Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > MARÍLIA, SP

Desempregado pela liberdade de imprensa

Por lgarcia em 07/05/2003 na edição 223

MARÍLIA, SP

José Vanir Daniel

Meu nome é José Vanir Daniel, sou jornalista profissional com 27 anos de intensas atividades. Há sete anos, em 1997, estava atuando como editor tampão do jornal O Popular, de Marília, SP, quando recebi dossiê que provava enriquecimento ilícito do prefeito daquela cidade, José Abelardo Camarinha. O documento me foi entregue por sua ex-mulher e cunhado. Sabia que o interesse deles era vingança. Sabia também do perigo que aquele dossiê representava. O dono do jornal, Valdemar Machado de Oliveira, também sabia do documento. Disse a ele que não publicaria tal documento, pois não havia nenhuma segurança para tal. Disse que analisaria melhor a situação.

Enquanto isso, o dono do jornal foi assediado pelos assessores do prefeito, principalmente Carlos Garrossino, chefe de Gabinete. A coisa foi adiante e tornou-se extremamente perigosa. Fiquei sabendo da situação pela noiva do dono do jornal. Ela me disse que o dono do jornal estava se encontrando com assessores do prefeito para negociar a não-publicação do documento.

Diante da situação, comuniquei ao promotor da época, Washington Assis, sobre o ocorrido e deixei com ele cópias do dossiê como prevenção do que poderia ocorrer. Na negociação com Valdemar, os assessores do prefeito queriam ter certeza de que meu silêncio também estava incluído. Como o prefeito sabia que eu jamais me calaria, passou a armar uma cilada contra mim. Um carro passou a me seguir e ficou estacionado na rua, numa esquina próxima de minha casa. A quem avisar? Boa parte da cúpula da polícia era dominada pelo prefeito. Pensei na Polícia Federal, mas imaginei que ela também poderia ter relação de corrupção com o prefeito. O promotor começou, estranhamente, a me evitar, dando desculpas de que não estava. No dia D, Valdemar, estranhamente, me encontrou e disse que eu fosse com ele ao jornal, para me pagar. Fui. Estávamos conversando no carro dele, em frente à sede do jornal, quando chegou Carlos Garrossino, o chefe de Gabinete do prefeito, e entrou no jornal, na sala de Valdemar. Fiquei no carro, mas algo me soava estranho. Foi quando percebi que algo estava para acontecer. Corri até a porta do jornal para avisar a Valdemar que se afastasse de Garrossino. Em seguida, choveu polícia por todo lado.

Dignidade perdida

Fui levado para um canto e interrogado sob ameaças por dois delegados e policiais. Ele me tomaram a fita que eu tinha gravado no dia anterior, em que Garrossino fazia a proposta para que não publicássemos o dossiê. Um dos delegados disse que eu me preparasse para morrer. Fui levado para a delegacia sem que meus direitos fossem atendidos. Me prenderam, junto com Valdemar, numa cela comum. Os dois dias que passei ali foram terríveis. Um preso nos alertou para que não fossemos ao pátio, pois havia um plano para nos matar.

Mesmo eu sendo diretor do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, meus direitos não foram atendidos. No dia da prisão, consegui avisar a um colega, que comunicou ao mundo lá fora. O então presidente do Sindicato dos Jornalistas, Everaldo Cruz, compareceu, mas em nenhum momento lutou pela minha causa. Não achei isso estranho, pois ele me via como um adversário político, já que eu fazia parte do grupo que o denunciava, na época, por corrupção no sindicato, como foi publicado depois na imprensa.

Consegui a liberdade graças ao advogado Dalvaro Girotto dois dias depois. Fui condenado à revelia, porque a Justiça não aceitou que eu recebesse segurança para comparecer às audiências, já que o prefeito José Abelardo Camarinha anunciou minha execução publicamente.

Passados sete anos, estou desempregado, sem condições de sustentar a família, condenado injustamente e, al&eacuteeacute;m disso, ainda ameaçado de morte pelo prefeito. Já fiz de tudo para que o país reconhecesse minha causa.

Peço ajuda para retomar a dignidade que perdi por tentar mostrar uma pequena fração do grande bolo de corrupção, bandidagem e assassinatos que acontecem neste país.

(*) Contatos: josevanirdaniel@yahoo.com.br

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