Segunda-feira, 28 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA & GUERRA

De volta a Bagdá, 11 anos depois

Por lgarcia em 23/10/2002 na edição 195

MÍDIA & GUERRA

Há 11 anos, o trio de repórteres Bernard Shaw, Peter Arnett e John Holliman tornou a CNN conhecida em todo o mundo graças à cobertura da Guerra do Golfo. A Cable News Network, que até então atingia apenas 60% das casas americanas, alcançou audiência oito vezes maior só no primeiro mês dos ataques, e atualmente chega a mais telespectadores fora dos Estados Unidos do que no país de origem. Parece roteiro de filme hollywoodiano ? e vai virar mesmo. Em 7 de dezembro, a HBO exibe Live from Baghdad, estrelando Michael Keaton.

Hoje, com a possibilidade de uma segunda Guerra do Golfo, o cenário é bem diferente. Muitas outras emissoras ? incluindo as do mundo árabe, como al-Jazira ? pretendem cobrir a provável invasão americana, o que dificulta a obtenção do material exclusivo que a CNN se gabava de mostrar. A recessão publicitária também comprometeu o orçamento das redes, e cobrir uma guerra, embora levante a audiência, é algo extremamente dispendioso, sem contar a fuga de anunciantes que preferem não comprar espaço comercial em meio a tragédia.

Mas a grande competição deve ocorrer mesmo em casa: neste ano, a CNN perdeu pela primeira vez a guerra de audiência para a rival Fox News. Para Matt Kempner [Atlanta Journal-Constitution, 10/10/02], a cobertura do ataque servirá tanto para testar o domínio da Fox quanto a alegação da CNN de que é a favorita dos americanos no campo das hard news.

O chefe de redação Eason Jordan assegura que a rede tem suas cartas na manga. A CNN mantém uma sucursal em Bagdá desde a Guerra do Golfo, fazendo contatos e sustentando uma equipe maior do que a de qualquer outro veículo em língua inglesa. Com a chegada de Nic Robertson, a rede terá três correspondentes na região.

Segurança no Iraque

Não foi só o custo da cobertura que aumentou. O risco para os profissionais de imprensa também é muito maior. Espera-se que os iraquianos aceitem a presença de TVs americanas, mas questiona-se o que acontecerá aos repórteres quando as hostilidades começarem. Verne Gay [Newsday, 14/10] revela que muitas restrições foram feitas ao equipamento de transmissão das equipes, incluindo o banimento do videofone, alegando que ele pode ser usado para enviar coordenadas de alvos militares para as forças americanas.

O Iraque também tem forçado os jornalistas a transmitir do prédio do Ministério da Informação ? um provável alvo do ataque americano ?, o que levanta a suspeita de que as equipes de TV podem ser usadas como escudo humano durante a invasão.

A CNN já desafiou abertamente uma exigência do governo ao transmitir de territórios controlados pelos curdos, ao norte do país. A rede foi avisada de que pode ser expulsa de Bagdá, e Wolf Blitzer e Christiane Amanpour tiveram o visto de entrada no país negado. Amanpour também foi banida do Irã, conta David Bauder [9/10]: ela acompanhava o secretário de Relações Exteriores britânico Jack Straw em visita à região quando foi obrigada a desembarcar do avião no Kuwait.

Segundo o ministro Kamal Kharrazi, trata-se de uma retaliação ao tratamento de iranianos que queriam entrar nos EUA: alguns repórteres e artistas, como o cineasta Abbas Kiarostami, tiveram visto negado ou ficaram esperando meses por uma resposta do governo. Para Eason Jordan, a verdade é que "muitos têm medo de Christiane Amanpour, mesmo gente do Pentágono que, meio que brincando, vê seus movimentos pelo mundo como um indicador de que algo errado está acontecendo na região"quot;.

Journal pede cautela à equipe

O Wall Street Journal, que já sofreu o trauma de ter um repórter assassinado no Paquistão, decidiu que não quer ver sua equipe correndo mais riscos numa nova guerra. Em 6/10, o editor-administrativo Paul Steiger voltou a enviar um comunicado aos correspondentes cheio de orientações. "Não queremos cobertura de perto do bangue-bangue em qualquer zona de conflito, e esperamos que os repórteres fiquem longe de áreas em que a luta esteja ocorrendo ou possa ocorrer. Mesmo quando um repórter entrar em área onde já houve luta e supostamente está fora de perigo, ele ou ela deve fazê-lo com cuidado e com a pré-aprovação do chefe da sucursal."

"Não queremos cobertura de perto de manifestações de rua", prossegue o documento, "seja em Jacarta, Bombaim, Caracas, Faixa de Gaza ou Seattle. Não queremos que marquem entrevistadas arriscadas com figuras perigosas. Não se arrisquem em cidades onde o sentimento antiamericano é visível." Segundo Sridhar Pappu [New York Observer, 14/10], Steiger explica que, além das precauções, o alerta se justifica em nome do público do Journal. "O que nossos leitores querem são as implicações econômicas e algumas políticas ? o tipo de coisas que, em sua maioria, são mais importantes para nosso público do que para o dos outros."

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