Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > FOTOJORNALISMO

Deonísio da Silva

Por lgarcia em 07/05/2003 na edição 223

LÍNGUA PORTUGUESA

“Português para inglês ver”, copyright Jornal do Brasil, 4/05/03

“Nossos governos apregoaram ao longo de décadas avanços impressionantes na guerra contra o analfabetismo. Os leitores da faixa otária deste cronista já devem ter ouvido, visto e lido muitos programas que prometiam levar o Brasil ao analfabetismo zero. Nossa geração não pertence, pois, a nenhuma faixa etária e, sim, a alguma faixa ?otária?, pois, à semelhança do que recomendou o apóstolo São Paulo, combatemos o bom combate, privamo-nos de muitas coisas e aguardamos que nossos maiorais conduzissem o Brasil a seu glorioso destino. Qual era, mesmo, hein?

Apoiadas em números, várias foram as autoridades que proclamaram ter melhorado a nossa calamitosa situação na Galáxia Gutenberg. E, como sempre acontece com os que se jactam de tudo, brandiram estatísticas para levar à rendição qualquer crítico. Mas eis que de repente, não mais que de repente ou não mais que Vinicius de Moraes, lemos uma notinha perdida num canto de página de um jornal. Num dos mais desenvolvidos Estados da Federação, certa mãe, inconformada com o fato de o filho, pimpolho, rebento ou que outra designação se aplique ao seu galalauzinho, não saber ler, resolve apelar aos tribunais. Que alega a indigitada mulher no processo? Que a qualidade do ensino era tal que o adolescente sequer aprendeu a ler e a escrever, passados oito anos nos bancos escolares.

Nosso ano letivo é uma lindeza. Até recentemente tinha apenas 180 dias. Isto mesmo, seis meses, metade do ano. Mas apenas em meio período. O ano tem 365 dias, mas devem ser descontados os sábados, os domingos, os feriados, os dias disso, os dias daquilo, o carnaval, as férias e, claro, como lembrou outro dia Augusto Nunes, os pontos facultativos. Se as escolas dessem aulas durante 90 dias em período integral, já atenderiam ao que prescrevem as leis. Está bom assim? Não. Há mais. O professor tem direito a faltar a 25%. Os alunos, outros 25%, pois a isonomia e a paridade são bandeiras que jazem alevantadas há décadas! Se docentes e discentes combinarem faltar em dias diferentes, com um mês e meio de aula estará cumprido o ano letivo.

Quer dizer, o quadro não é assim em todo o Brasil. Mas vigora em muitos rincões de nossa pátria, sem exagero, um quadro de tintas semelhantes ao descrito. O ensino fundamental e médio é para inglês ver. E as hordas que destruíram o ensino público nessas esferas investem há anos contra os muros dos campi. O grande milagre educacional brasileiro tem o seu lugar e a sua hora em nossa História. Temos um sistema universitário que se destaca em docência e pesquisa. Mas onde e como? Quantos são os arquipélagos onde reina a qualidade? E até quando? O que sabemos é que são territórios sitiados.

E mesmo onde a qualidade de pesquisa é destaque — nas ciências exatas, por exemplo — a língua portuguesa é tratada a pontapés. Papers substituem artigos, textos, relatórios. Nossa língua apresenta um verdadeiro arsenal de expressões, temos palavras para tudo, mas o latim do império, o inglês, irrompe aqui e ali com uma freqüência assustadora, às vezes acompanhado de um séquito de mercenários de outras línguas, pois é chique inserir também algumas prebendas de francês, italiano e – para espíritos mais afeitos ao cult – de alemão ou de qualquer outro idioma que não seja o nosso.

Muitos luminares não fazem intervenções em congressos. Fazem colocações. O galináceo certamente teria melhor desempenho e provavelmente mais pudor, pois as aves fazem suas colocações em ninhos ou granjas, pagando algum tributo ao recato. Proeminentes figuras públicas não pensam sobre alguma coisa. Pensam de quê. ?Eu penso de que o companheiro comete um equívoco.?

Nos congressos – ou, quem sabe, nos eventos, pois tudo virou evento – muitas são as estrelas acadêmicas que proferem seus atos de fala num desjeitoso português, repleto de torneados herméticos, que parecem contrariar a proverbial recomendação do velho Chacrinha, o doutor Abelardo Barbosa, que estava com tudo e não era prosa: ?quem não se comunica se trumbica?.

Sim, há vários indícios de que as línguas do Brasil destinam-se, nos casos aludidos, ao velho dito que a tradição consagrou: para inglês ver. A velha frase foi dita pela primeira vez em 1808, quando a família real chegou ao Brasil, então ainda colônia de Portugal. A cidade de Salvador, nossa capital, estava iluminada e Dom João VI comentou que aquela recepção festiva demonstrava aos ingleses, aliados e protetores dos portugueses, que os brasileiros recebiam-no calorosamente. Virou, depois disso, símbolo de burla nacional ou internacional, sempre de grandes proporções, em que são utilizados vistosos aparatos para enganar. Alguns historiadores dizem que a frase pode ter nascido também da fingida vigilância com que os navios brasileiros procuravam navios negreiros. Faziam isso apenas para agradar aos ingleses, que haviam proibido o tráfico de escravos.

Quer dizer, nossos fingimentos são antigos. Proclamamos que a língua oficial do Brasil é uma. Mas como a tratamos? Sendo nossa mãe, patrimônio público, marca de identidade nacional, ferramenta de trabalho, instrumento de cidadania e meio de expressar a nossa vida, merece maiores cuidados. Se nada pudermos fazer por ela, respeitemos pelo menos as relações de parentesco. Afinal, já é antigo o mandamento ?honrar pai e mãe?. Do contrário, daremos razão ao Barão de Itararé: ?de onde menos se espera, dali mesmo é que não sai nada?.”

***

“Línguas do Brasil”, copyright Jornal do Brasil, 27/04/03

“Todos se queixam de que português é difícil. O brasileiro é chorão? Não me parece que possa ser definida como chorona uma nacionalidade marcada pelo carnaval, o humor e o riso catártico, com os quais suporta males seculares.

A queixa pode ser assim resumida: a língua falada é uma, mas a escrita é outra. Em todas as línguas dá-se algo semelhante, mas no Brasil plasmaram-se variedades lingüísticas impressionantes que tornam a língua portuguesa, na fala como na escrita, repleta de sutis complexidades, entretanto ausentes em Portugal e em outras nações lusófonas. E por maiores que sejam nossas taxas de analfabetismo, somos a maior nação lusófona do mundo.

Aqui o português de Portugal, por assim dizer, convive com diferentes línguas. Gastamos verbas que não temos para fazer com que nossas crianças grafem de mil maneiras o mesmo fonema. Exemplos sumários: sapato, extra, exceção, sessão, feliz e ascensão demandam que o som de ?s? seja escrito com s, x, c, ç, ss, z. E ainda temos ?s? com som de ?z?, por estar entre duas vogais (casa). Ou não, como dizem mineiros e baianos (trânsito). Conceitos equivocados levaram-nos a uma grafia doida, que poucos aprendem.

O inglês Thomas Young e o francês Jean-François Chamberlain, que decifraram a pedra de Roseta, sabiam diversas línguas, mas ignoravam o português. Se aprendessem a língua do Brasil, descobririam que entre nós os gramáticos substituíram os sacerdotes e os escribas. Em conluio, uns e outros espalhavam sinais entre hieróglifos com o fim de ocultar o significado do que escreviam, dando-se também ao prazer de se divertirem com os ornamentos incrustados na argila. Seu fim era complicar a escrita simples, inventada na Mesopotâmia por volta do ano 3300 a.C. e dali levada para o Egito por guerreiros e comerciantes, com o fim de utilizá-la como instrumento de dominação numa sociedade em que a taxa de analfabetismo avant la lettre chegava a 99%.

A habilidade verbal do brasileiro é coisa que admira e consterna. Nos bares, nas ruas, em prosas à beira de copos ou pratos, no rádio e na televisão, a língua do Brasil floresce em todo o seu esplendor com suas diferenças, seus ritmos, os modos muito próprios de tratamento, que misturam tu e você, por exemplo, quando a gramática trata o primeiro como segunda pessoa, e o segundo, como terceira.

Quando o brasileiro precisa escrever, entretanto, começa a tropeçar logo nas primeiras linhas. Aliás, se é documento dirigido a alguma autoridade, as vacilações surgem ainda antes de que seja escrita a primeira letra. Com efeito, entre os atrapalhos iniciais está o de tratamento.

Na universidade, nosso reitores precisam ser chamados de magníficos. E o governo de Fernando Henrique Cardoso deu-se ao trabalho de disciplinar o uso dos pronomes no serviço público, à semelhança do que fizera seu longínquo antecessor, o rei Dom João VI. Até que houve algumas mudanças pertinentes. Afinal, havia e há funcionários que exigiam e exigem o tratamento de doutor e que não eram e não são doutores em nada. E mais uma vez surgiria a dúvida: havia ou haviam funcionários? Deputados, senadores, somados a altas figuras do Judiciário e do Executivo, são flagrados dizendo e escrevendo ?houveram várias tentativas de…? Por aí e assim!

Precisamos de uma Constituição para a língua do Brasil. A escritora Lygia Fagundes Telles relembra a forte impressão que lhe causaram os célebres versos de Olavo Bilac sobre a língua portuguesa: ?Última Flor do Lácio, inculta e bela,/ És a um tempo esplendor e sepultura.? Menina ainda, perguntou ao pai, homem do Direito, o que ia ser de sua vida. Tinha seus dez ou 12 anos, já queria ser escritora, mas estava preocupada: escrever numa língua que seria sepultura? ?Minha filha, se você chegar a escrever bem um dia, e eu espero que sim, não precisa ser francês, alemão, espanhol. Você escreverá em português.?

Todos poderíamos escrever em português, mas na língua do Brasil, desvencilhando-nos dessas dificuldades que gramáticos sabidos, semelhando sacerdotes e escribas, impuseram a um patrimônio que é do povo brasileiro. Não se trata de estudar menos, mas de aprender a l&iiacute;ngua do Brasil à luz de novos conceitos e com outros fins, dentre os quais emerge soberano o do exercício da cidadania. Esse privilegia os atos de ouvir, falar, ler e escrever. É para isso que aprendemos português!”

 

FOTOJORNALISMO

“Eder Chiodetto retrata autores em seus ofícios”, copyright IstoÉ, 4/05/03

“Ao chegar com seu equipamento no apartamento carioca da escritora Rachel de Queiroz, o fotógrafo e jornalista Eder Chiodetto foi saudado com uma negativa ranzinza. ?No meu escritório ninguém entra. Nunca nenhum repórter entrou. Quanto mais um fotógrafo?, disse ela, que acabou sendo retratada na sala. A recusa de Rachel em ser flagrada na intimidade, comum à maioria dos seus pares, dá a medida da dificuldade enfrentada por Chiodetto no seu atemporal e oportuno livro O lugar do escritor (Cosac & Naify, 190 págs., R$ 77), que reúne retratos de 36 escritores no local de trabalho. A idéia de Chiodetto, editor de fotografia do jornal Folha de S.Paulo, era ter acesso ao mundo da ficção. ?Que ressonâncias desse mundo inventado eu encontraria no escritório??, pergunta ele na apresentação.

Para amplificar a acuidade dos retratos, Chiodetto sabiamente ?ilustrou? as imagens com depoimentos dos autores sobre seu ofício. Flagrada no sofá da sala, Nélida Piñon, por exemplo – que passou a escrever com caneta em razão das constantes viagens -, afirma sentir uma alegria especial quando a tinta acaba. ?Significa que avancei um pouquinho no texto?, conta. Milton Hatoum, mostrado no enquadramento por uma fresta, é outro que dispensa laptops. ?No papel, há espaço para a dispersão, também necessária. Se um parágrafo está difícil, desenho, escrevo bobagens, brinco com as palavras.? Filosófico à sua maneira, Luis Fernando Verissimo, clicado na penumbra, à luz da tela do computador, é incisivo. ?Você descobre o que pensa, escrevendo?, afirma. Sem dúvida, são jogos de imagens e textos. Porém, o que este belo livro revela não é apenas o lugar do escritor, mas o tempo interior de cada um deles.”

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