Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES >   JORNALISMO CULTURAL

Deoníso da Silva

Por lgarcia em 07/10/2003 na edição 245

LÍNGUA PORTUGUESA

“Estilo emperiquitado”, copyright Jornal do Brasil, 6/10/03

“?O estilo é o próprio homem.? A frase foi extraída do discurso de posse de Georges Buffon na Academia Francesa. Desde o século 18 tem servido para ilustrar a afirmação de que, à semelhança da fala, também a escrita tem variações, às vezes muito sutis, que permitem identificar seu autor.

Rui Barbosa, mesmo em artigos escritos especialmente para os jornais, esquecia que o público era outro e os leitores não tinham obrigação de fazer um curso, ainda que breve, para entendê-lo. ?O panfleteiro descachola de sua cachimônia estes comentários burlescos?, escreveu certa vez.

É um estilo que lembra o do professor Astromar, de Roque Santeiro, que ao chegar à casa da namorada pergunta: ?Posso penetrar??. No contexto, a questão tem uma engraçada ambigüuuml;idade, pois a moça é virgem. Penetrar, dito em tal contexto, torna inevitável a referência implícita ao ato sexual. Na televisão, resultou em divertida cena, repetida a cada visita que fazia à namorada, vivida pela atriz Lucinha Lins.

Mas se penetrar é palavra de todos conhecida, variando, porém, o significado de acordo com o contexto em que aparece, ?panfleteiro? e ?descacholar? continuam ausentes dos dicionários. O grande jurista, querendo desqualificar o texto que criticava, referiu-se ao autor como ?panfleteiro?, recusando as opções que a língua portuguesa já oferecia desde o século 19: panfletista e panfletário.

Testei o estilo num café, com um garçom baiano. ?O mancebo poderia angariar-me pequena efusão escaldante de rubiácea?? E, sem dar atenção ao espanto do rapaz, acrescentei: ?Mas sem desoxirribose, por obséquio?. Depois expliquei-lhe que tudo aquilo significava apenas um cafezinho sem açúcar. O garçom, que freqüentemente era xingado de ignorante por um advogado, quando viu seu algoz chegar, perguntou: ?Vai uma efusão de rubiácea sem desoxirribose??. ?O mais difícil foi a desoxirribose?, me disse alguns dias depois.

A busca da ornamentação forçada leva a emperiquitar o estilo. Na década de 1960, provavelmente depois de 1964, o Brasil foi infestado por uma praga lingüística, logo acrescida ao famoso rol das dez que afligiram o povo egípcio ao tempo de Moisés. Técnicos e burocratas pavoneavam-se na imprensa, fazendo previsões e análises em linguagem que os jornalistas logo tacharam de economês. Tal jargão tornava incompreensíveis, até mesmo para seus autores, os comentários sobre a economia, ditos ou escritos.

Uma coisa é enfeitar o estilo, buscar a beleza e não apenas a objetividade. Outra, bem diferente, é emperiquitar o texto, o que denota deselegância semelhante à roupa incompatível com a ocasião. A clássica pergunta ?com que roupa eu vou?? bem que poderia ser aplicada por analogia às variações da escrita. Perguntado o que achava da linguagem de Jânio Quadros, um taxista saiu-se com esta: ?A fala dele é como salsicha, ninguém sabe o que tem dentro?.

É possível rastrear, na moda e na linguagem, o nascimento da arte de emperiquitar-se. É metáfora que fez insólito caminho em nossa língua. Periquito é palavra de origem espanhola. Veio de perico, diminutivo de Pero, Pedro. A tradução literal de periquito, em espanhol, seria Pedrito. Em português, Pedrinho. Suas penas foram utilizadas em leques e serviram também para ornamentar os penteados. Assim, emperiquitar-se veio a designar o modo, em geral extravagante, com que certas mulheres arrumavam os cabelos na Península Ibérica, incrustando penas desse pássaro nos arranjos caseiros para enfeitar-se. Posteriormente, as penas foram utilizadas também em pulseiras, gargantilhas, brincos etc. E emperiquitar-se virou sinônimo de se arrumar para festas, como as de Natal e Ano Novo, destacando-se pelo exagero.

Entre os que mais emperiquitam o estilo estão as imobiliárias e os condomínios. Seus redatores devem seguir o famoso dito: por que o simples, se o complicado também serve?”

 

JORNAL DA IMPRENÇA

“Ignorância e patrulhamento”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 2/10/03

“Em comentário arrevessado sob a coluna da semana passada, o militante de movimentos dito ?pacifistas? Ricardo Galhardo, que se apresenta como repórter da sucursal paulista de O Globo (não creio que estivesse a serviço do jornal), acusa-me, entre outros crimes, de ?reforçar o lobby pró-armas? e ainda insinua que estou a soldo de alguma instituição mafiosa. Diz o irresponsável: ?Lá na minha terra, arma é coisa de bandido. Ou de polícia. Homens de bem carregam, no máximo, canivete pica-fumo. Proteção? Que proteção? Proteção de quem? Só se for dos fabricantes ou das pessoas que deles recebem algum. No Congresso está cheio delas. Na imprensa também?. Reproduzi o trecho conforme pode ser verificado nos ?artigos em arquivo?, embora o texto rogue por um piedoso copidesque.

Ignoro qual seja a ?terra? a que se refere o atabalhoado militante, porém ele sabe que não sou da polícia; devo ser então bandido, segundo seu julgamento, julgamento tão rápido quanto Billy the Kid no gatilho, estão aí os filmes de faroeste que não me deixam exagerar.

Desde o início dos tempos, os homens têm escrito seu nome a bala e assim a História se fez; o destino da humanidade sobre a face da Terra está intimamente ligado a revoluções e guerras; o nazismo foi destruído à força de pólvora e chumbo, porém na ?terra? desse pouco galhardo Ricardo, arma de fogo é coisa de bandido.

Talvez porque lhe seja impossível acocorar o jornalismo até o nível de seus conhecimentos, o militante intenta, à falsa fé, proeza ainda mais inalcançável que é mudar a História. Até mesmo a história de sua ?terra?, porque dificilmente algum herói local jamais tenha pegado numa arma, nalgum momento das atribulações municipais. Os que pautam a pobre existência pelos trâmites do comportamento ?politicamente correto? haverão de incorrer sempre em tais arroubos de estupidez.

Ora, manter em casa uma arma adquirida legalmente é direito do cidadão. Todavia, se este comete algum crime, existe a lei para puni-lo e pronto. Não se pode proibir as armas indiscriminadamente porque acontecem acidentes e uso canhestro ou indevido – e queriam proibir até a fabricação!!! Um conterrâneo do militante pode cometer bárbaro assassinato com o inocente canivete pica-fumo e nem por isso os demais viciados no cigarrinho de palha merecem a punição de recorrer ao cortador de unha.

O procedimento mais repugnante dos ?politicamente corretos? é julgar e condenar os refratários à canga que envergam. Incapazes do mais elementar raciocínio, engrossam as hordas da intolerância que num passado não tão remoto levaram muitos à fogueira do Santo Ofício. A heresia desse nosso tempo dito ?moderno? são as armas de fogo, porém Galhardo et caterva jamais se referem àquelas preciosidades da tecnologia que fazem a diferença nos arsenais do crime organizado. Como este cospe e anda sobre os movimentos ?pacifistas? e certamente nenhum bandido fará doação de seus AR 15 às autoridades, é melhor mostrar serviço no seboso expediente de tentar constranger os cidadãos que mantêm arma em casa.

A militância, qualquer que seja, não é, definitivamente, comportamento de jornalistas. A Imprensa necessita de profissionais que tenham competência e vergonha na cara. Se Ricardo Galhardo se vale de sua sesquipedal parvoíce, preconceito e cínica má-fé para também perpetrar reportagens, O Globo está mal servido em São Paulo.

(Antes que me reclamem pela fuga ao ?espírito da coluna?, devo esclarecer que no contrato jamais assinado com este portal inexiste cláusula que obrigue o colunista a aceitar, de bom humor, calúnias e patrulhamento ideológico expelidos por cretinos.)

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Abrindo contagem

Janistraquis anda fascinado com a dupla que transmite as sessões de boxe da ESPN Internacional: ?Considerado, como são afinadíssimos o Régis Nestrovski e o Roberto Figueiroa, hein? É impressionante como duas criaturas que não entendem patavina desse esporte conseguem transmitir as lutas com tanta verve, tanta graça e veneno!…?. É mesmo. Nestrovski narra, com sotaque e tudo, qualquer combate como se fosse uma briga de rua no Curral das Éguas (subúrbio do Rio de Janeiro) e o companheiro dele leva seguidos e divertidíssimos knock.downs da língua portuguesa. A dupla tem alegrado as noites de terça aqui no meio do mato.

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Mudanças climáticas

Acochada sob o título Índia: Desastre climático na pior onda de calor das últimas décadas, texto-legenda de O Globo esclarecia: ?(…) O sul da Índia vem sendo sistematicamente castigado por secas e temperaturas escorchantes que, para muitos cientistas, estão associadas ao mau uso do solo e da água e também às mudanças climáticas(…)?.

?Temperaturas escorchantes?. O Aurélio registra escorchar, verbo que significa descascar, tirar a pele, cobrar preços exorbitantes, entre outras e bizarras acepções. Dizer-se que um preço é escorchante, entende-se, mesmo à margem do dicionário; porém, ?temperaturas escorchantes? seria um calor tão arretado que esfolaria os indianos?

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Dura de matar

No eletrizantemente jornalístico ?Brasil Urgente?, da Rede Record, o agitado repórter transmitia, da porta do Forum onde o médico assassino Farah Jorge Farah prestava depoimento: ?Ele esquartejou e…matou a namorada!?. Achei esquisito, porém Janistraquis, que tem experiência de IML, esclareceu: ?Ah!, considerado… é que tem muita gente difícil de morrer e, mesmo depois de esquartejada, continua viva. Então, só resta ao frio assassino matá-la em seguida…?. É procedente, é procedente.

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Frio da pomba!

Cláudio Cunha, considerado leitor desta coluna, escreveu esta que dormitava enroscadinha em nosso arquivo recente:

?O que Janistraquis diria dessa nota publicada no Estado de Minas?

Sob o título Corpos Nus desafiam o inverno, lia-se o seguinte: ?Mais de 7 mil pessoas enfrentaram o frio na manhã de ontem, em Barcelona, e tiraram a roupa para participar do trabalho do fotógrafo Spencer Tunick(…)?. O texto continua e uma foto colorida mostra milhares de pessoas nuas, encolhidas no chão.

O jornalista só não percebeu que o pessoal estava encolhido por orientação do fotógrafo, pois, ao que se sabe, o Inverno só vai chegar daqui a seis meses lá pelas bandas de Barcelona!?

Como neste início de Primavera ainda está frio pra cacete aqui no sítio, Janistraquis abriu a boca para responder a pergunta do leitor mas desistiu e enfiou goela abaixo um generoso copo de Fundador, em homenagem ao pessoal de Barcelona e adjacências.

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Raro acontecimento

A revista Istoé, onde trabalhei durante pouco mais de dois anos, no final da década de 70, já cedeu, como suas concorrentes, bom material a este Jornal da ImprenÇa; todavia, numa comovedora prova de que não cultiva esse baixo sentimento a que chamamos rancor, abriu espaço ao recém-lançado Concerto Para Paixão e Desatino – Romance de uma Revolução Brasileira. O leitor desta coluna pode conferir no site da revista: www.istoe.com.br. Agradeço ao editor Eduardo Marini pelas belas palavras.

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Errei, sim!

?QUASE DIÁRIO – Às gargalhadas, recebi uma jóia vinda de Belém do Pará. Dizia um anúncio do Clube do Remo: Diariamente, quase todos os dias, o Remo é notícia em O Liberal. Janistraquis perdoou a diretoria do clube: ?Considerado, diariamente, quase todos os dias, é melhor do que semanalmente, de dois em dois anos…?. (março de 1994)”

 

JORNALISMO CULTURAL

“O efeito Gault & Millaut”, copyright Comunique-se (www.comuniquese.com.br), 30/09/03

“Deve querer dizer alguma coisa quando uma instituição de sua cidade adotiva, a Academia de Artes e Ciência Cinematográficas de Los Angeles, lhe dá um passe preferencial para suas sessões especiais, e uma instituição de sua cidade natal, o Festival de Cinema do Rio, ignora você completamente.

A primeira conclusão é que eu significo coisas diferentes para uma e para outra. Esse significado não tem a ver comigo, mas com a instituição, porque reflete os valores e as necessidades dela, e não os meus. Eu sei quem eu sou e o que faço, e se eu quiser acesso a este ou aquele evento, posso comprar ingressos como qualquer mortal, coisa sobre a qual eu cachimbarei em alguns instantes.

Aqui está um processo dos mais interessantes, cuja mastigação eu recomendo a todos os colegas: refletir sobre o que vocês representam e para que servem, aos olhos das entidades que convidam, mimam e presenteiam vocês. O que vocês têm que elas querem? O que vocês oferecem que a elas representa valor agregado? O que elas ganham com sua presença ou com a aceitação dos tais mimos?

Este processo se aplica, é claro, ao jornalismo de qualquer vertente. Mas é particularmente oportuno e nítido no jornalismo cultural, onde os brindes podem ser mais glamurosos, os convites, mais visíveis e o pó dourado das vaidades alheias cai constantemente sobre os ombros de profissionais que, outrossim, são mal pagos, exaustos e multi-estressados.

O espetáculo do jornalista dando ataque porque não foi incluído na lista, não recebeu o convite, não pode sentar na área reservada ou não ganhou a camiseta exclusiva não é apenas patético. É um sinal de que a reflexão acima proposta, que poderia indicar a ele qual a real engrenagem do seu ofício, jamais foi feita.

Em muitos casos, isto quer dizer que o jornalista acredita ser, ele mesmo, uma celebridade. Isto revela um duplo engano: nem ele é mais jornalista, nem ele sabe o que realmente é uma celebridade.

Um antídoto que recomendo enfaticamente e que procuro praticar com assiduidade é o que chamo de ação direta. Comprar discos e livros. Entrar na fila da bilheteria do cinema ou do teatro. Ir a uma exposição depois do vernissage.

Os benefícios desta prática simples são inúmeros e preciosos. Compreender o valor real do preço do ingresso ou do disco, sentir a frustração de não poder ir ou adquirir porque o dinheiro não dá, perder as horas necessárias na fila são alguns deles.

O mais extraordinário, contudo, é o que chamo de ?efeito Gault & Millaut?: total anonimidade (como a dos secretíssimos pesquisadores do famoso guia francês de gastronomia). Passar pela experiência sobre a qual você deve escrever exatamente como a maioria das pessoas que vai ler seu texto. Ouvir não o que os coleguinhas (ou os divulgadores) têm a dizer, mas o que o verdadeiro público acha. Apreciar a experiência nas mesmas condições de conforto ou falta dele, de expectativa ou falta dela. Avaliar se a experiência valeu o investimento de tempo e dinheiro nela feita. Observar em que camadas sociais, psicológicas, emocionais, a experência encontra eco – ou não.

Ah, sim: este simples gesto tambem põe de pernas para o ar o jogo de poder implícito na relação anterior, a patrocinada pelos reguladores das benesses.

Sobre o Festival do Rio, o que posso dizer? Gosto muito dele, e tenho entrado em fila com regularidade.

Tenho aprendido uma enormidade.”

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