Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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De Schwarznegger ao Afeganistão

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

TERROR & HORROR

Muniz Sodré (*)

Era um filme típico de Schwarznegger e, como tal, promessa de muito tiro e pancada. Na vitrine do cinema, o cartaz dizia "seqüestraram a filha dele; alguém, em algum lugar, vai pagar por isto". À noite, no Baixo Leblon, um boêmio inveterado, copo de chope à frente, desabafa para um amigo jornalista a propósito do filme: "Veja só como é americano, alguém vai ter de pagar… esse ?alguém? pode ser eu!"

O episódio tem uma certa graça paranóica. Era esta de fato a intenção do boêmio carioca. Agora, porém, adquire, insolitamente, outras nuances diante da avalanche de informações na mídia sobre os eventos terroristas nos Estados Unidos e a retaliação anunciada. Pelo que temos visto, há motivo suficiente para se dar razão aos temores do boêmio: alguém vai ter de pagar e pode ser qualquer um.

A péssima perspectiva está inscrita primeiramente nas declarações de autoridades norte-americanas e, até mesmo de alguns de seus jornalistas, no sentido de que a "guerra" começou, e o inimigo é todo aquele que não se reconheça a partir dos valores da democracia norte-americana.

Mas que valores são esses? Há os abstratos, bons para o discurso diplomático, tais como liberdade, igualdade e direitos humanos. Por outro lado, os concretos, que seguem a realpolitik de Washington e têm a ver com a conveniência oportunista da violação de soberanias territoriais, apoio a golpes de Estado, bombardeio de populações civis, assassinatos de líderes políticos etc. Na hora da conveniência, restringem-se direitos civis dentro do próprio território americano, anuncia-se despudoramente o retorno dos métodos "sujos" das agências de espionagem e a palavra "guerra" aparece para legitimar muita coisa, inclusive a escalada do orçamento militar.

Não é difícil deduzir que os atentados beneficiaram setores ponderáveis dentro dos Estados Unidos, a começar pelo seu presidente, cuja eleição foi das mais discutíveis e agora adquire uma unanimidade esmagadora. Para quem conhece História, é bom lembrar o incêndio de Roma por Nero: depois, na falta de muçulmanos, os cristãos tornaram-se bom alvo. No fundo, inexiste diferença de princípio entre a ação norte-americana e a do terror.

Realidade substantiva

Como identificar então o inimigo? Quem vai ter de pagar? Há nos Estados Unidos, segundo agências noticiosas, cerca de cem mil milicianos de direita francamente favoráveis a atos de terrorismo, a exemplo do apoio que deram ao terrorista McVeigh, já executado pelo atentado a bomba em Oklahoma. Não é preciso ir longe, até a Ásia, para encontrar terroristas: eles existem em número impressionante dentro da própria nação norte-americana. E, pelo que relata agora a imprensa, ali viviam os suicidas que tomaram e pilotaram os aviões dos atentados.

No entanto, a imprensa do Centro do Império, seguida de perto por grande parte da brasileira, não hesitou em dizer no primeiro momento que o inimigo é o Oriente. No calor do instante, uma manchete da Folha de S.Paulo, por exemplo, foi taxativa a este respeito: os árabes eram os culpados.

"Oriente" e "árabe" são termos muito genéricos. Uma coisa são os talibãs afegãos, outra os vizinhos sauditas ou os cidadãos dos países do Maghreb. O Paquistão não é sequer país árabe. Nem mesmo o Corão vale como identificação homogeneizante, uma vez que o "fato islâmico" deve ser separado do "fato corânico", isto é, da leitura diferenciada e múltipla das suratas reveladas a Maomé. A mídia comporta-se como se não estivesse a par das distinções, como se quisesse passar ao público-leitor a idéia de que é tudo a mesma coisa.

É nesse estado nascente das emoções irrefletidas que se percebem com mais clareza as raízes dos preconceitos, do racismo e do terror. Estas, com efeito, expandem-se no terreno das homogeneizações aplastantes, quer dizer, das identificações fáceis que apagam as diferenças ou as singularidades humanas. A hipótese de um estado de guerra, não como metáfora adjetivante, mas como realidade substantiva, sugere a perfeita identificação de um inimigo nacional.

"Justiça infinita"

Se tal hipótese é de algum modo compreensível no caso dos Estados Unidos, cujo território foi brutalmente agredido, torna-se no mínimo ridícula no caso do Brasil, cujo ministro das Relações Exteriores proclamou em alto e bom som: "Vamos à guerra!" No dia seguinte, se desdisse, mas ficou o grotesco da bravata.

Não foi muito diferente o tom da maioria de artigos e editorais de nossa imprensa. Um emocionalismo de inspiração telenovelesca substituiu a argumentação racional na condução dos comentários. Isto, ao mesmo tempo em que o noticiário dava conta do recrudescimento da caça aos supeitos, homogeneamente identificados como "terroristas árabes".

De repente, com esse andar da carruagem, sem um acompanhamento crítico da imprensa, a discriminação não tardará a se fazer visível nos aeroportos, nas ruas das metrópoles americanas e européias, contra todo indivíduo de tez parda e cabelos negros.

Na prática, é isto o que significará a "justiça infinita" (nome da operação militar que embarca Rambos e Schwarzneggers para o Oriente Médio), feita por americanos. Para o Islã, só Deus, e não o homem, é capaz desse tipo de justiça. Na esfera humana, esse "infinito" só pode ser entendido como pretensão do poder imperial de vasculhar, sem limites, o planeta, em busca de um inimigo, todavia ainda não identificado. Infinitamente, sem limites, alguém vai ter de pagar…. E pode mesmo ser eu.

(*) Jornalista, escritor e professor-titular da UFRJ.

    
    
                     

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