Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Democracia inesperada

Por lgarcia em 06/02/2002 na edição 158

AFEGANISTÃO

Pamela Constable conta no Washington Post [27/1/02] que dias atrás um conselheiro do governador da província de Kandahar invadiu furioso um hotel local cheio de jornalistas. Reclamou das matérias negativas que saíram na imprensa americana, especialmente uma em que o governador, rude ex-comandante de milícia, era descrito comendo de modo deselegante e xingando um auxiliar. Prosseguiu pedindo que as matérias passassem a ser mais favoráveis, lembrando que seu regime, ao contrário do talibã, não fazia restrições à atuação dos repórteres. Finalmente, acusou os intérpretes afegãos de guiarem mal os jornalistas, traindo a pátria ao manchar sua imagem, e exigiu que todos deixassem o país em 24 horas.

No dia seguinte, um funcionário mais diplomático do governo desculpou-se com um grupo de repórteres e intérpretes que foram a seu gabinete manifestar revolta com a ordem sumária. Admitindo a injustiça, pediu que tudo fosse resolvido de maneira mais moderada, e explicou que o novo governo precisa de apoio para se fortalecer: "Somos como uma criança que acaba de nascer."

Um grupo de intérpretes, até então em silêncio, deu vazão à emoção e falou da injustiça que sofreram ao serem acusados de traidores da pátria, pois muitos deles passaram anos refugiados no Paquistão e finalmente podiam voltar e fazer algo para melhorar seu país. Um clima muito emotivo se instalou, e aquele raro espaço de democracia e conversa franca deu mostra de um novo Afeganistão que nasce com dificuldade.

Já com as forças armadas americanas a experiência é mais frustrante, pois progressivamente restringem o acesso dos jornalistas à informação em território afegão. Pamela Constable conta que quase nada se consegue informar do aeroporto de Kandahar, que abriga uma base americana com 3 mil soldados normais e um número desconhecido de tropas especiais e agentes da CIA e do FBI. Apenas uma vez ao dia é permitido aos jornalistas entrarem na área isolada, por um curto período de tempo. Sob a alegação de "proteger a privacidade", foi também vetado o contato da imprensa com os integrantes da al-Qaeda presos ali.

Sobres as tropas especiais nada é divulgado. Na base, é possível ver um sem-número de homens armados em roupas semimilitares. Misturados à população e acompanhando tropas afegãs, há muitos americanos barbudos vestidos com roupas tipicamente locais. Eles exercem forte influência nas forças do regime recém-instalado. Há alguns dias um comboio de oficiais afegãos deixava Kandahar para ir a uma cerimônia nas cercanias da cidade. Diversos veículos com jornalistas estrangeiros tentaram seguí-los, mas foram parados por soldados afegãos que ameaçaram atirar se prosseguissem. No dia seguinte, o governo de Kandahar se desculpou pela agressividade e disse que cumpriam ordens das forças especiais. "Adoraríamos tê-los em nossa cerimônia", assegurou o porta-voz. "Mas, para ser honesto, neste momento precisamos mais das forças especiais que de vocês."

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