Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > FOLHA, 80 ANOS

Depoimentos – FSP

Por lgarcia em 21/02/2001 na edição 109


FOLHA
, 80 ANOS

"Colunistas e chargistas da Folha revelam seu dia-a-dia e falam de sua relação com o jornal", copyright Folha de S. Paulo, 18/02/01

"BARBARA GANCIA: Dias de uma Recruta Zero

Hoje encaro como se tivesse sobrevivido ao teste do CPOR na selva amazônica. Meus primeiros meses na Folha foram os de um Androcles sem leão condescendente.

Minha função era rechear cem linhas diárias de uma coluna intitulada ‘Estilo e Prazer’, na Ilustrada.

De estilo, só recebia o silêncio ginasial dos colegas a cada manhã no elevador, quando eu sussurrava um automático ‘bom-dia’. O mau humor era o ‘zeitgeist’ dos idos anos 80.

Prazer, então, não me lembro de ter sentido nem mesmo nas raras vezes em que dei conta de entregar a coluna na hora certa e no tamanho previsto.

Um dos mimos que me aguardavam regularmente era topar o grande Cláudio Abramo batucando sereno na máquina de escrever que me era reservada, como se estivesse de pantufas no aconchego de sua sala.

Eu me lembro de todas as vezes em que fiquei lá contando os minutos, imóvel feito um pirulito, com o mito me dando as costas, sem que ele percebesse a existência desta Recruta Zero com uma tarefa do tamanho de um bonde para cumprir.

Redações são locais habitados por seres que não conseguiram se desvencilhar da vida escolar. E o trabalho consiste em fazer uma lição de casa depois da outra. É um ambiente que apetece a pessoas como eu, que respeitam a hierarquia e são afeitas à atmosfera gregária do colégio.

Quando entrei na Folha, em 1984, Paulo Francis era correspondente do jornal em Nova York. Eu tinha aprendido a ler só para ler o Francis e não me passava pela antecâmara do crânio que ele pudesse se materializar na Redação da Barão de Limeira. Foi em um daqueles dias terríveis dos primórdios na Ilustrada que um Borba Gato estacionou, de golpe, ao lado da minha mesa: ‘A senhorita poderia me informar onde fica a Primeira Página?’. Aaaah! Eu me pus a gritar: ‘Pensei que o senhor não existisse, que fosse só um capricho da minha imaginação!’.

Francis correu para o outro lado da Redação. Sorte minha que Ruy Castro tomou as rédeas e, naquela noite, levou-nos para jantar. (Barbara Gancia é colunista da Folha)

CARLOS HEITOR CONY: Testemunha de um jornal nacional

"Nascido e criado no Rio, nunca levava a sério a imprensa dos Estados, nem mesmo a de São Paulo, que nada ficava a dever à da então capital da República.

Na cobertura esportiva, a imprensa paulista era provinciana. Na política, parecia pretensiosa, querendo dar conselhos até mesmo a governos estrangeiros.

As diferentes Folhas, que se sucederam ao longo do tempo, começaram a dar prioridade à notícia e, de certa forma, ao leitor. Uniram-se na Folha, dando o pulo do gato. Esta, modernizando-se graficamente e tornando seu conteúdo nacional, superou os jornais do Rio em matéria de opinião e afinidade com as urgências da sociedade, sobretudo daquela que emergiria após o regime militar, em 1985.

A história é por demais recente para lembrá-la aqui. A Folha inaugurou a pluralidade de opiniões e soube evitar a partidarização de seu editorial. Reclamam que ela publica artigos de contraditórios escaninhos da sociedade, quando é exatamente nessa abertura do pensamento nacional que reside a sua força e sua independência.

No início dos anos 60, eu era colunista da Folha, revezando-me com Cecília Meireles na página de opinião. Dois cronistas do Rio, por sinal, em que pesasse a diferença entre a grande poeta e o modesto jornalista.

Uma temporada no exterior e deixei de colaborar com a Folha, até que, oito anos passados, com a morte de Otto Lara Resende, responsável pela coluna do Rio, na página A-2, ocupei o seu lugar, embora não tenha chegado a substituí-lo.

Sou testemunha da grande influência que o jornal exerce em todo o território nacional. De capitais onde órgãos da imprensa regional reproduzem minhas crônicas, recebo cartas e e-mails de leitores que só me lêem na Folha e não no veículo local. O mesmo acontece com outros colunistas.

Daí que podemos considerar a Folha, mais do que um jornal, uma grife. Com a óbvia exceção do autor destas mal traçadas, um referencial da nossa atualidade, marcado pela competência e pela seriedade. (Carlos Heitor Cony é colunista e membro do Conselho Editorial da Folha)

CLÓVIS ROSSI – No início, com os dois pés atrás

"Vim para a Folha com um pé atrás. Ou, para ser bem sincero, com os dois.

Natural: a rigor, nasci e cresci profissionalmente no jornal concorrente (o ‘Estado’), ouvindo falar o diabo de Octavio Frias de Oliveira, o publisher da Folha.

Por isso foi uma surpresa agradável, ainda que assustadora, o primeiro contato com ele. Era 1980, a extrema direita promovia atentados a bancas de jornais e a pessoas ou instituições ligadas à defesa dos direitos humanos, para torpedear a abertura política em andamento.

Escrevi um texto dizendo que, se se quisesse chegar aos responsáveis, bastava investigar o Doi-Codi (Departamento de Operações Internas/Centro de Operações de Defesa Interna, o coração do sistema repressivo do regime militar). A propósito: o atentado ao Rio-Centro, no ano seguinte, só provaria que minha tese era absolutamente correta.

No mesmo dia em que saiu o texto, o sr. Frias ligou para minha casa e perguntou se eu não gostaria de passar uns dias refugiado em sua granja em São José dos Campos, no interior de São Paulo, até que as coisas se acalmassem.

Recusei a oferta, não por valentia mas pela surpresa.

Poucos anos depois, ocorreu outro episódio que me fez retirar os pés de trás definitivamente.

Incumbiram-me de preparar um perfil de José Serra, que deixava o governo Franco Montoro para iniciar a escalada que o levaria a ser estrela nacional de primeira grandeza (até hoje).

Sabia que Serra havia trabalhado anos ao lado de Frias, como editorialista, antes de entrar para o governo. Era, claramente, o protótipo do ‘amigo da casa’. E os usos e costumes da mídia brasileira não permitem que ‘amigos da casa’ sejam retratados imparcialmente (negativamente, então, nem se fala).

Para piorar as coisas, quem falava bem de Serra não se importava em dar o nome. Quem falava mal pedia o anonimato. Fui conversar com o próprio Serra, como manda a praxe.

Ele só pediu um coisa: ‘Não diga, por favor, que sou o Delfim Netto do PMDB (seu partido à época). É falso e injusto’.

Concordei, fiz o texto, que saiu bonitinho, direitinho. Mas a Direção de Redação (suspeito que o próprio Otavio Frias Filho) mandou inserir um quadro (‘box’, no jargão jornalístico) cujo título era algo como ‘Serra é o Delfim Netto do PMDB’.

Pensei: se nem os amigos da casa são intocáveis, não há intocáveis neste jornal. Ótimo para os profissionais e melhor ainda para o leitor. (Clóvis Rossi é colunista e membro do Conselho Editorial da Folha)

GILBERTO DIMENSTEIN: Gilberto Dafolha

Quando estou trabalhando, nem sempre tenho paciência de soletrar meu sobrenome, composto de seis consoantes mescladas com quatro vogais; para complicar, bem no meio colam-se ‘n’ e ‘s’.

Para simplificar a vida das secretárias e livrar-me da irritante soletração homeopática, recorro a um recurso infalível: Gilberto, da Folha, sugiro.

Muitas vezes, o caminho é inverso. Quando me apresento a algum desconhecido, ele próprio trata de trocar meu sobrenome: ‘Você é o Gilberto, da Folha?’.

O sobrenome ‘Dafolha’ pode significar muitas coisas ao mesmo tempo, dependendo da visão que o interlocutor tenha do jornal: arrogante, ousado, corajoso, pessimista, oposicionista, criativo, briguento, leviano, independente, sensacionalista, inovador.

Vejo os olhares intrigados, exigindo uma definição, um convite para que eu me localize –e me explique – no caleidoscópio de imagens do jornal, como se a Folha tivesse poderes genéticos capazes de alterar meu DNA.

Entre os séculos 17 e 18, na Europa, os judeus desenvolveram o hábito de registrar sobrenomes associados às suas atividades profissionais: Goldman deveria trabalhar com ouro; Schneider deveria ser alfaiate. Talvez meus ancestrais, na Polônia, lidassem com lapidação de diamantes.

Trabalhando neste jornal há 16 anos, acabei por reproduzir esse costume: a Folha entrou no meu sobrenome porque – desculpe o chavão de festa de final de ano em empresa – entrou na minha esfera familiar.

Irrito-me com o jornal como me irrito com um irmão ou um tio desastrado. Desagrada-me aqui um certo tom de crônico pessimismo diante da vida. Também não gosto de um exagero oposicionista, que, muitas vezes, me parece adolescente, destinado a provar independência. Critica-se muito, o que é correto. Elogia-se muito pouco, o que considero uma falha. Talvez estes 80 anos, uma data magicamente redonda que se presta a lembrar ‘nem 8 nem 80’, mostrem que já estamos bem maduros para o equilíbrio entre a crítica e o elogio.

Ficaria mais satisfeito se o jornal fosse menos objetivo e mais militante a favor de causas sociais, levantando bandeiras. É a tal história do Narciso, retomada por Caetano Veloso: achamos feio o que não é espelho.

Olhando além do espelho, minhas críticas são um detalhe. A beleza do jornal é sua disposição permanente para mudar, melhorar, rever, ouvir críticas, reciclar-se. Aprender.

A Folha tem sido, para mim, um campo de experimentação, repartido entre Brasília, Nova York e São Paulo. Lambuzei-me até a alma na reportagem investigativa – das denúncias de corrupção às revelações sobre violência contra crianças –, de Nova York, pude retratar o impacto da sociedade de informação e, ao voltar a São Paulo, tento mostrar o que acredito ser o renascimento de uma cidade.

Sempre que ganhava prêmios (e foram muitos, felizmente), dividia-os com o jornal. Não por humildade, mas por pragmatismo funcional. Sei que não teria chegado aonde cheguei sem meu esforço pessoal. Mas também não teria ido tão longe sem o estímulo e o amparo – é imprescindível citar especificamente Otavio Frias Filho.

As vivências em Brasília, Nova York e São Paulo fizeram com que eu pudesse testar aqui a confluência das linguagens do jornalismo e da educação, produzindo livros e currículos para levar o cotidiano aos estudantes – talvez a principal resultante de meu aprendizado, que mescla Redação com sala de aula.

Para mim, a Folha é a segunda família e a segunda escola: família e escola são duas das grandes forças que compõem e moldam a identidade de um indivíduo.

O sobrenome ‘Dafolha’ não é, portanto, a solução para meu excesso de consoantes, mas a própria construção de uma identidade. (Gilberto Dimenstein é colunista e membro do Conselho Editorial da Folha)

JOSÉ SIMÃO: Quero apagar 13 velinhas!

O bom de trabalhar na Folha é que todo mundo lê. E o bom de trabalhar na Folha é que ninguém amola. Só me ligam desejando feliz Ano Novo. A não ser, claro, a Ilustrada cobrando a coluna. Parecendo rádio-relógio: ‘São 12h33, a coluna está pronta?’. ‘São 12h47, já mandou a coluna?’ ‘Alô, é o Simão?’ ‘Não, é O PRIMO DELE!’ E o bom de trabalhar na Folha é garantir a ração do Billy e as férias em Miami!

E o bom de trabalhar na Folha é quando dizem que a Folha é pessimista. Sendo que o otimista é um pessimista mal informado! E dizem também que a Ilustrada só noticia banda alemã. O que é uma injustiça. Tem até palavras cruzadas. Pra estudante de filosofia! O que eu mais gosto na Folha é do Sarney e da Aline. Dos títulos do Sarney, ‘A vaca e a Internet’ e ‘Adeus à vesícula’.

E a Aline das tirinhas do Adão. A tarada sem culpa!

E o que eu mais gosto de trabalhar na Folha é que fui pra França em 98 no mesmo avião que o Janio e o Cony, e o povo dizia: ‘Se o avião cair, acaba a oposição no Brasil’. E pra entrar na Folha, em 87, passei por uma banca tão rigorosa que parecia teste pra imortal, Academia Brasileira de Letras. Mas era pra redator do suplemento ‘Casa e Cia.’ com a Lilian Pacce e o Zeca Camargo. No Limite! O desafio era conseguir fechar o suplemento!

Depois passei para a Ilustrada. Onde fui uma mistura de Jerry Lewis com Jim Carrey. Aparecia um cara de oclinhos fundo de garrafa parecendo um ET: ‘Tem chamada de Primeira Página?’. O queeê? Eu não sabia o que era chamada nem muito menos o que era Primeira Página. E tô vivo até hoje! E aí o Caversan veio me ajudar e disse: ‘Cada um fecha uma metade da página 2’. E aí nós dois fechamos a mesma metade. Então me botaram como colunista e me mandaram trabalhar em casa! Há 13 anos. Desse bolo dos 80, eu quero apagar 13 velinhas! E hoje eu sou o Zé Simão, mas no começo eu me matava pra fazer textos ‘inteligentíssimos’ e aí saía na rua, e diziam: ‘Olha aquele engraçado da Folha!’. Assinado Macaco Simão, o ombudsman de mim mesmo! (José Simão é colunista da Folha)

LUIS NASSIF: Um tiro de canhão de luz

Com o avanço da informática, há anos a Redação virou um número de telefone, no qual diariamente despejo minha coluna. Influenciar diretamente governo, sociedade, empresas, sindicatos e parlamento agora depende apenas da competência individual de cada um de nós, jornalistas da Folha.

O canal para as transformações está aí, foi criado durante 80 anos, com tenacidade, pouca ideologia, muita visão de marketing, uma sucessão de jornalistas, geração após geração, moldando o conteúdo.

Usando as ferramentas de mercado, o foco no cliente (como se diz hoje, nos programas de qualidade), a empresa acumulou gás financeiro, tiragem, prestígio e independência.

Criou-se, então, essa mistura curiosa, em que o componente de marketing, que sustenta a tiragem, que atrai tantos leitores e irrita outros tantos, garante a massa crítica necessária para que o jornal seja o agente preferencial das transformações brasileiras.

Aí, quando a gente senta no computador e começa a pensar no tema do dia, baixa uma baita angústia, o peso da responsabilidade de saber-se usando um canhão – de acordo com a expressão do sr. Frias.

É nessa hora que aparece o ‘custo da mídia’. Um enfoque errado pode paralisar avanços. Um tiro perdido pode liquidar reputações.

Mas, quando se acha a idéia certa, perdida em alguma cabeça sem acesso à opinião pública, e se joga sobre ela o canhão de luz da Folha e depois se saboreia a maneira como ela vai penetrando na opinião pública, modificando conceitos, é como no velho time do Santos: basta centrar para a área e sair correndo para o meio de campo, para comemorar o gol. (Luís Nassif é colunista e membro do Conselho Editorial da Folha)

MARCELO COELHO: Entre o bem, o mal e a impessoalidade

Comecei a trabalhar na Folha em agosto de 1984. Dado o seu engajamento na luta pelas diretas, a Folha conhecia um período de prestígio político excepcional. Tornara-se o ‘jornal da sociedade civil’; absorvera, aos poucos, os jornalistas e colaboradores egressos da chamada ‘imprensa nanica’ e concentrava, sem dúvida, as vozes mais importantes do debate nacional em torno da democratização.

Do ponto de vista de sua organização interna, a Folha iria passar por mudanças importantes. Explicitava-se, formalmente, o projeto de um jornalismo pluralista, moderno, apartidário e crítico; normas éticas hoje consensuais na prática jornalística, como a de ‘ouvir o outro lado’, eram implantadas, com muita dificuldade, aliás; adotava-se, com o ‘Manual da Redação’, uma série de procedimentos visando à padronização da linguagem e das técnicas de edição.

Dois processos, portanto, corriam em paralelo: o da afirmação do prestígio do jornal, de sua função ‘cívica’, por assim dizer, e o da instituição de normas editoriais técnicas e impessoais.

Pode parecer estranho, mas grande parte dos problemas e dos êxitos, dos mal-entendidos e das turbulências que a Folha viria a conhecer de 1984 para cá deriva, a meu ver, do jogo muitas vezes conflitante entre esses dois processos.

Para muitos leitores, o princípio do apartidarismo do jornal contrastou, frequentemente, com a sua ‘função cívica’; em momentos como o das diretas ou da luta pelo impeachment de Collor, era claro que a Folha estava, digamos, ‘do lado do bem’.

Ainda que eu acredite que o lado do bem de fato existe e que em campanhas como essas o que estava em jogo eram princípios institucionais com os quais não há como transigir, o problema é que, para o jornalismo, não é possível raciocinar em termos de bem e de mal.

Para meu uso pessoal, traduzo o conceito de apartidarismo do seguinte modo: onde alguém apresenta ‘soluções’, o jornalista deve ver ‘problemas’. Muitas vezes a Folha parece implicante e injusta por ver problemas demais, por forçar a nota crítica, nem sempre com razão.

Sem dúvida, um tonzinho implicante volta e meia surge no jornal; é que ver ‘problemas’ exige tempo, espaço e serenidade, coisas de que não dispomos muito – nem como leitores, nem como jornalistas. (Marcelo Coelho é colunista e membro do Conselho Editorial da Folha)

RENATA LO PRETE: O gosto pelo conflito

Volta e meia me perguntam como é a convivência entre Redação e ombudsman. Querem saber o que acontece quando entro no elevador ou no restaurante e encontro alguém cujo trabalho acabei de criticar.

Posso dizer que as reações variam bastante. Há cara feia, aparente indiferença e, às vezes, diálogo civilizado. Mesmo no terceiro caso, não é fácil para mim e menos ainda para o ‘outro lado’. Compreensivelmente, coluna de ombudsman não é lugar em que jornalista goste de aparecer.

Sem prejuízo dessa constatação, o tempo me fez concluir que a Redação da Folha não apenas se habituou a conviver como tem algum apreço pela figura do ombudsman.

Calma. Não estou dizendo que os jornalistas gostem de mim. Sei de vários que não gostam. Deve ser maior o número dos que não gostam e eu não sei.

Penso é que, independentemente de sua opinião sobre o ocupante, não acham ruim que a função exista.

Em primeiro lugar, é um conforto poder dizer ‘então o sr. ligue para a ombudsman’ se o leitor não se dá por satisfeito com a primeira desculpa que lhe é oferecida. Perdi a conta das vezes em que alguém me procurou depois de ter sido despachado com essa frase.

Em segundo, como ocorre em tantos ambientes de trabalho, nem todos se amam dentro da Redação. Não raro, o mesmo comentário do ombudsman produz a ira de uns e a velada aprovação de outros.

Ao lado desses dois motivos pouco elevados, existe um terceiro que me parece bastante saudável: o gosto por conflito que é característico da Folha.

Há editores que reclamam comigo quando assuntos sob sua responsabilidade passam muitos dias sem aparecer na crítica interna.

Jogo de cena? Em alguns casos, sim, mas há também o desejo de defender o que foi feito, rebater as objeções, pegar a ombudsman no contrapé ou simplesmente ter o trabalho comentado.

A Folha, que tanto discute com os outros – às vezes com razão, às vezes sem –, tem no ombudsman um instrumento para discutir consigo mesma.

Um instrumento com limitações, sem dúvida, tanto características da função quanto derivadas de falhas das pessoas que a exercem. Mas a aniversariante merece crédito pela disposição de submeter-se a esse exame diante do leitor. (Renata Lo Prete é ombudsman da Folha)"

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