Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

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Dengue, mídia e os discursos prontos

Por lgarcia em 09/12/2003 na edição 254

A BOCA TORTA

Nilson Lage (*)

Há 60 anos ? não sei se há menos tempo, ou até quando foi assim ? as casas do Rio de Janeiro eram visitadas de tempos em tempos por agentes do Ministério da Agricultura em campanha permanente contra o mosquito da febre amarela ? ou, se quiserem, Aëdes aegypti, o mesmo que hoje transmite o dengue e o dengue hemorrágico, doenças causadas por quatro tipos de arbovírus, três deles encontrados no Brasil.

Febre amarela foi, no início do século 20, mal endêmico na cidade, como agora é o dengue, e a visita dos mata-mosquitos continuação, eficiente enquanto durou, da estratégia de combate traçada por Oswaldo Cruz, o eminente cientista cujo bigodão e cabeleira faziam a delícia dos cartunistas da República Velha.

Vestidos com uniforme cáqui, os funcionários registravam sua visita em fichas coladas na parede ou porta dos banheiros. Levavam a tiracolo reservatórios de óleo fino que era gotejado sobre ralos de pouco fluxo e águas paradas, formando uma película superficial e fina: as larvas do mosquito, que gostam de água limpa (nessas poças, o material sólido tende a depositar-se no fundo), eram, assim, impedidas de respirar. Criança, ouvi a explicação e cheguei a meditar sobre a brutalidade que me parecia ser a sufocação das pobres larvinhas.

Seleção de sábios

Lembrei-me disso há duas semanas, em Manaus, quando vi uma ficha parecida (só que branca, não amarela, como registra minha memória) na parede do banheiro do quarto de hotel. A semelhança foi tanta que me levou a comentar com um pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA) a estratégia adotada por Oswaldo Cruz e que chegou a ser cogitada, há anos, sem ir adiante porque os ecologistas, com seu notório desconhecimento do mundo real, saíram na mídia estrangeira dizendo que o governo brasileiro iria "cobrir de óleo os lagos e rios".

Palpite de gringo sempre foi levado a sério neste país.

O pesquisador, competente e solícito, repetiu o que já ouvi milhares de vezes na televisão: é preciso derramar ou secar com areia a água dos vasos e pneus estocados etc. Pensei em retrucar que, nas grandes cidades, há casas, terrenos e prédios não residenciais fechados, murados, eventualmente abandonados, o que torna difícil, assim, exigir ou fiscalizar com freqüência esse tipo de procedimento. O tratamento pelo óleo seria indicado principalmente no caso de ferros-velhos, grandes depósitos de pneus, água da chuva empoçada em local de sombra e situações outras em que se presume durabilidade do reservatório de água limpa.

Calei-me. Primeiro, porque não sou especialista e seria fácil me desqualificar. Segundo, porque, no mundo atual, acostumei-me ao discurso pronto, repetido ao infinito a partir de uma deliberação tomada por alguém em um espaço de poder ? seja a economia, a medicina ou a política. Calar tornou-se providência sábia que permite recuperar um dos mais relevantes dentre os sentidos possíveis da famosa frase de Ludwig Wittgenstein em seu Tratado Lógico Filosófico, escrito na Viena do fim do século 19, em que se concentrava uma extraordinária seleção de sábios: "Tudo que merece ser dito não pode ser dito".

É visível a semelhança entre a recessão européia sob o império do capital inglês, no tempo de Wittgenstein,. e a situação atual de países como o nosso, sob o império do capital americano, quando não ameaçados pela insuperável tecnologia militar em que se transformaram as economias de todo o mundo, drenadas pela perversidade de Breton Woods, a conferência que fez do dólar moeda internacional.

Pressão ideológica

O discurso pronto está por toda parte.

** Na relação automática que se estabeleceu, ao fim da Segunda Guerra Mundial, entre o consumo de as gorduras animais, a taxa bruta de colesterol e a arteriosclerose, ajudando a resolver o problema conjuntural do exagerado estoque de óleos vegetais acumulado nos Estados Unidos (de fato, o colesterol atua nesse processo, mas não é fator único e pode não ser determinante; se fosse, a cozinha tradicional francesa, na base da manteiga, estaria condenada e não haveria velhinhos gaúchos, criados no bom churrasco de costela gordurosa).

** Na equiparação estapafúrdia do racismo brasileiro com o racismo americano, entre a política indigenista do Estado brasileiro, onde pontifica a figura gloriosa do Marechal Cândido Mariano Rondon, e os genocídios cometido pelo Exército americano no último quarto do século 18.

** Na campanha orquestrada pré-Collor, quando se comparavam as eficientes empresas estatais brasileiras ao modelo de planejamento central da União Soviética e a paquidermes políticos como o INSS. Na pecha de obsolescência atirada por Collor ? criminoso impune ? e seus asseclas contra o Estado, a indústria e a ciência brasileiras.

** Na afirmação inconsistente de que os alunos de escolas públicas superiores são "os ricos". No ridículo da proposição "não formamos gente para o mercado e sim cidadãos", com que pedagogos (a palavra pedante vem do francês pedant, que queria dizer originalmente mestre-escola) tratam de escrachar o ensino público.

** Na promessa idiotamente repetida de "resgatar" jovens da pobreza, ensinando-lhes balé e canto lírico.

** Na postura de horror diante do crime cometido pelos mais pobres e na leniência diante do crime cometido pelos mais ricos.

** Na ecologia tola que se preocupa com a "preservação" de todas as espécies, como se estas não aparecessem e desaparecessem naturalmente ao longo do tempo.

** No argumento besta segundo o qual, se as pessoas inferem da fala as regras lingüísticas, então não se deve ensinar gramática (por esse critério, não se ensinariam artes plásticas e música, porque as pessoas desenvolvem de todo jeito algum senso estético; não se treinariam corredores porque a corrida é espontânea e por aí em diante).

Gosto de colocar a crítica dessas bobagens em um nível diferente. Se os políticos querem criar quotas nas escolas, os economistas defendem o aumento ou diminuição da taxa de câmbio e prometem o paraíso aos que visitarem o inferno, os ambientalistas condenam as hidrelétricas, as termoelétricas, as usinas nucleares e querem iluminar o mundo com a força papa-ventos espetados nas praias, tudo bem: contrariar um discurso desses é arrumar tremendo aborrecimento.

Mas cabe sempre perguntar, como um crítico de Cícero, diante de sua campanha contra Cartago, ou Lenin, definindo sua postura diante da "livre" expressão do pensamento pela imprensa burguesa, no quadro da revolução russa: Qui podest? ? A quem interessa?

Esse é o tipo de reflexão que aconselho a meus alunos. Pode não melhorar a informação jornalística, até porque os veículos, como tudo mais, estão sob o peso de constante pressão ideológica. Mas pelo menos tornará os jornalistas mais espertos.

(*) Professor-titular da Universidade Federal de Santa Catarina, diretor do IBICT ? Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia

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