Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA & VIOLÊNCIA

Deonísio da Silva

Por lgarcia em 29/07/2003 na edição 235

LÍNGUA & LINGUAGEM

“É de tirar o boné”, copyright Jornal do Brasil, 27/7/03

“Não nos expressamos apenas com palavras. O semblante e os gestos também falam, assim como as peças do vestuário, se bem que algumas delas apenas na intimidade. Ainda assim, certa repórter, narrando o que se passara num evento musical, escreveu: ?Não faltaram gritinhos, tentativas de agarros, beijos e calcinhas molhadas?.

O episódio, examinado em saborosa crítica de Moacir Japiassu no livro Jornal da Imprença, é exemplo de erro insólito. A ortografia e a sintaxe estavam corretas. Com efeito, a moça poderia ter escrito ?calssinhas?, como o autor fez com a palavra ?imprensa?, grafada ?imprença? para destacar os erros mais comuns em jornais e revistas. Ou poderia ter errado a concordância nominal: ?calcinhas molhada?. Ou a verbal: ?não faltou gritinhos?. Ela cometeu outro tipo de erro. Terá apalpado as pessoas? Com efeito, deixou implícito que sim, isto é, subentendido, ainda que não expressado formalmente. Ou expresso, pois o particípio do verbo ?expressar? aceita as duas formas. E o de ?aceitar?, aliás, legitima três: aceito, aceitado, aceite.

Muito se tem dito e escrito sobre o boné que o presidente Lula vestiu em recepção aos membros do MST. Quem reprovou o gesto presidencial tem razões de sobra para ficar preocupado. O boné é peça de vestuário. E por isso fala. E o boné do MST é um dos símbolos da organização. Assim como falam a camisa, a gravata, o terno, as meias, os sapatos, aos quais se somam outras partes constitutivas do decoro, como o tratamento dos cabelos, da barba e das unhas. É claro que um presidente de boné preocupa menos o Brasil do que um presidente de quepe.

O último presidente do ciclo militar pós-64, o general João Figueiredo, atendendo a recomendações de assessores, abandonou o quepe, a farda, retirou Baptista e Oliveira de seu nome, com o fim de popularizar-se, e ainda cometeu deslize pior do que o do presidente Lula, pois deixou-se fotografar de sunga. O deputado Barreto Pinto foi cassado na década de 1950 por ter posado, no Brasil, de fraque e cuecas para uma revista. É muito importante discernir, neste caso, o país. Em Portugal, as cuecas são roupas íntimas femininas, equivalentes às calcinhas brasileiras.

O chapéu integra forma de saudação, ao lado dos pronomes de tratamento. E assim nasceu até a expressão ?é de tirar o chapéu?. Foi no reinado de Luís XIV, o Rei Sol, que a França disciplinou as saudações feitas com o chapéu. O costume vinha dos tempos do cardeal Richelieu, o principal conselheiro de Luís XIII.

Os cumprimentos podiam ser feitos com um toque na aba; erguendo-o um pouco, sem retirá-lo da cabeça; tirando-o inteiramente ou fazendo-o roçar o chão, quase como uma vassoura, tudo dependendo da importância social de quem era saudado. Como se sabe, os Luíses XIII e XIV foram reis que se preocuparam muito com chapéus. Logo depois, um dos mais famosos da seqüência, Luís XVI, perdeu muito mais do que o chapéu: a própria cabeça, na Revolução Francesa.

Evidentemente, chapéu, boné, quepe, cartola, barrete e solidéu, como os hábitos, não fazem os monges. Mas interferem na liturgia do cargo, como a definiu o ex-presidente José Sarney. A beca e a toga também falam. Por vezes, mais alto do que as espadas.

Escrever, comportar-se e vestir-se tem suas pequenas leis. Tais cuidados parecem do tempo do Onça, cognome do governador do Rio de Janeiro, de 1725 a 1732, o capitão Luís Vahia Monteiro, apelidado Onça, autor de célebres frases: ?nesta terra todos roubam. Só eu não roubo?.

A ética está acima do uso de boné, chapéu, quepe ou solidéu. Mas não é imune a tais símbolos. E erros crassos podem ser crimes de lesa-língua.”

?O mistério da calcinha azul?, copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br)/ O Globo, 28/7/03

“Sábado próximo eu me sento com Zuenir Ventura e Adriana Falcão, às 15h, numa mesa do Festival Internacional Literário de Paraty, para debater o que seria afinal a crônica carioca, uma pergunta de tal maneira incalável que todos os ingressos já foram vendidos. Não se fala em outra coisa, mas vou ser sincero desde já. Sei direito não.

Acho que Rubem Braga, craque maior do assunto, começaria uma conferência dessas explicando que anda mais impressionado com outro tipo de mistério. Ele, que foi do tempo da geladeira branca, do telefone preto, da borboleta amarela e do rubor vermelho que acometia a todos quando a alça do sutiã da moça aparecia, ele dir-se-ia impressionado não só com essa mesóclise anti-cronical na frase, mas com o fato de as moça de hoje, depois de dessacralizarem todo o sutiã, estarem fazendo o mesmo com a calcinha.

Eu sou de um tempo logo depois do Braga. Vi – não vou dizer que fiz, mas fui cúmplice – vi colegas no ginásio colando espelhinho com chiclete na ponta do sapato para, da primeira fila, vistoriarem a professora num ângulo zefiriano. Hoje não seria preciso tanto malabarismo e tenho certeza que o velho Braga também já teria observado essa nova crônica carioca.

A cintura do jeans ficou mais baixa. Não sei se de propósito, não sei se de picardia, as moças esqueceram de fazer o mesmo com a calcinha embaixo. Ela agora descortina-se sob o cós e, ora de renda, ora de lycra, acabou com toda aquela fantasia masculina, debates acalorados de meninos que graças a Deus nunca transformam-se inteiramente em homens, sobre qual lhe seria a cor.

Eu poderia fingir que acho normal. Poderia colar um ar blasé no rosto e seguir em frente. Mas, infelizmente, não sou jovem o suficiente para passar a impressão de que já vi tudo nessa vida. Acho que Braga faria o mesmo e estamparia o fato, o enigma da calcinha, em Paraty, aos interessados em debater o que seria a crônica carioca. Imagino que o faria com o mesmo delicado estupor admirativo que usou em um de seus clássicos, ao ver na praia a recém viúva em biquíni.

Tá me entendendo?

Só aceitei o convite do Festival para poder ouvir, de um lugar privilegiado, a explicação que deve ter sobre o assunto meu querido mestre Zu, autor da frase ?Jornalista é o sujeito que não sabe muita coisa sobre coisa alguma, mas revela isso com o maior charme?. Um repórter ainda é obrigado a sair em campo e, antes de escrever, procurar saber com quem sabe. O cronista não. Quanto mais dúvida e fragilidade, mais charme entre as vírgulas.

Antônio Maria, por exemplo. Ninguém foi mais charmoso em revelar publicamente seus fracassos existenciais e dúvidas estilísticas. Aprendi com ele: dar-se-ia com a crônica carioca o mesmo fenômeno das meias compridas femininas. Explico.

Maria garantia nunca ter estado com uma mulher por mais de duas horas sem que ela tivesse dito, ?uff, foi-se o fio da minha meia?. Dono de uma página de jornal por dia, ele não desperdiçava as pequenas grandes lições cotidianas que as moças lhe apresentavam em forma de meia sobre as pernas. Concluiu logo: não, não era a carne. Fraca era a meia. E, pronto, já tinha o início de uma crônica que intitulou ?O conhecimento da mulher?.

Eu fico imaginando as lições de vida que Antônio Maria tiraria se tivesse visto, como acabou de me ocorrer no café da redação, a estagiária e a barra de sua calcinha azul. Não, Gagarin, não é a Terra. Azul é o sub-lead.

Antes de ir a Paraty, eu gostaria de conversar com Paulo Mendes Campos, outro que me antecedeu na investigação dos mistérios locais. Estou me lembrando dele, como se não fizesse isso inconscientemente todo dia ao abrir o computador, porque acho que Paulinho explicaria a crônica carioca não apenas pela presença avassaladora de mulheres e a erotização da cidade, mas também pela valorização de cenas como a que vi semana passada no restaurante Penafiel, um dos locais que ele freqüentava no Centro e que eu, talvez numa tentativa songamonga de lhe ficar com o escalpo através da degustação do mesmo frango com quiabo, também curto assaz.

Pois não é, meu bom Paulinho, que o garçom Oliveira, 40 anos na casa, está servindo as mesas com um crachá cravado no paletó?! Ordem da prefeitura, postura municipal. O garçom de crachá é o ponto final da crônica do João do Rio sobre ?A alma encantadora das ruas?, a prova, mais uma, como você escreveu no ?Ser brotinho?, de quão estranha é a vida sobre a Terra.

Por falar em brotinhos, por lembrar de Vinícius dando pantanas para seduzir outros em ?Chorinho para a amiga?, e para não deixar ninguém esquecer que estamos aqui tentando decifrar qual é a da crônica carioca, ou melhor, o mistério da calcinha azul – eu gostaria de citar em Paraty a frase de Benjamin Costallat, outro pioneiro da investigação: ?A crônica carioca deve ser enxuta como uma mulher magra, graciosa no andar elegante.? Cherchez la femme , leitores.

Se eu entendi todo o Carlinhos de Oliveira, se me fez sentido Fernando Sabino passeando por Copacabana, a alma lavada, ?pensando na existência daquelas pequenas coisas pelas quais os homens morrem? – se me quedou com clareza a luz genial desses que fizeram o caminho antes, a femme de calcinha azul que explica isso tudo é a própria aldeia do Rio de Janeiro. Não por acaso foi um cronista, Álvaro Moreyra, num texto bandeirosamente chamada ?Cidade mulher?, quem cunhou a expressão ?Cidade maravilhosa?. O resto é história.

Existe a crônica, e a gaúcha Marta Medeiros e o paulista Ignácio Loyola são mestres. E existe a crônica carioca. Aqui são centenas de cronistas passando uma cantada pública nessa cidade-musa que se insinua em curvas delirantes na silhueta dos morros. O Rio inspira. Dá leite, mel, o perfume da dama da noite nas ladeiras do Jardim Botânico. Em troca, os cronistas narram-lhe as façanhas, as gentes, as ondas e deixam no ar os mistérios de seus azuis mais profundos. (Colunista do jornal O Globo)”

 

MÍDIA & VIOLÊNCIA

?Cultura bandida?, copyright Folha de S.Paulo, 24/7/03

“O domínio da violência -endêmico nas grandes cidades, crescente nas de porte médio- anda onipresente também na arte e nos espetáculos. Da música dos ?rappers? a filmes como ?Carandiru? ou ?Cidade de Deus?, da ?nova? literatura marginal ao dia-a-dia da TV, a criminalidade violenta é cada vez mais o modelo narrativo, o padrão estético e até o rumo moral.

Nada mais lógico, pois a cultura reflete num plano imaginário as vivências que consomem a vida real. E nada mais antigo. Foram os românticos quem inventou certa figura do fora-da-lei como herói existencial, fixando um paradigma que se renova e repete desde então na literatura de engajamento social, no cinema ?noir?, no romance policial americano.

O que mudou é que todo esse tratamento, mesmo quando embaralhava as posições de ?mocinho? e ?bandido?, nunca deixava de manter rígida a distinção habitual entre bem e mal. A nova cultura delinquencial também a respeita, mas inverte os termos da equação para colocar a ordem e a própria moralidade vigentes no banco dos réus. Assim como as chamadas ocupações de terras, essa cultura invade a linguagem dos adolescentes, os padrões da moda, o cotidiano da classe média sem causar alarme ou escândalo. Não se trata de protestar, mas de tentar entender os mecanismos pelos quais tudo aquilo que nossa sociedade diz abominar é glamourizado no plano da representação simbólica.

Se a arte penitenciária, na qual o presídio aparece como ateliê social de uma estética da violência, ocupa lugar proeminente em todo o mundo ocidental, ela encontrou terreno fértil no ambiente brasileiro, todo ele formado no desrespeito à lei e na valorização da figura ambivalente do malandro, nem senhor nem escravo, vivendo de golpes e expedientes.

Na formação dessa mentalidade atual, acrescente-se o efeito combinado da doutrinação sociológica com o catolicismo renitente, a primeira mostrando que os criminosos são apenas vítimas de estruturas sociais injustas, o segundo garantindo que o sentimento de culpa seja a compensação lamentosa para a violência efetivamente exercida contra os miseráveis.

Se o miserável faz jus a todos os direitos (que lhe são negados na vida real), o herói-bandido dos filmes e da música de periferia se legitima como aquele protagonista do conto de Rubem Fonseca que decidiu resgatar a dívida pelas próprias mãos. Não é difícil entender o porquê de a cultura marginal exercer seu fascínio sobretudo entre os jovens.

Uma revolução hormonal está sempre em curso ali, mas também a pressa de se fazerem adultos, de ingressar com tudo no consumo patológico do shopping center, de ter seus desejos atendidos já -tudo isso os aproxima do assaltante edulcorado dos filmes. Com a diferença de que o bandido, sabendo que vai morrer logo, superou por isso mesmo o medo da morte.”

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