Segunda-feira, 11 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

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Deonísio da Silva

Por lgarcia em 31/07/2002 na edição 183

TEXTO & ACADEMIA

“Escrever bem é escrever difícil?”, copyright Jornal do Brasil, 28/7/02

“Alunos da UFSCar me pediram para rever, na companhia deles, entrevista que dei a Jô Soares. Queriam comentar, me perguntar coisas, saber dos bastidores. Sim, naquele dia Rita Cadillac, que dá shows em penitenciárias, para entreter a população ali confinada, desamarrou a blusa e mostrou os seios ao maquiador. Emerson Fittipaldi me falava de coisas tristes. ?Ah, você mora em São Carlos, perto de Araraquara? Caí de ultraleve ali perto. Eu e meu filho. A perna começou a sangrar, eu estava imobilizado, não demorou muito e os urubus sentiram o cheiro do sangue e começaram a voar bem baixinho, ao nosso redor. Pedi a meu filho que sacudisse os braços para espantá-los.? Dizia tudo isso em voz calma, fininha, a sua voz habitual. Rita Cadillac, não. Fez o maior fuzuê. E no final da entrevista ofereceu o bumbum para ser beijado por alguém da platéia, como cortesia. Jô disse que podia subir um só da platéia. Subiram cinco.

Eu estava ali para tratar do livro De onde vêm as palavras. O que as Letras faziam naquele meio? Jô, porém, é mestre em conciliar paradoxos, em parcerias impossíveis, em dosar seu programa, oferecendo temas sérios em linguagem bem-humorada.

Naquele programa, conversamos sobre escrever bem. Disse em síntese o que tenho escrito sobre esse tema. Que os bacharéis precederam os economistas na arte de escrever mal, de nos enrolar, de nos encher a paciência, de abusar da boa vontade do leitor, condição prévia para dar atenção a quem escreve. Paradoxalmente, foi nos cursos de Direito que vicejaram alguns de nossos melhores prosadores e poetas.

Uma visita ao Largo São Francisco, em São Paulo, onde está nossa mais antiga Faculdade de Direito, é também uma aula de literatura. As paredes lembram, orgulhosas, seus alunos de outrora, entre os quais Castro Alves, José de Alencar e, mais recentemente, Lygia Fagundes Telles.

Fora dali, dois de nossos melhores escritores cursaram Direito. Rubem Fonseca, no Rio. Dalton Trevisan, em Curitiba. Os dois estão entre os melhores contistas do mundo. Mas escrevem em português e têm contra si o complexo diuturnamente martelado nos ouvidos e nos olhos dos brasileiros: são mestres na periferia do capitalismo, quem sabe. E ainda não morreram. Como se sabe, morrer é condição sine qua non para receberem a atenção que fazem por merecer. A extrema concisão é a marca dos dois. Rubem Fonseca escreve contos como quem faz roteiro de filmes de ação.

Dalton é capaz de contar uma história inteira em três linhas: ?O amor é uma corruíra no jardim. De repente ela canta e muda toda a paisagem?. O que, aliás, não o livrou de alguns críticos atentos que jamais escreverão uma única linha desfavorável ao amigo, mas que gastaram boas horas de insólita tertúlia ponderando que a corruíra não canta, trina. ?Você errou, Dalton?, disse um dos mais rigorosos, não sem uma ponta de verve. ?Você precisa pesquisar mais para escrever sobre pássaros?, disse outro. Dalton concede a graça da convivência para poucos, escaldado com o provincianismo atroz de arrivistas que buscariam proximidade com ele apenas para tirar algum proveito imediato. E Rubem Fonseca impôs-se um silêncio obsequioso desde as primeiras calúnias de que foi vítima nos anos 70. Caso-síntese da perseguição a escritores, vítima da insânia de censores a serviço de um governo ditatorial, de vez em quando tem o desprazer de ser assunto de quem, não tendo luz própria, quer roubar um pouco de seu brilho.

Esses ficcionistas jamais serão exemplo de correção textual em cursos de Direito. Lá os modelos ainda são outros e é raro que a verborragia não impere. O modelo? Rui Barbosa. Mas se em Rui havia o lampejo do gênio, que leva o leitor a perder boas páginas em trevas de leitura para de repente ter a satisfação de ver sua inteligência faiscar, o mesmo não se pode dizer de seus imitadores.

É verdade que o famoso jurisconsulto exagerava. Faria bom par com o professor Astromar.”

 

EUA

“Bush é ?clintonizado? enquanto o povo ri”, copyright Folha de S. Paulo, 24/7/02

“A tendência foi pescada no ar pelo colunista Howard Kurtz, do jornal ?The Washington Post?: o presidente George W. Bush está sendo ?clintonizado?.

Como o democrata Bill Clinton, seu antecessor, Bush é sucesso de público (seus índices de aprovação estão acima da média histórica), mas virou fracasso de crítica, liderada pela imprensa e formadores de opinião.

O jornalista cita como argumento a última pesquisa do jornal ?The New York Times? e da emissora CBS. Segundo o levantamento, 66% dos entrevistados crêem que Bush está mais interessado em proteger as grandes empresas do que os dos americanos e 48% dos ouvidos acham que ele está escondendo algo.

Mesmo assim, 70% das pessoas entrevistadas aprovam a gestão Bush até agora. Se o povo o continua aprovando, o mesmo não se pode dizer dos formadores de opinião, num fenômeno parecido com o ocorrido há seis anos com Clinton, durante o escândalo Monica Lewinsky.

Assim, os ?talk shows?, que tomam o fim de noite de todas as emissoras abertas dos EUA e são um dos principais termômetros do humor dos americanos, têm dedicado boa parte de seu tempo em ridicularizar a onda de escândalos contábeis que atinge o país e a maneira com que Bush vem lidando com o problema.

?Como uma companhia telefônica como a WorldCom pode perder dinheiro??, perguntou em seu monólogo inicial Jay Leno. ?É como um traficante declarar que está pedindo concordata durante um show de jazz…?

David Letterman, em uma de suas listas ?Top Ten?, incluiu esse item como número 6 dos ?fatos pouco conhecidos do ar-condicionado?: ?O vice-presidente Dick Cheney conduz muitos de seus crimes financeiros em salas com ar-condicionado?.

Quase simultaneamente vieram as correntes da internet. Uma delas cria o termo ?CEOnistas?, um bando formado pelos 10 mil diretores-executivos (CEOs, na sigla em inglês) de grandes corporações que ainda não foram pegos e que estão fugindo para o México, destruindo tudo no caminho. Como reconhecê-los? ?Eles declaram o dinheiro gasto nos saques de cidades como despesas de trabalho.?”

“Hollywood intensifica cooperação com CIA e Pentágono”, copyright Folha de S. Paulo / Le Monde, 28/7/02

“Os filmes de guerra americanos, como ?A Soma de Todos os Medos?, em que terroristas explodem uma bomba nuclear, trazem à tona os laços estreitos -ainda mais desde 11 de setembro- existentes entre a indústria cinematográfica e as autoridades norte-americanas, preocupadas em melhorar a sua imagem.

Desde 11 de setembro, quase um terço dos filmes líderes de bilheteria nos EUA se enquadra no gênero guerra. ?Falcão Negro em Perigo?, de Ridley Scott, reconstituiu a fracassada intervenção americana na Somália. ?We Were Soldiers?, de Randall Wallace, retoma o tema da Guerra do Vietnã, e ?A Soma de Todos os Medos?, de Phil Alden Robinson, ressuscita o espectro de uma guerra nuclear. O cinema de guerra não vive um momento tão dinâmico desde os filmes sobre o Vietnã feitos em meados dos anos 1980 (?Platoon?, ?Hamburger Hill?).

Esse retorno do gênero não se explica tanto pelo ?efeito 11 de setembro? quanto pelo sucesso de ?O Resgate do Soldado Ryan?, de Steven Spielberg, lançado em 1998. Mas, como observa Jim Hoberman num artigo publicado em 28 de junho no ?The Village Voice? e intitulado ?Como Hollywood aprendeu a parar de se preocupar e passou a amar a bomba? (em referência ao subtítulo de ?Dr. Fantástico?), nunca, desde a grande época dos filmes de guerra da era Reagan, como ?Rambo?, ?Top Gun, Ases Indomáveis? e ?Desaparecido em Ação?, Hollywood pareceu estar tão próxima de Washington.

Há pouco pudemos ver o vice-presidente americano, Dick Cheney, ao lado do secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, na estréia de ?Falcão Negro?, em Washington. Quando a estréia foi adiantada, em dezembro de 2001, para aproveitar o ?efeito 11 de setembro?, cópias do filme foram enviadas às bases norte-americanas no exterior. ?We Were Soldiers? e ?A Soma de Todos os Medos? tiveram direito ao mesmo tratamento oficial. O filme de Wallace foi exibido, em sessão reservada, a George W. Bush, Donald Rumsfeld, Condoleezza Rice e vários altos funcionários de Washington.

A estréia mundial de ?A Soma? aconteceu em Washington. A Paramount fez questão de informar a imprensa sobre a ajuda excepcional que o filme recebeu da CIA (agência de inteligência) e do Pentágono (comando militar dos EUA). Em troca de um valor simbólico, os criadores do filme tiveram acesso a informações classificadas como ?confidenciais?.

A troca foi benéfica a ambos os lados. Os produtores de ?A Soma? puderam conferir a seu filme um grau inédito de realismo, enquanto a CIA e o Pentágono, pelo fato de exercerem controle estreito sobre seu conteúdo, puderam utilizá-lo em seus esforços de recrutamento, num momento em que o serviço militar deixou de ser obrigatório, apesar de o país travar uma guerra no Afeganistão.

Essa lua-de-mel entre Hollywood e o Pentágono não é novidade. Ela faz parte de uma longa história relatada pelo historiador militar Lawrence D. Suid em seu livro ?Guts and Glory : the Making of the American Military Image in Film? (University Press of Kentucky, 2002). Ele mostra no livro que os laços entre Hollywood e o Pentágono sempre foram estreitos e remontam a 1915, com ?O Nascimento de uma nação?, de D.W. Griffith, para o qual os engenheiros da academia militar de West Point contribuíram com apoio logístico para as sequências ambientadas durante a Guerra Civil Americana.

Essa aliança entre Hollywood e o Pentágono, porém, parecia impossível logo após 11 de setembro. Os estúdios de Hollywood fizeram questão de adiar o lançamento de produções suas em que apareciam terroristas, entre elas ?Efeito Colateral?, com Arnold Schwarzenegger. Eles engavetaram todos seus projetos que tratavam do tema, como ?World War III?, produzido por Jerry Bruckheimer (?Top Gun?, ?Pearl Harbor?, ?Falcão Negro?), no qual as cidades de San Diego e Seattle são destruídas por uma bomba nuclear, e ?Nose Bleed?, em que Jackie Chan deveria interpretar um lavador de carros que desmascara um complô para destruir o World Trade Center. Hollywood parecia disposta a dar a mão à palmatória depois de 11 de setembro, como que antecipando um castigo merecido. O ?Los Angeles Times? observou que o gosto de Hollywood pelos filmes-catástrofe ou os que mostravam atos terroristas tinha simplesmente desaparecido. Um produtor da DreamWorks explicou que a época em que o estúdio produzia filmes como ?O Pacificador? ou ?Impacto Profundo? ficara para trás.

Mas o público discordou. A edição de 3 de outubro do ano passado do ?Washington Post? chamava a atenção para o fato de que ?Rambo? estava entre os títulos mais procurados nas videolocadoras. Em lugar de ser punida, Hollywood foi recrutada. Pouco depois de 11 de setembro, o Instituto de Tecnologias Criativas da Universidade do Sul da Califórnia, patrocinado pelo Pentágono, organizou diversas reuniões com roteiristas e diretores. O objetivo das reuniões, dirigidas pelo general Kenneth Bergquist, era imaginar possíveis roteiros de ataques terroristas e preparar uma eventual resposta.

Lawrence H. Suid conta como Washington sempre se aproxima de Hollywood em tempos de guerra, de maneira sistemática.

Assim, nos anos 1960, após o lançamento de ?Limite de Segurança?, de Sydney Lumet, ?Dr. Fantástico?, de Stanley Kubrick, e ?Sete Dias em Maio?, de John Frankenheimer, que ofereciam uma imagem crítica e irônica de Washington e do Pentágono, o general Curtis LeMay interveio com o produtor Sy Bartlett, da Universal, para que começasse a produzir um filme que iria glorificar a Força Aérea americana, com Rock Hudson.

A novidade, hoje, não está tanto no nível inédito de colaboração entre o Pentágono, a CIA e a indústria do cinema, mas na maneira como Washington parece estar elaborando sua estratégia de comunicação por causa de determinados filmes de Hollywood.

Assim, o secretário da Justiça, John Ashcroft, esperou até a segunda-feira após o segundo fim de semana em que ?A Soma de Todos os Medos? estava em cartaz para anunciar a prisão do terrorista Abdullah al Mujahir, cujo nome verdadeiro é José Padilla. Ligado à Al Qaeda, ele planejava um atentado semelhante ao que acontece no filme de Phil Alden Robinson. Mais estranho ainda: John Ashcroft estava em Moscou no momento do anúncio, como que para fazer eco ao que acontece em ?A Soma?, em que a cooperação russo-americana salva o mundo do caos.

Será que, para saber se os EUA vão ou não intervir no Iraque, devemos ficar atentos ao calendário de lançamentos do cinema?”

***

“?Somos retratados como vilões?, diz agente”, copyright Folha de S. Paulo / Le Monde, 28/7/02

“Chase Brandon é agente do departamento de relações públicas da CIA (agência de inteligência dos EUA), encarregado de fazer a ligação entre a sua organização e Hollywood. Ele reclama de que muitos filmes retratam os membros da CIA como vilões, desprezando os serviços prestados por eles aos EUA.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Pergunta – O que é o seu trabalho na CIA?

Chase Brandon – Eu ajudo os diretores de TV, cinema e documentários que querem passar uma imagem correta e imparcial da CIA. Respondo às perguntas deles, levo-os para conhecer nossas instalações, organizo entrevistas e dou apoio logístico. Recentemente trabalhei com ?Inimigo do Estado?, de Tony Scott ; ?Má Companhia?, de Joel Schumacher; ?A Soma de Todos os Medos?; ?The Agency? (um seriado sobre a CIA que, no Brasil, é transmitido pela TV por assinatura Sony); e documentários para os canais History e Discovery.

Pergunta – Essa preocupação de participar da produção audiovisual indica que a CIA não estava satisfeita com a maneira como vinha sendo retratada?

Brandon – Não estava mesmo. Éramos descritos como uma organização especializada em tramar golpes de Estado e assassinatos políticos. Temos pessoas extremamente talentosas trabalhando para nós: matemáticos, especialistas em informática, linguistas etc. Esses funcionários são dedicados, honestos e patriotas.

Nós protegemos a liberdade e a segurança dos americanos. Combatemos a proliferação das armas e do terrorismo. Mas nos mostram no cinema como vilões, e não como heróis. É insuportável.

Pergunta – ?Jogo de Espiões?, de Tony Scott, lançado no final de 2001, mostrava a CIA sob um ângulo relativamente crítico. Vocês colaboraram com esse filme?

Brandon – Começamos a trabalhar com a Universal em ?Jogo de Espiões?, mas desistimos porque o roteiro mostrava um dos chefes da CIA indiferente ao que ia acontecer com um de seus agentes. É uma hipótese impensável. Assim, esse aspecto do roteiro de ?Jogo de Espiões? é totalmente falso.

Pergunta – As falhas de 11 de setembro e a incapacidade de sua organização de prevenir os atentados obrigaram a CIA a rever a estratégia de comunicação?

Brandon – Somos criticados quando há uma falha. É normal. Mas temos muitos êxitos, como a captura de terroristas ou a interceptação de tráfico de drogas, só que essas vitórias não vêm à tona -são informações confidenciais.”

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