Sexta-feira, 20 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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PRIMEIRAS EDIçõES >

Deonísio da Silva

Por lgarcia em 11/11/2003 na edição 250

LÍNGUA PORTUGUESA

“Dizer e escrever”, copyright Jornal do Brasil, 10/11/03

“Seu codinome era Stella. Mas o promotor que denunciou a mocinha que viria a ser a atual ministra das Minas e Energia, Dilma Rousseff, escreveu que ela era a ?papisa da subversão?, a ?Joana d?Arc da guerrilha?.

A julgar pelas revelações assustadoras do livro A ditadura derrotada, de Elio Gaspari, os algozes devem ter soltado a ?papisa? e a ?Joana d?Arc da guerrilha? por engano. Com efeito, flagrado em gravação, diz o ministro do Exército daquele período: ?A coisa melhorou quando começamos a matar?. Ao que o próprio presidente acrescenta: ?Esse troço de matar é uma barbaridade, mas acho que tem que ser?.

O general Carlos Meira Mattos, do alto de seus 90 anos, senhor de textos claros e concisos, que trabalhou com Geisel no Gabinete Militar do governo Castello Branco, deu outra interpretação: ?Quando você diz que quer matar alguém, não quer dizer que realmente vá matar essa pessoa?.

O verbo matar nem sempre é utilizado em seu sentido literal. Lê-se no livro A vida como ela é, de Nelson Rodrigues: ?Você mata o serviço hoje e vamos ao cinema?. Quando os alunos faltam, diz-se que ?mataram as aulas?. Ou, mais precisamente, quando alguém diz que ?matou a pau? um discordante numa assembléia, não significa que o eliminou, de fato, a pauladas. ?Dar um pau?, ?baixar o pau? e ?tocar o pau?, entre outras, são expressões em que o pau é sinônimo de sarrafo ou pedaço de madeira, mas já sem o sentido literal. Pode-se matar a pau com palavras!

Porém, se matar não era assassinar, por que o presidente Geisel disse que aquilo era ?uma barbaridade?, que entretanto se impunha com o obrigatório ?tem que ser?? Não há dúvida de que o verbo foi utilizado, naquele contexto, com o sentido de eliminar os inimigos do regime por morte, com o fim de evitar o risco de eles abrirem a boca ?lá fora?. ?Abrir a boca?, no caso, não tinha e não tem o sentido de bocejar! E ?lá fora? não indicava o pátio da prisão e, sim, o exílio ou o banimento.

Mas por que a ministra foi papisa no frescor da juventude? O normal é que um cardeal se torne papa já na terceira idade. Ou, agora, na melhor idade, eufemismo ainda mais terno para a velhice. Tenha o nome que tenha, a substituição de palavras, ressalvadas as delicadezas da referência, não evita outros males comuns à idade avançada.

Ora, o termo papisa foi usado com o significado de autoridade máxima da guerrilha. O promotor comparou a organização da guerrilha brasileira dos anos pós-64 à Igreja. E nela a jovem Dilma seria o equivalente ao que é o papa. Em se tratando de mulher, não era papa; era papisa.

E papisa veio do latim tardio papissa, palavra nascida para divulgar a lenda de que teria exercido as funções de papa, por dois anos, no século 9, certa mulher de nome Joana, disfarçada de homem. Tudo começara quando tal mulher, proibida de estudar por força das pesadas restrições à condição feminina na Idade Média, metera-se em roupas de homem e freqüentara as melhores escolas, primeiro na Grécia e depois na famosa abadia de Saint Germain-des-Prés, na França.

Algumas imprecisões e lacunas na bibliografia que trata da história dos papas fomentaram a difusão de que era verdade o que a lenda declarava. A Igreja chegou a silenciar ou admitir a existência da tal papisa por séculos.

Papisa entrou para a língua portuguesa em fins do século 18, vindo do francês, onde a forma papesse teve registro já em 1450.

Quanto à outra comparação, talvez o acusador desejasse à jovem brasileira o mesmo destino de Joana d?Arc, que foi queimada viva em 1431. Pois os subversivos eram hereges.

A herege ficou santa. E a subversiva tornou-se ministra. E nosso modo de dizer e de escrever refletiu a História, sempre caprichosa.”

 

JORNAL DA IMPRENÇA

“Preferência baiana”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 6/11/03

“Nosso considerado Marcel Leal, jornalista, publicitário, webmaster, fotógrafo, que nas areias de Itapoã prefere água de coco e acarajé, enviou azabumbado texto do Correio da Bahia. Ali, homiziado pelo título Cerveja tem preferência entre baianos, lia-se o seguinte texto:

?Na terra da cachaça, a preferência dos brasileiros sempre ficou dividida entre a tradicional bebida nordestina e uma outra surgida ainda na idade média, cerca de seis mil anos antes de Cristo (…)?.

?Tomar cerveja à beira-mar é uma exclusividade daqueles que moram ao longo do extenso litoral brasileiro?.

E o texto, à conta de ensinar o leitor a fazer a bebida em casa, aproveita para revolucionar a milenar fabricação: ?(…) a partir da fermentação do malte da cevada.?

Eu, que quando bebo não escrevo, lamentei tamanha barafunda em tão pequena e lúdica matéria, porém Janistraquis me chamou à realidade: ?Considerado, num país onde a reputação alheia não vale o que o gato enterra; chupim passa por tico-tico; quem ama engana; festeja-se a calúnia, é a coisa mais natural do mundo o sujeito confundir cerveja com uísque paraguaio e tomar Jesus por Genésio; sem estar, obrigatoriamente, de porre!?

É mesmo, a coisa anda braba por aqui.

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Dois craques

Na semana passada, Alberto Dines e Thomaz Souto Corrêa bateram um excelente papo na televisão a respeito das artes e riscos de se fazer revistas no singular mercado editorial brasileiro. A conversa dos dois craques foi transcrita, na íntegra, nesta edição do Observatório da Imprensa que está no ar. É leitura obrigatória; quem for esperto, há de gravar em CD e arquivar.

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Mais eventually

Quando saiu no Estadão a frase ?os europeus se dispõem a ajudar as redes latino-americanas a se ligarem entre si, para que, juntas, consigam se comunicar com a Europa, e, eventualmente, os EUA?, nosso diretor paulistano Daniel Sottomaior concluiu:

?A rede acabaria por incluir os americanos – e não que, vez por outra, haveria conexão com os EUA.

Na entrevista com o famoso James Watson, co-descobridor da estrutura do DNA, perguntaram-lhe se ele era a favor da manipulação genética em seres humanos. O cientista respondeu: eventually, ou seja, ele seria com certeza a favor, em algum ponto do futuro.

Não se pode ser ?eventualmente? a favor de uma idéia a menos que a criatura apresente sinais de esquizofrenia latente. Sempre que essa palavra aparecer em um texto traduzido do inglês, é bom desconfiar.?

Desconfiaremos, Daniel, desconfiaremos.

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Ratos e pontos

Nosso considerado Gamaliel Inácio escreveu à coluna: ?No Caderno de Esportes (página D2) da Folha de S. Paulo de 29 de outubro (quarta-feira) lemos o seguinte título na reportagem principal: CBF enfrenta clubes e

TV e ratifica pontos corridos.

Ratifica, em lugar de confirma (mesmo número de toques), não é ruim jornalisticamente, sobretudo em se tratando de título? E, além do mais, alguns leitores de esporte menos familiarizados com a língua não poderiam imaginar que estão transformando em ratos os tais ?pontos corridos?? Nunca se sabe…?

Janistraquis examinou a questão, Inácio, e concluiu que você tem razão, confirmar é melhor que ratificar. E este desagradável vocábulo pode até não induzir o leitor a fantasias ?disneylandianas?, se me permitem, mas talvez insinue que roedores espreitam os pontos corridos.

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Questão zodiacal

Nosso diretor no Ceará, Celso Neto, que não é chegado em horóscopo, destilou escorpiana impaciência neste breve despacho:

?Tudo bem que o símbolo do Fortaleza Esporte Clube é um leão, mas sua torcida, segundo o jornal O Povo, não deve contar com pessoas nascidas sob outros signos e é pré-requisito que o torcedor tricolor seja do signo de Leão.

Somente dessa forma se pode explicar o inusitado título desta matéria: Leoninos evitam ir para Belém.

Em Fortaleza ficaram os arianos, os taurinos, os geminianos, etc., etc., etc.?

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Jesus Cristo!

Depois de ouvir e ver no noticiário das TVs que profissionais do Hospital Cristo Redentor, de Porto Alegre, jogaram no lixo a parte do crânio de uma menina ali operada do cérebro, Janistraquis agarrou-se à barra de minhas calças, num choro convulso:

?Considerado, amanhã, dia 7, estaremos na Feira de Porto Alegre; já estou velho, na idade das internações hospitalares, e se eu for acometido dalgum faniquito, pelo amor de Deus não permita que me levem pro Cristo Redentor!!!?.

Compreendo; uma notícia dessa deixa qualquer um de miolo mole.

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Cônjuges holandeses

Sob o título Plebéia conquista príncipe, escreveu o Correio Braziliense: ?O príncipe Johan Friso, da Holanda, segundo filho da rainha Beatriz, renunciou aos seus direitos dinásticos por causa de uma mulher: a plebéia Mabel Wisse Smit. (…) Em carta enviada ao primeiro-ministro, Jan Peter Balkenende, o príncipe e Mabel expressam que é o desejo dos cônjuges que seu casamento não seja submetido à aprovação parlamentar. Segundo o sistema político holandês, o Parlamento tem que dar seu consentimento ao casamento de um membro da Casa Real.?

Roldão Simas Filho, diretor de nossa sucursal em Brasília, que se casou uma vez só e vive feliz com a companheira de tantos e tantos anos (releia O homem que sabe ler, página 13 da editoria Em Pauta, 24/4/03), estranhou a notícia: ?Bom, se eles ainda não se casaram, não podem ser chamados de cônjuges, não é mesmo??.

É verdade e Janistraquis pergunta: por que o redator não escreveu apenas e simplesmente ?casal??

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Nota dez

O melhor texto da semana é de Augusto Nunes, no Jornal do Brasil: ?A jornalista Eliane Cantanhêde, da Folha de S. Paulo, extraiu números interessantes do discurso de Lula na Paraíba. Como crianças e bêbados, políticos que falam de improviso costumam ser sinceros. Livres das restrições impostas pelo discurso escrito, dizem o que lhes vem à cabeça. Na quinta-feira, segundo Eliane, a peixeira retórica de Lula exagerou em manifestações cuja tradução popular seria o ?deixa comigo?.

?Lula usou 16 vezes a expressão vamos fazer ou assemelhadas (faremos, vamos construir, vamos aprovar)?, escreveu a jornalista. Eliane também alinhavou casos exemplares de escorregões no pântano do messianismo.

Lula tem conversado bastante com outros governantes, como o espanhol Aznar. Nenhum problema. Mas talvez deva reaproximar-se com urgência das ruas, cuja voz Lula sempre soube ouvir.?

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Errei, sim!

?MINISTERIOSO – Sempre criativo, meu secretário rotulou de jornalismo logogrífico o que o Jornal da Tarde anda fazendo com os títulos das matérias. E exibiu dois exemplares realmente exemplares: Húngaros já podem fumar partidos políticos e O famoso Arqueiro Verde em ministério. Janistraquis lamentou a ausência de um bom Erramos para esclarecer: onde se lê fumar, leia-se formar; e ministério não chega a rimar com minissérie…?(fevereiro/89)”

 

ASSESSORIAS NEFASTAS

“Carta aos executivos noticiáveis”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 6/11/03

“O XIS DA QUESTÃO – (Sobre a participação das fontes no processo jornalístico) – Terá alguma utilidade, para a imagem e os interesses das instituições, um jornalismo minado em sua confiabilidade pela publicação de notícias irrelevantes ou de veracidade duvidosa, publicadas sob pressão de razões outras que não as razões jornalísticas?

Senhores executivos e senhoras executivas de empresas e instituições noticiáveis:

A maioria de vocês certamente inclui, na agenda das obrigações diárias, a leitura dos artigos de Luiz Nassif. Mas acredito que, mesmo no caso dos mais fiéis leitores desse ótimo colunista, esteja perdido, nos embaçamentos da memória, um pequeno trecho de três parágrafos, escritos por ele, com severa crítica aos procedimentos nada exemplares de certas assessorias de imprensa. É natural esse apagão, que oculta nos vazios da lembrança a bronca dada pelo Nassif. Afinal, os tais três parágrafos encerravam um artigo escrito no dia 11 de maio de 2001.

Acontece, porém, que o aperfeiçoamento da sociedade depende cada vez mais da correta divulgação jornalística do que é dito e feito pelas instituições (empresas incluídas) noticiáveis. Por isso, é boa hora para relembrar o que Nassif escreveu dois anos e meio atrás, quando desancou profissionais que, embora se auto-proclamando jornalistas, agem como inimigos do jornalismo.

Peço a vossa paciência e o vosso interesse, senhores executivos e senhoras executivas, para a transcrição da parte que permanece atual nos aludidos três parágrafos. Sob um intertítulo curto e grosso (?Os barra-pesadas?), escreveu Luís Nassif:

?Nos últimos anos tem havido deformação na área de assessoria de imprensa. Ao lado de muitas assessorias técnicas e sérias, surgiram no mercado especialistas em montar dossiês, em armar notas injuriosas contra adversários e, até, em pagar colaboradores de jornais para que assinem reportagens em favor de seus clientes.

(…)

É importante que as empresas se dêem conta de que sua imagem vai para o buraco, com esse estilo de assessoria. E que nós, jornalistas, comecemos a definir critérios para separar o joio do trigo e impedir a disseminação dessa praga.?

Do quadro pintado nesse curto texto fazem parte não apenas as assessorias de imprensa, os jornalistas que nelas trabalham e os jornalistas que atuam nas redações. Do cenário fazem parte, também, e em enquadramento de enorme relevância, os executivos que, nas instituições-fonte, têm posições de mando nas áreas de comunicação ou sobre elas exercem algum tipo poder, ainda que oculto.

Como a preservação da confiabilidade do relato jornalístico é essencial para os processos e os conflitos construtores da democracia, na sociedade que idealizamos, convido-os, senhores(as) executivos(as) de empresas e entidades noticiáveis, para uma pequena reflexão sobre a vossa responsabilidade, como intervenientes no processo jornalístico.

Comecemos por uma pergunta simples: haverá, entre vocês, alguém que goste de ver os conteúdos mais importantes de sua instituição publicados em jornais, colunas ou programas sem credibilidade? Terá alguma utilidade, para a imagem e os interesses das instituições, um jornalismo minado em sua confiabilidade pela publicação de notícias irrelevantes ou de veracidade duvidosa, publicadas sob pressão de razões outras que não as razões jornalísticas?

Certamente, não.

Ora, se o que serve às instituições, e está nas expectativas da sociedade, é o pressuposto e a exigência de um jornalismo veraz, e além de veraz, vinculado, por compromisso, a uma visão ética do mundo, então, é dever das próprias instituições contribuir para a construção e a preservação desse jornalismo confiável e dos seus valores culturais. O que significa dizer, ser esse um dever dos(as) executivos(as) que nas instituições têm o poder de agir e dizer em nome delas.

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A crítica-denúncia feita há dois anos e meio por Nassif, de dedo apontado para certas assessorias de imprensa, devia ter sido estendida aos executivos das respectivas instituições clientes. Porque, embora isso não deva nem possa servir de desculpa para desvios de caráter e fragilidades profissionais nas assessorias de imprensa, acredito que, nos casos escabrosos a que Nassif se referia, atrás de um assessor ?barra-pesada? estava, por certo, um executivo ou uma executiva ?barra-pesada?.

Nos dois anos e meio que se passaram depois do brado acusatório de Luís Nassif, o nível de profissionalismo melhorou, nas relações complexas entre assessorados e assessores, e entre assessorias e redações. Estou convencido disso, e sustento o que penso em ótimos exemplos de assessoria de imprensa e de cases que conheço, e não só no eixo Rio-São Paulo.

Mas ainda persistem por aí, por parte de executivos que precisam ser reeducados, comportamentos destoantes, prejudiciais à confiabilidade do jornalismo, à respeitabilidade profissional dos jornalistas e aos próprios interesses das instituições para as quais trabalham.

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Para ajudar na reflexão, eis três pequenas histórias, recortadas entre experiências que me foram relatadas por assessores que se sentiram desrespeitados:

Caso I – O executivo de determinada associação chama o assessor e lhe diz:?Tenho um projeto político. Vou ser político. E preciso aparecer no Amauri, ser notícia nas colunas sociais e pauta de reportagem na Veja. É isso que quero?.

Esse acha que tem poder para mandar até nas redações.

Caso II – Diz o executivo, na reunião convocada com a assessoria de imprensa: ?Estou fazendo um evento e quero notícia nos jornais dois meses antes?. O jornalista assessor explicou que eventos daquele tipo só têm chance de ser notícia na semana em que acontecem. E o executivo insistiu: ?Tem que ter notícia publicada dois meses antes. Se não tiver notícia, vou fechar?. Resposta rápida do assessor: ?Se o senhor fechar, aí é notícia?.

Esse nem imagina como as coisas funcionam. Mas deve ter aprendido.

Caso III – Uma empresa de treinamento chamou uma assessoria para divulgar um curso que ia ser realizado. A noticia saiu em vários jornais e rádios, nas editorias adequadas. Mas o curso foi um fracasso, por falta de inscrições.

O empresário culpou a assessoria e não queria pagar os serviços prestados. Nas negociações, reconsiderou, pagou tudo direitinho e deve ter aprendido que o sucesso ou o fracasso de um curso tem a ver com o conteúdo e as condições oferecidas. Se o produto é fraco e caro, quanto mais se divulga, pior.

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Como o texto vai longo, deixo para a próxima semana a abordagem do assunto por outras perspectivas. Fica aí o intervalo de uma semana para o relato de casos – negativos ou positivos – por quem os tenha e queira contar. É uma forma de alongar e aprofundar a discussão, em favor de um melhor padrão de informação jornalística, por parte das fontes.”

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