Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO CIENTÍFICO

Desastre jornalístico

Por lgarcia em 20/05/2000 na edição 90


Vânia Mattozo (*)

Depois de quatro anos, a Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) voltou a promover seu congresso. A sexta edição do evento, realizado em Florianópolis de 2 a 5 de maio, reuniu 250 pessoas, entre jornalistas, pesquisadores e estudantes, para debater a ética na mídia e na ciência. Além das diversas abordagens sobre o tema central, especialistas falaram sobre biodiversidade, transgênicos e direito ambiental, pautas freqüentes no noticiário atual.

Para os pesquisadores e jornalistas convidados, a ciência e o noticiário científico brasileiros ainda enfrentam problemas sérios. O Brasil é a oitava economia do mundo e tem parque tecnológico razoável, mas a pesquisa brasileira é incipiente: representa apenas 1% da produção científica mundial. A cobertura jornalística continua deficiente e os jornalistas têm dificuldade para entender e traduzir ciência e tecnologia.

Ciência para o desenvolvimento

Durante a conferência de abertura, João Steiner, representante do Ministério da Ciência & Tecnologia (MCT), mostrou dados gerais sobre os investimentos públicos no setor e apresentou o projeto dos Fundos Setoriais, que será implementado, a partir do próximo ano, com recursos das tarifas sobre serviços públicos.

Com os recursos desses fundos, que serão destinados prioritariamente a pesquisas que contemplem as áreas de atuação das empresas brasileiras, as verbas para ciência e tecnologia terão aumento de 100%, segundo Steiner, para quem a adesão de empresas privadas à produção científica e tecnológica é uma das soluções para incrementar a pesquisa no país.

Embora reconheça a grande concentração de recursos humanos e financeiros na Região Sudeste, onde se desenvolvem aproximadamente 85% das teses de doutorado e há 19 institutos mantidos pelo MCT, Steiner disse que não há política de governo para mudar a situação.

Para Glaci Zancan, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), os novos recursos são muito bem-vindos, mas o Brasil precisa de educação científica em todos os níveis, e a concentração das pesquisas no Sudeste, principalmente em São Paulo, é um obstáculo para o desenvolvimento.

A ciência como hobby

Segundo Glaci, as crescentes taxas de retorno do investimento ? 50% das pesquisas estão no setor público e 20% no setor privado ? são um claro alerta de que o futuro é cada vez mais definido pela ciência e a tecnologia. Os dados oficiais mostram que os valores investidos pelo governo brasileiro no último ano, aproximadamente US$ 60 mil por pesquisador, equivalem ao investimento da China em 1985.

Além da falta de uma política oficial consistente, a busca de modelos externos para a ciência é outro problema. “Somos capazes de fazer um saber próprio e definir nosso futuro”, disse a pesquisadora. “Para isso, precisamos de investimento contínuo ou crescente.” Segundo Glaci, é papel do jornalismo convencer o público de que “somos um povo capaz e podemos crescer, em qualquer circunstância”.

A má formação de professores e o problema, sempre recorrente, da falta de dinheiro têm transformado a pesquisa brasileira em hobby, declarou Roberto Leal Lobo Filho, ex-reitor da USP. Para ele, pensar em resultados científicos relevantes sem considerar educação básica e ensino superior é impossível: “Não dá para ter força na área de ciência sem um ensino básico de qualidade.” O resultado desse hobby é uma produção científica que não cresce, não estimula o ensino de ciências e não traz resultados sociais relevantes. Lobo Filho diz que um dos caminhos para resolver essa situação é a atuação do jornalismo, participando no debate sobre o desenvolvimento científico e auxiliando a resgatar a pesquisa como fonte produtora de desenvolvimento.

Discussões éticas

Depois que a aplicação do conhecimento científico gerou tecnologias com propósitos tão opostos como a penicilina e a bomba atômica, mídia e ciência não puderam mais ignorar o interesse público. Desde o começo, várias dificuldades cercaram a relação entre pesquisadores e jornalistas. Linguagens e métodos de trabalho diferentes para buscar a comunicação com públicos distintos originaram conflitos e troca de queixas. Os jornalistas pecam no noticiário científico, diziam os pesquisadores, porque publicam informação incorreta e porque favorecem o sensacionalismo para aumentar o interesse público. Os cientistas não querem divulgar seus experimentos e dificultam o acesso às pesquisas, alegavam os jornalistas.

Na prática, a necessidade da divulgação para ambas as partes têm provocado algumas mudanças. “O pesquisador que não divulga suas pesquisas morre”, disse Glaci Zancan. Para Lobo Filho, a divulgação também pode ser um meio para obter recursos futuros.

Os próprios jornalistas reconheceram problemas no noticiário científico. Mônica Teixeira, da TV Cultura, afirmou que o jornalismo sobre ciência e tecnologia ainda “é uma droga”, porque os repórteres seguem a mesma estrutura de notícia e repetem informações. Como exemplo, Mônica citou o caso do Projeto Genoma, que tem implicações muito maiores do que somente a cura de doenças ou a pretensa busca da imortalidade, como têm sido publicado pela imprensa.

Medos e expectativas

Outro tema tratado inadequadamente na imprensa são os produtos transgênicos. Os professores Miguel Guerra e Rubens Nodari, da UFSC, alertaram para a superficialidade que tem envolvido o debate. “Limitar a questão em ser a favor ou contra é simplificar a situação”, afirmou Guerra. O conhecimento científico atual ainda não permite tirar conclusões sobre riscos e benefícios, somente o desenvolvimento de pesquisas poderá garantir a isenção de danos ao ambiente ou à saúde. Nesse caso existem, particularmente, dois aspectos importantes. O interesse comercial das empresas que querem lucrar com produtos pouco conhecidos e o endosso de cientistas que, diante da falta de comprovação de danos, assumem que os riscos não existem.

Não há nenhuma pesquisa brasileira sobre o assunto, mas como o Brasil importa alimentos dos grandes produtores de transgênicos (Estados Unidos, Canadá e Argentina, cujas legislações não prevêem a obrigatoriedade do rótulo de informação) é possível que os brasileiros estejam consumindo esses produtos sem saber. “É obrigação do governo fiscalizar isso. Está no código de defesa do consumidor”, lembrou Nodari.

O compromisso ético do cientista é tornar público o conhecimento científico e suas aplicações, afirmou Orlando Tambosi, professor de Jornalismo da UFSC. Desde os tempos modernos, quando já era possível conhecer cientificamente a natureza e, com esse conhecimento, interferir no mundo, cientistas vêm sendo acusados de interesses escusos e comportamentos antiéticos. O horror que convive com o fascínio no senso comum reflete, na opinião de Tambosi, um medo ? o conhecimento é perigoso e pode ser uma ameaça à vida ? e uma expectativa ? a ciência pode operar milagres como a cura do câncer e da Aids. Uma confusão freqüente é tomar os conceitos ciência e tecnologia como sinônimos. A ciência trabalha para fundamentar teorias e produzir um bem em si mesmo: conhecimento. A tecnologia produzida com os fundamentos científicos é que pode ser uma dádiva ou uma maldição: “A aplicação do conhecimento científico para produzir bens e produtos é uma decisão política, não do cientista. Como a construção da bomba atômica”, argumentou o professor.

Códigos ineficazes

Os equívocos produzidos pelo senso genérico têm transparecido na mídia, principalmente porque os jornalistas buscam poucas fontes e não têm acesso a informações que permitam conhecer a complexidade do fato científico. Nilson Lage, jornalista e professor da UFSC, diz que todo veículo de comunicação deveria organizar um banco de dados. Assim, o repórter pode pesquisar o que já existe e o que foi feito, e encontrar mais fontes especializadas para falar sobre o assunto.

A cláusula de consciência existente em muitos códigos de ética para jornalistas é absurda, declarou o professor Francisco Karam, da UFSC. De acordo com essa cláusula, o profissional pode ouvir somente as fontes com as quais concorda e produzir a matéria seguindo sua consciência pessoal. O professor também citou outro extremo, os casos em que o jornalista não têm nenhuma gerência sobre o próprio trabalho. Assim, o profissional que discorda de uma matéria proposta pela linha editorial só tem uma alternativa: pedir demissão.

Para Karam, embora existam muitos códigos de ética, a maioria é ineficaz porque não há modo efetivo de garantir seu cumprimento. Ele e Beth Costa, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), concordaram que isso pode mudar se a Federação puder emitir os registros profissionais. Atualmente, a emissão de registro é feita pelo Ministério do Trabalho e, dessa forma, a Fenaj não tem poder de coibir abusos.

O veto presidencial à lei que passaria o registro para a FENAJ não tem data para ser discutido. O Presidente e o Ministro do Trabalho já insinuaram que o veto foi um erro e que os congressistas poderiam revogá-lo, mas isso não representa muita coisa, disse Beth. A discussão sobre o código de ética deverá continuar durante o congresso da FENAJ, em setembro próximo.

Mudança de estrutura

Tornar a ABJC mais funcional foi o que motivou as mudanças no estatuto, que entram em vigor a partir da próxima gestão. Embora exista há 23 anos, a Associação realizou apenas seis encontros nacionais e, até recentemente, esteve envolvida com trâmites burocráticos, como a regularização das anualidades, em atraso desde 1996.

Os cargos atuais serão extintos e, com a nova estrutura, a Associação passará a funcionar com 4 diretorias. A Diretoria Administrativa assumirá as funções dos atuais cargos de tesoureiro e secretário. O principal compromisso da Diretoria de Eventos será promover o congresso a cada dois anos e realizar a Assembléia Geral. A idéia é aproveitar as Reuniões Anuais da SBPC, que atraem grande parte dos jornalistas científicos, para reunir os associados em Assembléia. A qualificação profissional também foi contemplada na nova estrutura. Ficará a cargo da Diretoria Acadêmica montar cursos com especialistas em ciências, como Física e Biologia. Foi criada também a Diretoria de Publicações e Divulgação que deverá implementar o website da Associação e disponibilizar material pertinente à área. Para José Roberto Ferreira, tesoureiro da Associação, a nova estrutura possui um perfil de atribuições que garantirá funcionalidade às Diretorias porque cada cargo já terá previamente definidas as suas responsabilidades.

As outras novidades são a criação da categoria de sócio institucional, o que permitirá maior interação com os centros de pesquisa, e a possibilidade de recondução das Diretorias por mais um mandato. O estatuto anterior previa uma gestão única de 2 anos.

Enquanto dezembro não chega, quando será eleita a nova gestão, a atual diretoria quer voltar a contatar seus associados. Durante o tempo em que a Associação não promoveu eventos, muitos profissionais de redação se afastaram. “Nesse congresso, fora os profissionais convidados, o único grande veículo presente foi o Jornal do Commercio, de Recife, que enviou sua subeditora de Ciência & Meio Ambiente”, registrou José Roberto Ferreira.

Muitos formulários de inscrição para sócio foram distribuídos no último dia do congresso. A iniciativa, batizada de “arrastão” por José Hamilton Ribeiro, presidente da ABJC, deu resultado: 89 novos associados se somaram aos 400 já formalmente registrados.

Programação

O programa do congresso foi dividido em sessões de minicursos e mesas-redondas, e contou com a participação de 40 convidados, entre eles, alguns nomes conhecidos da mídia e do jornalismo científico, como Sonia Bridi, da TV Globo; André Singer, da revista Superinteressante, e Wilson da Costa Bueno, da Universidade Metodista de Comunicação. Os convidados vindos do exterior foram Andrea Kauffman Zeh, da revista inglesa Nature, que falou dos critérios editoriais dessa publicação, e Pierre Fayard, pesquisador da Universidade de Poitiers, França, que proferiu minipalestra sobre a cobertura de ciência na mídia européia.

A programação também garantiu espaço para a apresentação de pesquisas acadêmicas e de experiências em divulgação científica. A diversidade de assuntos tratados nas pesquisas apresentadas (jornalismo de precisão, nomenclatura científica, tecnologia em agropecuária, conservação de energia, projetos de interação entre ciência e tecnologia na divulgação ambiental) reflete a crescente preocupação de discutir a divulgação sobre ciência e a busca pela qualificação profissional. Os relatos de experiências bem-sucedidas foram feitos por jornalistas da Câmara Municipal de Belo Horizonte e do Jornal do Commercio, que mantém há 11 anos uma página diária sobre Ciência & Tecnologia e recebeu, em 1997, o Prêmio José Reis.

Organizado pela Agência de Comunicação com o auxílio do Departamento de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o evento foi o primeiro realizado fora do eixo Rio-São Paulo, seguindo a própria disposição manifesta pela atual diretoria da ABJC de descentralizar a realização do encontro para promover maior interação entre o jornalismo e a ciência brasileiros.

Para José Hamilton, a árdua tarefa de buscar recursos e o trabalho para organizar um congresso desse porte foram recompensados pelo alto nível dos debates, o que resultou no auditório sempre lotado por uma assistência disposta a prolongar as discussões, apesar da restrição de horário prevista na programação.

(*) Jornalista da Agência de Comunicação

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