Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > Querem melhorar a imprensa pela via dos assessores da imprensa

Deputados do PT devem desconfiar da mídia

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

CARTILHA DA DESINFORMAÇÃO

Alberto Dines

Os integrantes da maior bancada da Câmara Federal receberam da direção do partido o “Manual do deputado petista 2003” [O Globo, 20/01, pág. 4; veja íntegra da matéria na seção Entre Aspas desta edição, chapéu MÍDIA E GOVERNO].

O documento de 68 páginas designado como “arsenal petista” reúne uma série de recomendações de caráter “profissional” perfeitamente válidas para o conhecimento de parlamentares estreantes, não afeitos à máquina legislativa.

Chama a atenção o conjunto de orientações no tocante à imprensa. Aqui a cartilha deixa de ser um inocente bê-á-bá endereçado aos calouros para converter-se num compêndio destinado a explorar as deficiências intrínsecas da mídia. Significa que o partido que controla o Poder Executivo está preparando seu pessoal da linha de frente para colocar o Quarto Poder sob suspeição. A imprensa não aparece como peça democrática, elo entre governo e sociedade, mas como perigosa instituição que precisa ser driblada e ludibriada. Fica parecendo que a opinião pública não precisa ser abastecida com informações completas para formar seus juízos, mas enganada com o mínimo de elementos.

Alguns itens da suposta “Cartilha da Desinformação” mencionados na matéria do Globo:

** A imprensa separa o joio do trigo mas só publica o joio.

** Não existe informação neutra ou imparcial.

** É preciso cuidado para evitar que a declaração possa ser utilizada num contexto diferente.

** A recomendação é falar pouco.

** O deputado deve evitar a circulação na sala de imprensa da Câmara e deixar este papel para o seu assessor de imprensa.

** Devem ser exploradas as colunas de notas curtas de jornais e revistas porque têm elevado índice de leitura.

Se a imprensa não tivesse falhas ? e falhas graves ? não haveria razão para a existência deste Observatório e de outros grupos que fazem o mesmo trabalho. A crítica da mídia é atividade essencial no processo democrático contemporâneo. Mas a crítica da mídia visa, antes de tudo, melhorar o desempenho dos meios de comunicação, e não liquidá-los. A crítica da mídia é contrapoder, fator de aperfeiçoamento e incentivo à credibilidade.

Nenhum crítico da mídia pode pretender a desmoralização da instituição porque com isto estará solapando não só a razão de ser da sua missão como ferindo o delicado equilíbrio indispensável ao funcionamento de um regime democrático.

O mais grave é que esta “Cartilha da Desinformação” teria sido preparada por jornalistas profissionais que, teoricamente, deveriam ser os maiores interessados em melhorar a qualidade da informação. Pelo que mostra a matéria, não estão. Querem melhorar a imprensa pela via dos assessores da imprensa.

Para evitar mal-entendidos e desconfianças no início de um governo e antes de começada a nova legislatura é indispensável que a bancada do PT na Câmara desminta imediatamente a matéria do Globo e ofereça à sociedade a íntegra do documento.

O clima de esperança não pode ser conturbado pela desconfiança. [Matéria fechada às 18 horas de 20/1/03]

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