Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > O PESO DAS PALAVRAS

Deonísio da Silva

Por lgarcia em 13/01/2004 na edição 259

LÍNGUA VIVA

“Via-sacra dos turistas”, copyright Jornal do Brasil, 12/1/04

Três provisões são indispensáveis aos turistas: a língua, o passaporte e o dinheiro. Ainda assim, este último vem sendo substituído pelo cartão, há alguns anos apenas de crédito e mais recentemente também de débito. Quanto à língua, o inglês, o latim do império, tornou-se o dólar da comunicação universal, ao lado de outras moedas de circulação lingüística, como o francês, o espanhol, o italiano e o alemão.

A modernidade e a informática facilitaram muito a vida dos viajantes. Se o turista quiser dinheiro vivo ? bela expressão, que supõe um dinheiro morto ou adormecido ? é só ir a algum caixa automático e sacar a quantia necessária para pequenas despesas. Se precisar saber com urgência o significado de uma palavra ou expressão, poderá consultar pequeno livro de viagem, de qualquer língua de sua conveniência ou um dicionário eletrônico de bolso, pouco maior do que um cartão de crédito.

Já com o passaporte não é bem assim. Apesar de simplificadas as exigências, sua obtenção ainda demanda alguns dissabores. E além do mais há a exigência adicional daqueles países que exigem vistos. Ou exigem vistos para quem vai a algum país vizinho deles, como fazem os EUA com os brasileiros que vão México, que devem declarar que de lá não irão aos EUA.

O visto, do latim ?visitus?, de ?videre?, ver, examinar, atesta que o cidadão foi visto e examinado, antes de embarcar. Tanto foi examinado que lhe exigiram, em alguns casos, até vacina, do latim vaccina, varíola da ?vacca?, a fêmea do boi, que no português perdeu um ?c? e ficou vaca apenas.

?Barca? é palavra do século 9. ?Embarcar?, do século 14. Mas continuamos a embarcar em ônibus, em trens, em aviões e até em naves espaciais. O verbo eternizou-se, assim como navegar. Hoje navegamos no espaço sideral e na internet. A antiga e prévia alegria das viagens, porém, precursora de outros contentamentos que viriam durante e depois, está sendo maculada por novas exigências. No Brasil e nos EUA, lá como cá, os turistas devem ser fotografados e deixar suas digitais no país que visitam.

Nem sempre foi assim. Na antiga Roma, até a mais obscura das viagens, a que se fazia desta para a outra vida, requeria menos cuidados. Um deles era colocar pequena moeda sob a língua do defunto para que ele pudesse pagar a passagem a Caronte, cuja barca o levaria para a outra margem do Rio Estige.

A palavra viagem veio do provençal ?viatge? e chegou ao português ainda no século 13. A origem comum foi o latim ?viaticum?, que na Roma antiga designava as provisões de viagem. O latim eclesiástico teve larga influência sobre nossa língua. E viático tornou-se símbolo de hóstia que, redonda como a antiga moeda destinada a Caronte, era a única providência que o cristão precisava para fazer a travessia.

?O cavalo já foi um erro?, disse Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos EUA. O certo seria o homem limitar-se apenas até onde levassem suas próprias pernas. Com efeito, ônibus tomba, trem descarrilha, navio afunda, avião cai.

Turismo e turista vieram do inglês tourism e tourist, respectivamente. Depois é que foram para o francês ?tourisme? e ?touriste?. Mas o inglês se inspirara no francês ?tour?, viagem, para formar as duas novas palavras no alvorecer do século 19. O francês se inspirara nas palavras latinas ?tornus?, torno, que roda, e ?tornare?, voltar. Com efeito, quem faz um ?tour?, vai e volta.

A padroeira dos turistas nesses tempos de terrorismos, os propriamente ditos e os burocráticos, deve ser Santa Paciência, aliás muito invocada por brasileiros diante de fiscais na volta das viagens: ?Tenha a Santa Paciência!?.

A via-sacra dos católicos tem apenas 14 estações. A dos turistas, inumeráveis.”

 

O PESO DAS PALAVRAS

“A contenção é de ouro”, copyright Folha de S. Paulo, 12/1/04

“?Nem tudo se pode?, como me disse Denise Milan. Sobretudo nesses tempos macabros. De supliciadores e balas perdidas. E o que menos se pode é dizer o que passa pela cabeça. Mas não há consciência disso. A prova é a palavra perdida (como bala) de três pessoas públicas pertencentes a três partidos políticos diferentes.

Assim, a de Antonio Carlos Magalhães em discussão no plenário: ACM acusa Bornhausen, presidente do PFL, de ?roubar o partido?. Bornhausen obriga ACM a se retratar para não ser expulso. O senador então declara que as expressões por ele empregadas não representam o seu pensamento. Desculpa-se, alegando inconsciência.

A descoberta do inconsciente, já datada de um século, explica que alguém possa dizer o que não pensa. Mas o que se espera do homem público é que ele diga o que pensa e se exercite nisso continuamente. Ou seja, que ele se dê conta do peso das suas palavras e não alegue o calor da hora para se justificar, esteja o menos possível sujeito ao próprio inconsciente.

A segunda palavra perdida -essa de dar medo? é a de Hebe Camargo, sobre o assassino de Liana Friedenbach, cuja morte, graças à tenacidade do seu pai, obriga a considerar que a questão do crime é de todos nós. Apontando o dedo para a câmera, a apresentadora diz: ?Ai se eu pudesse fazer uma entrevista com o Xampinha. Ele ia virar linguiça. Viu, Xampinha? Vou fazer uma entrevista com você. Vou mesmo. Se me deixarem, eu vou armada. Saio de lá para a cadeia. Mas ele não fica vivo?.

Por mais afetada que Hebe Camargo estivesse, ela só fez isso por agir numa sociedade que autoriza a falar impunemente o que vem à cabeça. Ou seja, a se valer do poder da palavra para incitar ao crime. O apresentador de um programa tem o direito de usar o poder que a televisão confere -de abusar dele, não.

A terceira palavra perdida (como bala) é a do sociólogo fundador do PT, Francisco de Oliveira. Diz, num seminário na Universidade Federal do Rio de Janeiro: ?A política não se resume a rapapés, salamaleques e golpes de espertalhões que pensam estar inventando a roda, como esse ministro José Dirceu, que se parece com qualquer político safado do Brasil?. Como Jorge Bornhausen, José Dirceu contratou um advogado para interpelar o seu acusador. Os dois agiram prontamente contra a difamação, e o procedimento tem uma função exemplar.

Se a pessoa pública não ensina o uso comedido das palavras, pode-se exigir do delinquente o controle dos seus impulsos? Como escreveu o incansável Frei Betto, ?a vida social exige controle de nossos instintos, seleção de valores e opções que sempre implicam renúncias? (?Gosto de Uva?, Garamond, 2003). Noutras palavras, ela exige a contenção.

A contenção é hoje -mais do que nunca, talvez? a condição ?sine qua non? da vida e, por isso, é preciso que nós todos sejamos educadores, tenhamos como referência positiva o político que não diz o que quer e, sem ser oportunista, tem o senso da oportunidade. O jogador de futebol que só entra em cena quando a vitória do time requer. Ou o psicanalista que sempre se desqualifica e perde a possibilidade de agir se disser o que não pode ser escutado pelo analisando.

Os tempos são tão dramáticos que a responsabilidade verbal é um imperativo. Não se trata de silenciar, e sim de conter a palavra que violenta. Trata-se de uma causa sem nenhum custo material, mas cujo custo é o maior de todos. Implica a vigilância contínua.

Lula exercita-se nisso; ele hoje não perde a ocasião de ensinar a renúncia à satisfação imediata e é por isso que tanto o Ocidente quanto o Oriente brindam (celebram) a sua aparição no cenário mundial. A contenção é de ouro, poderia ele dizer, sugerindo que este novo ano será melhor se cada um de nós for mais capaz de se conter, se for de paz.

Ser de direita hoje é só se dispor a pagar com dinheiro. Imaginar que tudo passa pelo cifrão. Ser de esquerda é aceitar o desafio de pagar com a própria pessoa para sustentar valores.”

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