a seus repetidos esforços para realizar entradas proibidas na Divisão X do laboratório.

O caso do governo

O caso de Freeh foi equivalente ao de uma declaração de abertura de processo ao júri. Fornece um desenho do cenário do pior caso governamental, à tona em momento em que ambos – Freeh e Reno – estão sob ataque direto por manejar de forma imprópria o caso. Este deverá ser testado nos próximos dias para conferir sua precisão e para verificar se há mitigação ou explicações expurgatórias. Algumas questões devem ser respondidas pelo Dr. Lee na presença de agentes federais sob as condições de sua negociação apelativa – um processo que inicialmente será realizado longe dos olhos do público. Mas é assim que articulamos essas questões na base de gravação de dados, como notificado pela audiência do Senado, dia 26.

A questão primária é saber o que Dr. Lee fez com as sete fitas de computador ainda faltando, das dez que ele originalmente obteve, e também o que foi feito com as cópias adicionais sobre as quais seus advogados informaram o governo pouco antes da audiência. Freeh e Reno disseram que o governo reduziu suas 59 indiciações para apenas uma, de negociação apelativa na Corte, por causa do interesse nacional forçado em obter a cooperação do Dr. Lee em localizar as fitas.

Tão ominoso quanto possa soar, o caso deve ser analisado à luz de outras informações dadas ao Comitê no dia 26, quando se voltar aos motivos do Dr. Lee, e se as informações que ele carregou estavam disponíveis em fontes abertas. O senador Richard Bryan, membro democrata do Comitê de Inteligência, fez uma avaliação ponderada. Sobre a questão de um vazamento em Los Alamos ter apoiado a China em seu desenvolvimento de novos instrumentos de guerra, Bryan corretamente observou que havia informações confidenciais sobre a criticada ogiva norte-americana W-88 em poder de 546 governos e indústrias, sem contar Los Alamos. Freeh admitiu que o governo "não tem evidência direta de que Dr. Lee passou informações secretas a um governo estrangeiro". Há menos clareza na proposta do Dr. Lee em copiar dados sensíveis nos últimos anos. O Comitê, em suas sessões fechadas e nos interrogatórios do Dr. Lee pela inteligência federal e agentes da lei, deve explorar por que ele se envolveu em uma farra mistificada de copiar material secreto e, depois, quando a FBI entrou em ação, apagou 310 arquivos em um único dia em uma tentativa aparente de esconder o que fez.

Pesando as evidências

Essa discussão leva à respectiva e crítica questão da segurança nacional de quanta informação coletada pelo Dr. Lee estava disponível fora do laboratório como informações não-secretas, às quais os chineses poderiam ter tido acesso por meio de pesquisas espertas. Neste ponto, experts permanecem divididos. Defensores do Dr. Lee, incluindo alguns colegas cientistas, sustentaram que o material que ele transferiu não poderia ser bem aproveitado por uma potência estrangeira e que o volume copiado estava disponível a fontes abertas. Os senadores ouviram testemunho de T. J. Glauthier, um secretário de energia, o qual disse que enquanto modelos científicos e matemáticos não fossem confidenciais, o meio de juntá-los por meio de armas é altamente secreto. Em entrevista ao Times, John L. Richter, um designer de armas que testemunhou anteriormente para o Dr. Lee, aceitou a definição do governo quanto à sensibilidade de algumas das informações subjacentes. Mas Richter disse que ainda acredita que o governo exagerou o significado do material. Claramente, o Comitê de Inteligência do Senado terá que determinar quão crítica é a informação carregada.

Vamos nos voltar agora para os aspectos da liberdade civil. Enquanto olhava gravemente as atividades do Dr. Lee, o senador Bryan discursou veemência sobre uma investigação policial. Outros levantaram a questão de se o Dr. Lee foi alvo de invectivas racistas, e o senador Arlen Specter, da Pensilvânia, questionou se Dr. Lee não foi algemado e como parte de um regime de "pressões para admitir um apelo culpado". Freeh e Reno negaram que a descendência asiática de Dr. Lee desempenhou algum papel no processo. Mesmo assim, o tratamento de Dr. Lee após a indiciação, em 10 de dezembro de 1999, foi desnecessariamente duro, e o governo utilizou falso testemunho para persuadir o juiz do Distrito Federal James A. Parker a deter o Dr. Lee por nove meses sem fiança.

O presidente Clinton, comentando o caso em 15 de semtembro, concluiu que Dr. Lee foi considerado culpado de "uma violação de segurança nacional muito grave", enquanto expressava preocupação sobre a negativa de fiança como fundamentalmente ofensivo à prática normal da lei. No mesmo dia, Joe Lockhart, secretário de imprensa da Casa Branca, afirmou em suas notas diárias que "uma reportagem investigativa quase histéria" havia criado uma atmosfera de crise envolvendo a questão da segurança de armas nucleares. Seu representante, Jake Siewert, condenou a matéria por não ter dado crédito aos esforços da segurança da admininstração. Isso nos traz às questões jornalísticas levantadas pelo caso do Dr. Lee e ao assunto da segurança nos laboratórios de armas nucleares em Los Alamos, Sandia e Livermore.

Questões jornalísticas

As apurações oficiais e jornalísticas estão repletas de evidências coerentes de que uma cultura de segurança vaga prevalece há tempos nessas instituições, e executivos sêniores da administração confirmam que os laboratórios são objeto de contínua ação corretiva. O departamento de notícias do Times esteve à frente no jornalismo investigativo de segurança de armas, transferência de tecnologias à China e no caso de Lee. No começo da semana, nossos colegas no departamento de notícias publicaram uma nota dos editores revendo a cobertura do jornal. A crítica afirma que o compromisso do departamento de notícias do Times foi vigoroso, dotado de reportagens na hora certa e de justiça como princípio ativo.

Neste caso, assim como em outros assuntos, esta página também teve seus críticos. Isso é uma constante no jornalismo de opinião. No espírito de auto-avaliação, revimos os editoriais publicados por 17 meses sobre o caso de Lee e a necessidade de procedimentos de segurança reforçada em laboratórios nucleares. Muitos dos principais argumentos foram bem sustentados, mas com os benefícios da percepção tardia, percebemos que aceitamos muito rapidamente a teoria do governo de que espionagem era a principal justificativa para avanços nucleares na China, e sua visão de que Dr. Lee foi apropriadamente apontado como principal suspeito.

Não obstante, permanecemos convencidos da necessidade da recém-criada Administração de Segurança Nuclear Nacional para assumir a supervisão de laboratórios do Departamento de Energia. Continuamos acreditando que demandas republicanas para a renúncia de Bill Richardson, secretário de energia, e Samuel R. Berger, conselheiro da segurança nacional do presidente, foram prematuras. Mas, em retrospecto, podemos ter sido exageradamente duros em comentários sobre o desempenho de Berger em seu trabalho e sobre a recusa de Reno em discutir uma ordem de espionagem telefônica do Dr. Lee. Analisando fontes potentes de transferência de tecnologia para a China, identificamos corretamente espionagem comercial como possível fonte, mas fomos precipitados em concluir que a destreza crítica em miniaturização de ogivas era "possivelmente" roubada de computadores de laboratórios de armas.

Há mais de 14 meses – quatro meses antes de Dr. Lee ser indiciado, mas cinco meses após o caso ter se tornado público –, alertamos para os perigos de racismo nesse caso. Com o desenrolar dos eventos, deveríamos ter olhado mais minuciosamente as condições sob as quais ele estava confinado e os argumentos do governo para lhe negar fiança.

Em suma, achamos que a importância da questão das armas nucleares e da segurança da da nação autoriza reportagens agressivas e comentários afirmativos, na hora certa. É importante lembrar que a figura central em muitos desses artigos foi alvo de investigação por mais de três anos antes de as primeiras matérias serem publicadas. Além disso, transferência de tecnologia à China e segurança de armas nucleares foram preocupações constantes do governo nessa época. Omitir essas informações dos leitores é uma violação impensável do contrato fundamental entre um jornal e seu público. A única escolha é levar essas informações às colunas de notícia e opinião de forma profissional, cuidadosa e autocrítica.

Esse tipo de esforço do jornalismo sério foi consumido com a evolução do caso, tanto em respeito às atividades de Dr. Lee quanto à conduta da investigação governamental. Agora as ferramentas estão nas mãos para a melhor apuração do episódio, por meio das audiências do Senado, do desfecho esperado do Dr. Lee no cumprimento de sua negociação do apelo, e da declaração recomendada por Reno sobre documentos confidenciais, até o momento, para lidar com o caso."

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