Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > TRANSGÊNICOS

Deonísio da Silva

Por lgarcia em 21/02/2001 na edição 109

OFJOR CI?NCIA

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TRANSGÊNICOS

"Bové, um herege científico", copyright Época, Edição 144, 19/02/01

"O papa já se penitenciou por Galileu Galilei. Quem pedirá perdão aos cientistas dos transgênicos?

Lembremo-nos de Elis Regina: As aparências enganam/Aos que odeiam e aos que amam/Porque o amor e o ódio/Se irmanam na fogueira das paixões. Ou de uma passagem de Os noivos, do escritor italiano Alessandro Manzoni: ?È uno dei vantaggi di questo mondo quello di potere odiare ed essere odiati senza conoscersi?. Traduzo a citação: ?Uma das vantagens deste mundo é poder odiar e ser odiado sem se conhecer?.

Confesso que escrevo estas linhas com uma ponta de melancolia. As citações não passam talvez de modo desjeitoso de aludir ao cenário do escotoma cintilante que, a partir de Porto Alegre, tomou conta do Brasil e repercutiu, por causa de Davos, em metrópoles do Primeiro Mundo. Refiro-me ao ativista francês José Bové, apresentado como nosso mais recente redentor no Fórum Social Mundial, idealizado como contraponto ao Fórum Econômico Mundial, que teve lugar na Suíça.

José Bové vilipendiou-nos, a partir do Brasil meridional, com a cumplicidade e a omissão de autoridades de relevo. Não apenas autoridades executivas, legislativas e judiciárias, mas também a tautológica autoridade de autores, vinculada a direitos e deveres que os intelectuais têm para com a sociedade.

O município onde vinha sendo cultivado o experimento científico que se faz com soja transgênica fica a 268 quilômetros de Porto Alegre e se chama Não-me-Toque. Não é ironia adicional a própria denominação? Pois tocaram nele! O ativista, acompanhado de integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), invadiu a plantação e destruiu a experiência científica. Tal atitude é água no monjolo daquelas forças que consideram a questão social como caso de polícia.

Que os cidadãos, divididos, aprovem ou desaprovem suas blasfêmias contra a modernidade. São direitos democráticos, assegurados em lei. Mas destruir a roça dos outros não tem cobertura legal. Nem aqui, nem na França. E a pesquisa científica não se faz à base de uma falsa luta entre o Bem e o Mal. Já passamos a idade das trevas. Como lembrou Michel Foucault, o filósofo conterrâneo de José Bové, ?as luzes que descobriram as liberdades inventaram também as disciplinas?.

No entanto, esse outro francês fez tudo isso não sem a omissão de personalidades que na aparência integram um exército de mariposas que proclamam abominar um mundo moderno que lhes dá fama instantânea, justamente pelo avanço tecnológico e científico que permite a onipresença de luzes, câmeras e repórteres onde quer que os fatos aconteçam. E aquele que deveria ser recebido com cautela pelos trabalhadores brasileiros foi imediatamente proclamado herói, graças ao maravilhoso poder de difusão da Galáxia Gutenberg.

Se quisessem, os cidadãos gaúchos tinham e têm à disposição meios legais para impedir experiências que mereçam ser destruídas. Quem decide não são hereges científicos como o senhor José Bové. Somos pródigos em hereges leigos. Vários deles são apoiados pela Igreja Católica até o limite em que mexem também com ela, como ocorreu a Antônio José da Silva, no século XVIII, ou a Leonardo Boff, recentemente, punidos sem os clássicos direitos humanos que diz defender.

Os poderes do Estado devem ser leigos, como entendia o Marquês de Pombal, déspota, porém esclarecido. Substituídos por dogmas religiosos e anticientíficos, resultam em fogueiras de outros heréticos, sejam leigos, sejam religiosos. O papa já pediu perdão por Galileu Galilei. Quem pedirá perdão aos cientistas que estão trabalhando na pesquisa com os transgênicos? Ou serão eles que devem perdoar Bové e seus asseclas com o clássico ?Eles não sabem o que fazem??"

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