Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > CARTA DA REDAÇÃO

Demissão arbitrária

Por lgarcia em 29/01/2003 na edição 209

A CRÍTICA

Antônio Bentes

No dia 21 de janeiro, o jornal A Crítica, de Manaus, demitiu o repórter Saulo Borges, de acordo com a justificativa, "por motivos alheios à vontade da empresa". A carta escondia os verdadeiros motivos da demissão do repórter. Na sexta-feira, dia 17 de janeiro, quando saía da redação do jornal, o telefone tocou e Saulo ? poderia ter sido qualquer outra pessoa ? atendeu. No outro lado da linha estava o jornalista Fábio Alencar que, atualmente, é assessor do vereador de Manaus Marco Antônio Chico Preto. O repórter de A Crítica ouviu do colega de profissão uma sugestão de pauta: no dia seguinte, um sábado, o vereador, atualmente secretário de Estado do Trabalho e da Cidadania (Setrac), receberia um grupo de deficientes físicos, para discutir um modo de qualificá-los e inseri-los no mercado de trabalho. O repórter ouviu a sugestão e repassou as informações à chefe dele, a jornalista Carla Iael, então editora do caderno de Cidades de A Crítica.

Foi para casa e, no domingo, recebeu telefonema da chefe, em que ela o avisava que tinha sido contatada por um dos proprietários do jornal, que a questionava sobre a sugestão de pauta e quem foi responsável pela publicação da matéria. O repórter disse à chefe que ela poderia relatar os fatos como realmente ocorreram, ou seja, assumir que ele recebeu a pauta por telefone. Carla ressaltou que a pauta chegou à redação também por e-mail.

Na segunda-feira, dia 20, Saulo foi ao trabalho. Na rua, recebeu telefonema da redação, do diretor-executivo do jornal, José Paulo, conhecido com J. Paulo, chamando-o para uma conversa. Saulo contou ao diretor como recebeu a sugestão de pauta e, questionado ainda sobre vínculos de amizade com o vereador, respondeu que não conhecia Chico Preto e que nunca tinha mantido qualquer contato com ele. Disse conhecer o jornalista Fábio Alencar, de quem recebera a sugestão de pauta. E frisou que Fábio, inclusive, já trabalhou na TV A Crítica, que, com o jornal, compõe a Rede Calderaro de Comunicação (RCC).

Mas por que tanto questionamento em cima de uma matéria de utilidade pública? Ocorre que o secretário Marco Antônio Chico Preto, há alguns meses, quando ainda era vereador, travou uma briga contra A Crítica, criticando a empresa numa sessão plenária na Câmara Municipal de Manaus. A falação do então vereador rendeu dezenas de outras falações, de seus colegas parlamentares, em defesa do jornal, que também respondeu às críticas, preenchendo todas as notas de sua principal coluna contra Marco Antônio Chico Preto. Em virtude disso, o nome do então vereador passou a ser vetado no jornal.

Ao anoitecer, o repórter foi avisado pelo diretor-executivo de sua demissão. J. Paulo disse que ele era um "repórter petulante", que fazia parte de um grupo de insatisfeitos dentro da redação, que o segregavam e queriam derrubá-lo do cargo por ter vindo de fora, do Rio de Janeiro. J. Paulo se mostrou irredutível e ainda levantou questões medíocres, como que o grupo se reunia para falar mal dele e questionava as manchetes do jornal. Como diretor-executivo que é, responsável pelo fechamento da primeira página, ele, inclusive, estava no jornal no fim de semana, quando a matéria foi feita, no sábado, e quando foi publicada, na edição de domingo. Agora ele acusa um repórter, e o demite, por isso.

J. Paulo ainda avisou que a demissão se estenderia à editora de Cidades, Carla Iael, e acusou a ambos de terem "planejado" emplacar a matéria com a finalidade de derrubá-lo. Disse que a medida seria um choque para a redação, e que outros, do suposto grupo que ele inventou, seriam demitidos. Na quarta-feira, alegando falta de produção, cumpriu a ameaça e demitiu a repórter Ana Célia Ossame, que tinha 12 anos de A Crítica. Com ela, demitiu ainda a repórter Lúcia Carla Gama e demitiria a repórter Vera Lúcia Pinto, que também tem 12 anos de jornal A Crítica.

As demissões de Ana Célia e Lúcia Carla enfrentam um impasse. As duas, assim como Vera Lúcia, fazem parte da diretoria do Sindicato dos Jornalistas do Amazonas. A demissão de Vera Lúcia não chegou a se concretizar porque representantes do sindicato foram ao jornal impedi-la. O jornal se nega, até hoje, dia 23 de janeiro, a rever a situação de Ana Célia e Lúcia Carla.

Esta carta é um alerta e uma denúncia pública, para impedir
que outros fatos semelhantes ocorram. A demissão do repórter demonstra
fraqueza de caráter e de hombridade. Exigimos uma discussão profissional
sobre o fato. O lado pessoal, aqui, é o tipo de alegação
que fazem os fracos. Esse fato que se discute aqui remonta em nossas mentes
à época da ditadura militar e da escravidão negra. Infelizmente,
métodos e comportamentos resistem, como o silêncio dos covardes.
Mesmo o tempo tendo passado, alguns continuam no tronco e valem dinheiro.

 

CARTA DA REDAÇÃO

"O jornalismo, independente de qualquer definição acadêmica, é uma fascinante batalha pela conquista das mentes e do coração", escreveu um teórico e profissional da comunicação no Brasil, Clóvis Rossi, na introdução do seu livro O que é jornalismo, publicado, pela primeira vez, em 1980. Vinte e três anos depois, qualquer profissional da área ? ou, até, de fora dela ? com capacidade mínima de percepção, sabe que a definição continua a mais atual possível. E não seria ousadia imaginar que assim será, ainda, por muito tempo. E se a batalha se trava abstratamente, é impossível querer tratá-la levando em consideração somente questões concretas ? como está acontecendo neste momento em A Crítica.

Por isso, vimos através desta externar uma posição no que diz respeito à demissão do nosso colega de Redação Saulo Borges.

Apresentar como argumento, ainda que implícito, que Saulo foi demitido por ter sido a pessoa que atendeu a um telefonema sugerindo uma pauta e encaminhou o assunto à editora responsável ? a pessoa hierarquicamente acima dele ? é, no mínimo, travar a menor das batalhas pela conquista de mentes e corações. E aí sim, cabe o questionamento: o que houve de errado no procedimento do repórter? Por acaso não é ? entre tantos outros caminhos ? através do telefone que as pautas chegam às redações? E a quem interessará ? caso a matéria seja ou não publicada ? quem foi o ?autor", ou fonte primeira, do assunto ?lançado" para ser notícia? O argumento menos importante será o de que o ?informante" tem ou não relação com o repórter ? até porque os profissionais devem ser pautados pelo conceito de profissionalismo.

E mais, todos sabemos que entre sugestão de pauta, seu acatamento, elaboração da matéria e sua publicação há um imenso caminho a ser trilhado. Voltando a Clóvis Rossi, em O que é Jornalismo, percebemos mais uma vez a atualidade do que escreve quando diz: ?Quem escolhe a notícia e a elabora não tem participação nas discussões sobre o que o jornal vai publicar, como vai publicar, sob que enfoque, tamanho etc." E mais: ?Nas redações acaba geralmente prevalecendo a opinião dos chefes, em detrimento da visão daquele que realmente acompanha o assunto no local onde ocorre. É justamente essa verticalização a grande responsável pela disseminação de um razoável grau de apatia e amorfismo nas redações. Os repórteres se sentem muito pouco responsáveis pelo produto que estão ajudando a confeccionar. E cria-se, então, um certo automatismo característico das linhas de montagem industrial, que colide com a visão (ou desejo) de um trabalho intelectual, como o jornalismo deveria ser."

Dizer não ao razoável grau de apatia e amorfismo na redação talvez tenha sido o erro de Saulo Borges. Ele, sempre tão inquieto e falante, está longe desta definição enquanto repórter. E mais, quem se deu, ao longo do tempo que ele trabalhou em A Crítica, o trabalho de prestar atenção no tempo que ele passava na redação ? fazendo barulho, lançando idéias e inquietações, ou escrevendo matérias ? percebeu que ele, entre outras coisas, é um apaixonado pelo jornalismo.

E nessa condição de apaixonado nunca deixaria de buscar os porquês dos fatos ? ainda que eles não fossem publicados. E também não deixaria de questionar a forma como houve a publicação ? quando ela acontecia.

Conhecedores que somos, ainda, dos mandamentos que regem as empresas de comunicação não podemos, aqui, tratar de ?liberdade de imprensa", mas devemos falar, como disse Clóvis Rossi, sobre ?liberdade de empresa". E é em nome desta liberdade empresarial ? imperceptível, algumas vezes, aos leitores, mas explícitas aos jornalistas ? que existe uma cadeia hierárquica a ser seguida e que acompanhará a publicação de uma matéria: depois da sugestão de pauta um assunto pode, ou não, virar pauta, passa pelo repórter que redige a matéria, chega ao editor da página e, finalmente, chega à ?cúpula da redação".

Mais uma vez Clóvis Rossi: ?O homem-chave, na cúpula, é o secretário de Redação, espécie de alma e coração de um jornal, que, mais recentemente, ganhou a designação mais sofisticada de Editor-Chefe ou Editor-Executivo. Além da supervisão geral de todo o noticiário, ele decide a cara do jornal, ou seja, a primeira página. Em tese, é o critério jornalístico que determina as decisões a serem tomadas por editores e pelo Editor- Executivo. Mas, quando o assunto é de grande relevância, entra em ação um segundo critério, que se sobrepõe ao ponto de, algumas vezes, ser decidida a não-publicação de uma determinada notícia que contrarie os interesses fundamentais ou a visão político-ideológica da empresa editora do jornal."

Deixar implícito então, que os repórteres têm responsabilidade sobre o que é publicado ou tentar conferir-lhes um ?poder" de decisão que eles não têm chega a soar como ingenuidade perante toda uma categoria profissional e ? mais ainda ? os profissionais que trabalham nesta empresa. Também deixar implícito que críticas ? veladas ou não ? são motivo justo para demitir funcionário do menor escalão dentro da Redação é partir para uma batalha miúda da falta de argumento ? onde a reafirmação da autoridade, e poder, será sempre maior que a capacidade de percepção e discernimento, sementes da ?árvore da boa convivência", planta indispensável a qualquer chefe.

Lamentamos, portanto, a demissão de Saulo Borges e observamos que um profissional agitado, barulhento, inquieto, honesto, falastrão, competente, realizador e, sobretudo, repórter 24 horas, tenha sido cortado dos quadros da empresa fundada por Umberto Calderaro Filho, um jornalista por excelência que, certa vez ousou declarar que ?nas minhas veias corre sangue tinta de jornal?. A Redação."

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